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De Amor e de Caçadas


II. A Caça

 

“Caçar é assim um mester duro, que exige muito do homem: há que estar treinado, enfrentar cansaços extremos, aceitar o perigo. Implica toda uma moral da mais enérgica elegância. Porque o caçador que aceita a moral desportiva cumpre os seus mandamentos na maior solidão, sem outras testemunhas nem outro público que os picos serranos, a vaga nuvem, a azinheira austera, a trêmula sabina e o animal que aí passa. A caça é assim semelhante à regra monástica e à disciplina militar” (Ortega y Gasset. Sobre a Caça e os Touros)

 

Depois do amor, a aventura. Quando iniciei a Primeira Biblioteca – e mesmo boa parte da Segunda – preocupavam-me os livros legíveis, aqueles que obrigatoriamente devemos ter, acessíveis e dóceis, à mão, criando o ambiente propício para o conforto. Não há lugar melhor para se estar, para reclinar-se na poltrona acompanhado de um charuto e um vinho, do que a Biblioteca: ela é extensão de quem lê e cria labirintos, tão ao gosto de Borges, onde podemos nos perder por horas. Perdemos a noção do tempo, como o comedor de ópio de Baudelaire: horas depois de imersos na leitura daquele livro, um livro específico que sempre está próximo, olhamos para o relógio ou para a janela e vemos, surpresos, que amanhece.

 

Escrevi “livros legíveis”, como se todos, da espécie da qual falo, não o fossem. Sim, são, todos, de certa forma. Mas há livros que não foram feitos para se ler. Entendamos bem: ler Dom Casmurro é sempre prazeroso – mas pode, deve, ser feito em uma edição que permita ser sublinhada, anotada, manipulada. Ler Dom Casmurro na primeira edição não permite isso – é, mesmo, um crime manipulá-la dessa forma; exige um espírito mais contrito, quase religioso, um local especial para guardá-lo. Abri-lo é uma experiência mística: os sentidos vêm à tona, o tato torna-se extremamente sensível, os olhos perscrutam cada folha, cada página, percebendo as irregularidades, as manchas, o tipo das letras, a lombada já gasta, devorada quem sabe por uma espécie de traça morta há tempos. Não é um livro ilegível no sentido estrito do termo: mas é quase, quase apenas, proibitivo – e não me refiro ao valor monetário.

 

Não sou um colecionador. Longe disso, a condição de professor impede o acesso às raridades. Mas por vezes... por vezes uma surpresa aguarda aquele que saltou sobre o abismo e correu o risco. Aconteceram algumas, poucas, vezes, nesses anos todos. Quem sabe o espírito de caçador, de perseguir a presa por entre florestas de volumes velhos e ensebados, não tenha começado, ele também, em minha juventude? Pois é aí que identifico o primeiro contato com o que chamam de raridade: uma obra que já citei acima, na primeira parte deste texto, História da Caricatura no Brasil, De Hermann Lima. Quatro volumes, encaixotados por quinze anos, até a sua descoberta, metido no fundo do guarda-roupa, junto com a papelada velha do meu pai. Folheei os volumes, um por um, abismado. Senti-me tragado por um turbilhão, como se mergulhasse em um universo que resgatava toda a História – algo como a viagem de hipopótamo de Brás Cubas; cada ilustração, cada parágrafo, enternecia e assustava. Não sabia que era raro, algo que só soube alguns anos depois da descoberta, quando li uma reportagem, no Jornal da Tarde, na época em que era considerado um novo modo de fazer jornalismo (agora sucumbiu à facilidade e à fatuidade superficial – virou uma revista diária, chata), a respeito de um “achado”: cinco coleções completas da História da Caricatura..., perdidos por mais de trinta anos no sótão ou no porão da José Olympio. Restavam poucos volumes, os demais destruídos por um incêndio. Duas palavras chamaram minha atenção: Obra Rara. Mudou meu modo de ver o livro, naquele momento. Estão ali, os quatro volumes de capa azul e gravações douradas, primeira edição, perfeita, na estante fechada. Foi o primeiro passo – e a cada vez que entro em um sebo (os alfarrabistas sabem o que vendem, o que torna o acesso proibitivo), tenho sempre presente a expectativa do que, afinal, poderei encontrar. [Continua abaixo]



Escrito por Fabio às 03h15 PM.

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[Continuação - II. A Caça]

 

Estes livros também têm suas marcas, também têm seus significados. Surgem, repentinamente, nos lugares mais inesperados. E são arredios, exigem paciência e, por vezes, geram frustração. Encontrei, no lixo, os dois volumes da obra completa de Edgar Allan Poe traduzidos por Érico Veríssimo e com uma pequena rubrica “EV” – que pode, no fim, ser apenas uma mentira (e acho que é). O acaso entra em jogo, a fortuna gira sua roda. Sair de casa torna-se uma aventura, constante e presente. Por isso não consigo desviar de uma livraria, qualquer que seja: no balcão de ofertas, entre livros de um ou cinco reais, pode estar a pérola.

 

Esta a caça a que me refiro: percorrer, várias vezes ao mês, os sebos, todos, todos, na esperança de encontrar a presa. Às vezes, um livro fácil, uma primeira edição de Gilberto Freyre, Quase Política, por preço baixo; outras, perseguição difícil, implacável: anos, cinco ou seis, procurando aquilo que os especialistas em estudos medievais consideram uma grande raridade: a edição fac-similar da Demanda do Santo Graal preparada pelo Pe. Augusto Magne. Este, aliás, tem sua história: o primeiro volume data de 1955; o segundo, de 1970; o terceiro (o primeiro do glossário, que deveria ser formado por três volumes), de 1967; os dois volumes finais do glossário nunca foram publicados. Pois estava lá, em uma livraria de São Paulo que freqüentava há anos, perdido no porão. O proprietário resolveu fazer uma reforma, fechou a loja por três meses e – surpresa! – escondidos, os três volumes. Sorte minha: na página de rosto do livro 1, a lápis: edição incompleta. Não sabiam o que tinham ou, se sabiam, não tinham todas as informações: pedia 250 reais. Vale coisa de 800 e nem a Biblioteca da Universidade do Porto possui esta edição. O drama do caçador é a falta de munição. Contando a carteira e o saldo, era exatamente o que pediam. Voltei a pé para casa. Motivo justo.

 

Só mais uma história de caçador. Prometo. Não se preocupem que não vou enfastiá-los com um catálogo, ainda que meu catálogo de presas seja extremamente sucinto: uns vinte volumes, no máximo, exagerando um pouco. Pois que, às vezes, um livro salva nossa pele e nos tira de situações terríveis, como aquelas geradas por contas que se acumulam na estante. Ainda estudante, encontrei uma edição da Carta de Pero Vaz de Caminha comentada por Jaime Cortesão, de 1940: livro ainda fechado (chamo-o virgem), com os cadernos lacrados. Cópia da Carta, transcrição do texto original, adaptação para o português contemporâneo e um estudo, o melhor que já li, sobre o documento. Um primor, uma beleza que me fez gastar boa parte do décimo-terceiro, que não era lá grande coisa (aliás, fato que não mudou muito). Anos depois, precisei desse papelucho que chamam dinheiro. Uma pesquisa, breve, com um colega que fora livreiro, me levou ao valor de 300 reais! Vendi, dilacerado. Uma semana depois... Uma semana depois estava lá, outro volume, em melhor estado do que o meu - por 40!

 

A caçada exige persistência e sorte. José Midlin contou em seu livro Uma Vida Entre Livros, que perseguiu por vinte anos uma primeira edição d’O Guarani e que chegou a vender uma propriedade para possuir um livro. Quisera eu.

 

Não guardo sonhos nem esperanças. Desejo apenas a Biblioteca, que poderá ser a Terceira, maior, muito maior do que esta que me cerca. A posse do livro é um prazer – e possuir aquele que caçamos é indescritível.

 

Um prazer solitário – um tanto egoísta, por certo. Mas, olhar uma obra dessas faz germinar em mim o egoísmo. Doá-la para uma biblioteca qualquer parece sacrilégio – não sei o que poderão fazer com a presa, ou melhor sei: no mais das vezes apenas a abandonam em uma estante em companhia indigna, sem ser lembrada, sem ser cuidada – morre de inanição: o livro antigo precisa de ser lembrado.

Escrito por Fabio às 03h13 PM.

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De Amor e de Caçadas


I. Do Amor

 

Não foi a escola que me ensinou o amor à leitura e aos livros. Ou os amores, pois que são dois, diferentes e seqüenciais, o segundo decorrente do primeiro. Mas não foi nos bancos escolares que os encontrei, pelo simples fato de lá não existir ninguém que os cultivasse, nem entre os colegas de sala (que estavam no mesmo barco, por assim dizer) nem entre os professores, para o meu choque posterior (quando passei a conviver com a espécie de modo mais próximo). Eles, os professores, quando muito reproduziam o que os infindáveis e amaldiçoados manuais de literatura colocavam, colocam, como modelos a ser seguidos: uns tantos resumos, uma dezena de questões respondíveis com trechos do próprio texto, um encarte ilustrado perguntando qual a data da publicação de tal obra. Dependesse da escola, ainda hoje odiaria a Literatura.

 

Explico: o que tem a ver uma cantiga medieval com uma letra de Caetano Veloso? Muito bem, acertou: nada. No entanto, ainda vejo a mesmíssima exemplificação – em uma coluna na página Dom Diniz e, na outra, uma letra do compositor baiano. Luta desigual, enquanto literatura: o Rei Trovador é infinitamente superior neste ringue; luta desigual, enquanto acessibilidade do texto: Caetano é muito mais fácil de ser compreendido – e o ringue é o mesmo. Não são habilidades diferentes, apenas facilidades: muito mais fácil trabalhar o conceito de amor em uma letra contemporânea, ainda que pobre, ou por causa sua pobreza, do que desvendar as sutilezas de um poema medieval. O amor de Caetano é chão, horizontal;o de Dom Diniz é amplo, vertical. Um, mantém-se na concepção física e apenas isso; outro eleva o sentimento em sentido ao alto, ao metafísico. Para as mentes, mesmo dos professores, contemporâneas, a metafísica é algo inútil e sem função. Não leram Aristóteles: várias ciências surgirão mais úteis, mas nenhuma será mais importante do que esta.

 

O problema é que a escola, em seus diversos níveis, preocupa-se apenas com a pragmática, com a aplicabilidade imediata daquilo que, dizem, ensinam. Primeiro, naquele meu tempo, conhecer Literatura servia para passar no vestibular; depois, na universidade, e graças à visão distorcida de universidade que foi gerada nos últimos, não digo vinte, mas quinze anos, os estudos literários servem apenas para “formar professores adequados à prática de suas funções”. Nada de crítica, nada de desenvolvimento intelectual, nada de gosto: apenas a mera repetição que mata qualquer tentativa de desenvolvimento sério da capacidade do aluno. De sete anos para cá a coisa piora, com o famigerado Provão – e a universidade se torna uma espécie de cursinho. Este, aliás, outro problema: cada vez mais o livro é abandonado e, em seu lugar, utilizam as apostilas. Risível: “método Anglo de ensino”, “método Objetivo de ensino”, “método Etapa de ensino”. Das duas, uma: ou ninguém sabe mais o que é, o que significa, o método ou o método se tornou qualquer coisa nesse turbilhão de insanidade que nos rege.

 

Certo, certo, vou parar com isso. Não vou, de novo, criticar o ensino pragmático. Mas o que escrevo, nesses meses todos, parecem, e são, variações sobre o mesmo tema. Fazer o quê? Encerro o assunto, de forma simples: o que chamam de método hoje, deveria, mais adequadamente, ser denominado “método Pavlov”: quando abrem as apostilas, os alunos salivam. Eu salivava, em sala de aula. Condicionado.

[Continua abaixo...]



Escrito por Fabio às 11h29 PM.

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[Continuação de I. Do Amor]

 

Se aprendi, ou desenvolvi, o amor à leitura foi graças ao que encontrei em casa. Não tínhamos, lá, muitos livros. Aliás, meu pai, João Ulanin, que foi o principal e primeiro incentivador do meu vício, fugiu da escola antes da quarta série. Tornou-se tipógrafo, uma profissão extinta e romântica nessa era de computadores. Como tipógrafo, conheceu José Olympio, que lhe deu, nos idos de 1960, coleções e coleções de livros. Falei muito de Dostoiévski por aqui – e revelo o segredo: presente de José Olympio. Assim como os cinco volumes do Dom Quixote ilustrados por Dorè, assim como o hoje raríssimo História da Caricatura no Brasil, assim como a Obra Completa de Eça de Queirós, da Lello e Irmão. Como tipógrafo, conheceu Victor Civita, que o contratou quando sua editora ainda ocupava uma salinha no Vale do Anhangabaú. Chegava em casa (meu pai, claro) cheirando a tinta e carregado de livros, de coleções: Os Pensadores estão ainda ali, as segunda estante, e, apesar de não achar, hoje, que sejam grande coisa (as traduções são péssimas, formando um cipoal intransponível, por vezes) não consigo me desfazer deles: parte de uma herança, a mais bela e rica herança que um garoto de dezessete anos poderia receber de um pai.

 

Outras obras, outras coleções, montaram o que chamo de Primeira Biblioteca: livros adaptados para adolescentes, onde descobri Júlio Verne e Alexandre Dumas e Vitor Hugo. Agatha Christie à profusão, depois que ele descobriu meu gosto especial pelas novelas policiais. Chegava a comprar dez ou doze volumes por mês, que eu devorava seguidamente, em dez ou doze dias. De aniversário: livros. Natal: livros. Nenhuma data especial: livros. Foi o começo de uma compulsão que dura até hoje, cada vez mais insistente, que cresce, que me toma. Este o momento em que surgiram os primeiros demoniozinhos, quando começaram a se organizar em castas, a dirigir meus interesses. Não sabia bem o que ler: na dúvida, lia tudo que aparecia.

 

Tive, já na escola, uma certeza: lia mais do que meus colegas; lia mais do que alguns professores. Escrevi melhor do que antes, o mundo se transformava e se tornava mais interessante. Paguei alguns preços, nada muito alto: se o livro me interessava, o devorava em um ou dois dias. Aconteceu com Incidente em Antares: fui mal na prova porque, passados dois meses da leitura, já não lembrava mais de tudo. Devorei, entre os 13 e os 18 anos, quando João Ulanin me deixou a herança, coisa de um livro a cada dois dias. Alguns ainda estão comigo, outros, os best-sellers, doei ou troquei em sebos.

 

Foi uma fase da descoberta da leitura, do início de um amor incondicional, construído aos poucos. O amor à leitura leva, sempre, ao amor aos livros, ao objeto livro com todo o seu fetiche. Os livros dominam o amante, são intransigentes. Observam por sobre meu ombro aquilo que escrevo – e só escrevo quando cercado de livros: fornecem o apoio e são espelhos, meus espelhos. Cada volume da Biblioteca, agora direcionada a assuntos que me são caros (chamo-a a Segunda Biblioteca), tem sua história e representa determinado período da minha vida. Agostinho, as Confissões, vincula-se com o final da adolescência em colégio de padres da Ordem Agostiniana e da descoberta, graças ao Pe. Miguel Lucas, de dois ou três mistérios do livro do Santo de Hipona que ainda me acompanham; Cem Anos de Solidão marca a morte do meu pai; Platão, completo em espanhol, pela Aguillar, marca meu ingresso no ensino como professor, presente de Walter Barbeiro, poeta injustamente desconhecido e latinista apaixonado; Baudelaire, As Flores do Mal, e Pierre Louys, Os Cantos de Bilits, marcam o mergulho no mundo da poesia e o inicio de meus crimes poéticos. Cada livro tem uma História além de sua própria história, e desvendá-las todas exigiria uma paciência insana dos leitores.

 

Há um outro passo, porém. Quase um salto sobre o abismo, que provoca sensações físicas extremas: a Caçada.

 



Escrito por Fabio às 11h29 PM.

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