01/01/2007 a 31/01/2007
01/12/2006 a 31/12/2006
01/09/2006 a 30/09/2006
01/08/2006 a 31/08/2006
01/07/2006 a 31/07/2006
01/06/2006 a 30/06/2006
01/05/2006 a 31/05/2006
01/12/2005 a 31/12/2005
01/11/2005 a 30/11/2005
01/10/2005 a 31/10/2005
01/08/2005 a 31/08/2005
01/07/2005 a 31/07/2005
01/06/2005 a 30/06/2005
01/05/2005 a 31/05/2005
01/04/2005 a 30/04/2005
01/03/2005 a 31/03/2005
01/02/2005 a 28/02/2005
01/01/2005 a 31/01/2005
01/12/2004 a 31/12/2004
01/11/2004 a 30/11/2004
01/10/2004 a 31/10/2004
01/09/2004 a 30/09/2004
01/08/2004 a 31/08/2004
01/07/2004 a 31/07/2004
01/06/2004 a 30/06/2004
01/05/2004 a 31/05/2004
01/04/2004 a 30/04/2004
01/03/2004 a 31/03/2004
01/02/2004 a 29/02/2004
01/01/2004 a 31/01/2004




Template criado por Canção de Outono



Blogs, Banners e Outros


Minhas resoluções para a Festa dos Tolos não se cumpriram. Ou, pelo menos, cumpriram-se em parte: longe da TV com o seu pum-pum-patchi-cum-bum, longe da internet, completamente alheio do que ocorreu neste paizinho frouxo e delirante, por uma torturante semana, sempre longa demais no carnaval, longe até de jornais impressos (hábito que tenho alimentado com o passar do tempo: melhorei muito depois que parei de ler a Folha), consegui fazer a não menos torturante revisão da tal tese – aquela mesma, que foi se construindo e dominando minh’alma ardente por anos. O resultado: Senhor! por mais que corrijamos um texto, ele sempre há de se revoltar, de virar-se contra o seu criador, de se insinuar em sua mente a ponto de, no meio da noite, nos acordar com aquela idéia brilhante que sempre some na manhã seguinte.

__________

O que não cumpri: não li Agustina Bessa-Luís. Aliás, não li absolutamente nada a não ser a tese.

__________

Escrevemos bem apenas quando lemos – e que isso sirva de lição para uns tantos quantos acreditam de pés juntos que cursos de redação servem para alguma coisa, para aqueles que vêem o papel da Língua Portuguesa, nas escolas e universidades, apenas um meio para se aprender a escrever formuladamente umas cartinhas de apresentação.

__________

Mesmo: se eu fosse dono de uma empresa e recebesse um currículo antecedido de uma cartinha “Prezado senhor, venho por meio desta apresentar-me a Vossas Senhorias” etc. e mais adiante “meu desejo é colaborar para o crescimento desta insínge empresa” etc. e terminasse com um “no aguardo de Vossa resposta, agradeço antecipadamente” etc. eu marcaria uma entrevista com o sujeito só para humilhá-lo.

__________

O choque de se ficar metido entre papéis por uma semana é que, quando abrimos a porta e resolvemos que a fumaça dos charutos já não nos basta para a sobrevivência e que um tantinho de oxigênio não faria mal algum, damos de cara com um mundo cheio de gente.

— Ei! Vocês não vão embora?



Escrito por Fabio às 03h34 PM.

ou tente esse [   ]





Só Depois da Festa dos Tolos


 

Estarei ainda por aqui, no século XII, em companhia dos cavaleiros da Távola Redonda, conversando sobre assuntos mais interessantes do que o eterno batuque e do que a vulgaridade tupiniquim que toma, como um daqueles demônios babilônicos, as mentes e os corpos da maioria das pessoas, que se animalizam e agem como botocudos em volta da fogueira. Volto depois da Festa dos Tolos, lá pela quinta ou sexta-feira, quiçá sábado ou domingo.

 

Poderia, pelo menos, chover. Um blackout também não seria má idéia. Mas, na ausência de um e de outro, o negócio é manter distância da TV e dos meios de comunicação de forma geral, desligar a rádio – e abrir os livros, aqueles que sempre prometemos reler e adiamos esperando o momento certo ou encontrar Agustina Bessa-Luís, As Relações Humanas, adquirido recentemente.

 

Aproveitarei, também, para uma programação musical que ocorrerá todos os dias, bem em frente de casa, preparada com carinho pela Marta Malufete: um concerto de britadeiras e máquinas similares, todos os dias do feriado, das sete da madrugada às sete da noite. Mas não posso reclamar: as britadeiras são, sem a menor sombra de dúvida, muito melhores do que a barulheira do samba.



Escrito por Fabio às 04h27 PM.

ou tente esse [   ]





Macacos Ideólogos


 

Nada melhor para se cultivar um mau humor daqueles, tremendos, do que fazer revisão de textos. Uma atividade que exige, além da paciência, uma postura quase zen em relação às bobagens que encontramos em um mísero parágrafo de cinco ou seis linhas. Lembro, quando de meu tempo de revisor em uma editora aqui em São Paulo, do horror com que recebíamos (éramos uma equipe de seis pobres-diabos que ganhávamos mal e cultivávamos com carinho lordoses e miopias) os originais de um autor que vendia aos tubos – mas escrevia como os macacos datilógrafos de T. H. Huxley, com a diferença que, nos anos todos em que produziu, não conseguiu sequer uma linha da Enciclopédia Britânica. O caso é que os macacos abundam – e se em Londres do século retrasado assim era, no Brasil deste nosso ainda é.

 

Não se preocupem, meus amigos leitores! Não vou cair na esparrela de criticar comportamentos tupiniquins, dizendo que imitamos a matriz norte-americana. Seria uma bobagem, já que valeria a pena um espelhamento razoável para que cultivássemos uma democracia de verdade, ao invés desse assombro distorcido que temos e que promete alongar-se indefinidamente. Os macacos datilógrafos são os intelectuais que afirmam formar as crianças – crianças, meu Deus! – e empurram por suas estreitas goelas conceitos que desvirtuam a verdade. Para aqueles que estranharam o primeiro parágrafo, tão desconexo com o segundo, explico a relação entre revisão de textos e ideologia no terceiro.

 

O fato é que não estou em época de vacas magras – mas anoréxicas, o que me obriga a, de quando em vez, aceitar um trabalhinho de revisor. Dá uns tostões que se revertem em livros, leitura sempre mais agradável. No caso, o texto que aceitei revisar é um caderno informativo de uma escola de língua estrangeira que incluiu no currículo disciplinas em língua portuguesa: literaturas, história, geografia. Parto para o cerne da questão: o programa de História do Brasil para crianças de oito, nove, dez anos. Depois de uma retórica quase incompreensível, das fatais justificativas que pouco dizem e fazem os pais arregalarem os olhos um pouco assombrados, impressionados com tamanha cultura, vem o disparate, metidinho ali no meio do labirinto textual, escondidinho e encolhidinho a um canto: “o aluno deve perceber que a concentração fundiária, o escravismo e a produção voltada para o mercado externo deram origem, no Brasil, a um grupo autoritário, insensível aos dramas sociais e extremamente ávido de riquezas até hoje”, isso depois de afirmar que o reinado de D. Pedro I foi autoritário e que D. Pedro II subiu ao trono por meio de um golpe, dos elogios aos tais movimentos sociais pela reforma agrária, do apelo à cidadania, seja lá o que isso signifique. O programa inteiro revela-se não como um meio para fazer com que o aluno pense e reflita sobre a História e seu processo, de forma independente ou que pelo menos possibilite, no futuro, um adulto com juízo crítico – foi feito para tutoriar mentes despreparadas, para adestrar as crianças a um comportamento de ação afirmativa, para implantar conceitos ideológicos de esquerda, para perpetuar os bordões e as palavras de ordem.

 

Estamos, efetivamente, perdidos. Passei, passamos, por isso na escola – mas em algum momento, por alguma iluminação, por um miligrama de dúvida que sorrateiramente se nos penetrou no cérebro às escondidas, conseguimos abrir os olhos e – Fiat lux! Mas a monstruosidade cresce, alastra-se.

 

Os macacos ideólogos tomaram todos os postos e conseguem apenas escrever palavras soltas, desconexas, repetindo mecanicamente os movimentos sob as máquinas da secretaria da educação, do ministério, das universidades, do partido. O perigo reside nestas palavras, soltas mas sedutoras, revestidas de falsos conceitos de Justiça e de Verdade.

 

O perigo reside nestes macacos ideólogos que, nas sombras e com falsa aparência, se reproduzem como súcubos.



Escrito por Fabio às 03h57 PM.

ou tente esse [   ]





Como Descobrir e Ler Bons Autores


 

A esquerda sempre foi uma excelente orientadora para quem deseja leituras de qualidade: sua postura crítica dirige aqueles que desejam bons livros – e autores de excelência – a descobertas ímpares, cujos estilo, raciocínio e busca da Verdade pairam acima das mazelas comezinhas da intelectualidade que infesta as universidades. Foi graças à crítica de intelectuais de esquerda que descobri Gustavo Corção, Giovanni Reale, Olavo de Carvalho, G.K. Chesterton, Mário Ferreira dos Santos.

 

Os gritos histéricos “mas ele é de direita!”, “mas é um católico conservador!”, “mas é um polemista a serviço do poderio norte-americano!”, “mas é um autor de novelinhas policiais!”, “mas é um professor superficial de filosofia!” soam, para quem souber ouvir bem, como elogios, altos elogios.

 

No lugar das reverberações vagas e fúteis, das rotulações tão ao gosto da ordem sinistra, da gratuidade e superficialidade do raciocínio da massa vigente, escuto: “Gustavo Corção é um dos nossos maiores intelectuais, cujo estilo se compara a Machado de Assis”; “Giovanni Reale escreveu obras fundamentais sobre o pensamento platônico e aristotélico – e não ler o seu comentário à Metafísica ou a sua interpretação de Platão é ser condenado ao limbo do raciocínio”; “Olavo de Carvalho é das poucas, senão das únicas, pessoas a ter a coragem de enfrentar a tolice das academias, tanto em suas obras sobre filosofia quanto em seus artigos políticos”; “Chesterton, além de autor de novelas policiais de alta qualidade (como esquecer Padre Brown? como não ler O Homem que era Quinta-Feira?), era sublime na demonstração dos valores da cristandade para o mundo”; “Mário Ferreira dos Santos é inigualável em suas obras – na clareza de suas exposições, na justeza de suas idéias, na Verdade que ele busca”.

 

O método para a busca de autores de qualidade é, então, simples: se os intelectuaizinhos da esquerda gritarem que é ruim – LEIA!

 

Este o paradoxo da esquerda: quando critica aquilo com o que não concorda, revela a sua completa idiotice.



Escrito por Fabio às 08h07 PM.

ou tente esse [   ]





Saudade


 

Dizem que a palavra é nossa, e só nossa: que foi criada pelos portugueses que aqui estiveram a trazer-nos a civilização e o cristianismo, fora uma ou outra exploraçãozinha da terra, e quase morriam por causa de uma sensação estranha e indefinível, que causava apertos no peito e falta de ar, junto de uma tristeza profunda, uma melancolia, um não-sei-quê... Alguém teria dito: “Mas isso é saudade, ó pá” – e o termo ficou.

 

Ou, dizem também, que fomos nós mesmos que a criamos, aqui na terrinha – sabe-se a razão. Prefiro a primeira versão, tem mais sentido e é mais bela. Aliás, salvo engano, é o que Carolina Michäelis de Vasconcellos defende. Ou, com engano, terá sido Pinharanda Gomes?

 

A saudade é dos poucos sentimentos inexplicáveis. Não é ausência, pois que o saudoso carrega em si cada detalhe, mínimo, daquilo que tem saudade; não é melancolia, pois que o saudoso, ao lembrar de determinada pessoa, de determinado lugar, pode se sentir confortado, quase alegre; mas não é, também, alegria, sentimento fátuo, pois que, ainda que carregue na memória o objeto motivo do sentimento, ainda que ele preencha a ausência, traz consigo aquela mesma melancolia da qual o saudoso foge. Saudade é abismo.

 

E abismo porquê nos abismamos sempre que a sentimos. Redundante? Que o seja! Ninguém que eu conheça deixou de descrever, ainda que de viés, a sensação de se estar perdido, tateando no escuro, em busca de salvação. Há os saudosos do passado, tipo cruel e triste, que se apegam a coisas que os marcaram (um casamento, um emprego, a ladeira onde descia de rolimã); há os saudosos de pessoas, espécie mais comum – mas mais sensível (aqui estou, incluso) –, que guardam, protegidas, as fotos de todos que conheceram outrora e se servem delas, das fotos, para presentificá-los; há os saudosos de momentos, únicos e inesquecíveis, que nunca podem ser partilhados (pois contar o momento não é vivê-lo, e quem escuta permanece com aquele olhar de “de novo, de novo?”). Há o saudoso de geografias.

 

Pois que, muito lusitanamente, tenho saudades: da Lisboa que percorri, faz sete meses já, da luz irradiando nos prédios, da branquidão profunda que nos traga, do Tejo visto do Castelo de São Jorge. Das ruas estreitas, medievais, das escadarias irregulares que, depois do quinto copinho de vinho, se tornavam quase intransponíveis. Das pessoas, sempre abertas e prontas para conversa; dos sorrisos sempre presentes, da boa vontade, daquele paternalismo em relação a nós, aquém-mar, que sobrevive à História. Da grandeza do pequeno país – grandeza espiritual quase palpável, material, explícita. Das livrarias... Trago Lisboa em mim, a cada dia. Carrego preciosamente as pessoas que conheci.

 

E chego à conclusão que, há tempos, a cegonha foi seqüestrada por terroristas tupis e desviou a rota: eis-me aqui, um tanto perdido, não localizado. Mas a Cidade Branca está presente: escuto sua voz, à noite, nos sonhos – e a revivo, a cada passo, a cada gesto, a cada sabor.

 

Saudade é promessa de retornos.

Escrito por Fabio às 01h30 AM.

ou tente esse [   ]





Digite sua Senha


Ter conta em bancos representa um dilema para quem sofre de uma memória fátua como a minha. No caixa eletrônico sempre me deparo, abismado, frente ao mistério abissal que se me apresenta, em uma exigência de abstração quase metafísica: Digite sua Senha. Como assim? Minha senha? Qual era mesmo? Perdi a conta dos cartões cancelados nos momentos mais terríveis das contas acumuladas e por vencer. O pior é que a senha não pode – o banco não deixa – ser algo óbvio, direto e simples: deve apresentar uma combinação de números e letras que não tenha referência com a sua ficha na agência. Uma vez, ao abrir uma conta, cadastrei a senha que, óbvio, não foi aceita. Disse a moça: Coloque um número de telefone, mas não o seu. O da sua mãe, quem sabe. Da minha mãe? Qual é mesmo o telefone da minha mãe?

 

Seria muito diferente se não fossem os algarismos, todos enfileiradinhos e arrogantes, desafiando-me. Não bastasse isso, agora a máquina infernal exige as tais Letras de Acesso, a data de nascimento, a cor da cueca. Assim, para pessoas como eu, lanço uma proposta que revolucionará não só o serviço bancário, mas incentivará a cultura e o hábito de leitura.

 

Fórmula simples: ao invés de combinações alfanuméricas, devemos digitar um texto do qual gostamos. Pode ser qualquer um: um soneto de Camões, um parágrafo de Vieira, um diálogo de Machado, um monólogo de Shakespeare (para os puristas, poderia ser em inglês arcaico). Assim, quando chegássemos no caixa eletrônico para pagar as contas, ao invés de wf88324091-c, digitaríamos:

 

As armas e os barões assinalados

Que, da Ocidental praia Lusitana,

etc. etc. etc.

 

Claro que isso, apenas, não evitaria o acesso daqueles que roubaram o cartão. Aliás, foi pensando nisso que os bancos criaram as Letras de Acesso, das quais nunca lembramos. Exigem um malabarismo intelectual: por que raios aquelas letras nunca ficam no mesmo lugar? Mas, considerando a questão da segurança, elas devem continuar neste novo método: o cliente deverá completar, como naquelas provinhas bestas da escola, o espaço em branco com a palavra que falta no texto apresentado. Um exemplo: o senhor vai ao caixa fazer uma operação de saque. Depois de digitar a sua senha – Per mi se va ne la città dolente, per mi se va ne l’eterno dolore, per mi se va tra la perduta gente –, surge o seguinte poema a ser completado:

 

                  Adivinhação (Bocage)

 

É pau, e rei dos paus, não marmeleiro,

Bem que duas gamboas lhe lobrigo;

Dá leite, sem ser árvore de figo,

Da glande o fruto tem, sem ser sobreiro:

Verga, e não quebra, como zambujeiro;

Oco, qual sabugueiro tem o umbigo;

Branco às vezes, qual vime, está consigo;

Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

À roda da raiz produz carqueja;

Todo o resto do tronco é calvo e nu;

Nem cedro, nem pau-santo mais negreja!

Para carvalho ser falta-lhe um V;

Adivinhem agora que pau seja,

E quem adivinha meta-o no ____.

 

O senhor, paciente, digita, **. Pensando no seu gerente. Ou neste texto.



Escrito por Fabio às 02h53 PM.

ou tente esse [   ]





Brasília


Brasília me deixa dois metros abaixo da linha do tédio. Qualquer outra cidade parece melhor, mais sincera, mais honesta, mais agradável. Falem o que quiserem do Niemeyer: que ele projetou a Capitar Federar pensando no povo, aquela coisa utópica cheia de espaços abertos para receber a população, que é patrimônio histórico, que é exemplo de arquitetura – mas eu digo: mentem. Mentem por um fato direto e simples: nenhum comunista pensou, um dia sequer, no povo, verdadeiramente, em suas necessidades, no progresso, na sua formação. Brasília foi construída ali porque ficava longe, longe demais de qualquer coisa, de qualquer movimento, de qualquer problema. Acho, até, que o arquiteto esperava que fosse todo mundo embora, depois de construído o seu sonho: “Olha, será que vocês podem voltar para as suas casas? Está atrapalhando minha obra, ninguém consegue ver direito...” Uma coisa que, aliás, ele faz em todas as suas obras: esvazia o espaço em volta para não atrapalhar a vista de suas monstruosidades brancas.

&

Chegaram mesmo a citar Vieira: que a idéia de mudar a Capital para o meio do nada foi idéia do jesuíta. O que sei é que o projeto de mudar a Corte para o Brasil foi dele, já no século XVII: Portugal sempre correu riscos, espremidinho contra o mar tenebroso, a Espanha ali, às portas, querendo entrar. Projeto só aproveitado muito depois, quando Napoleão, que escreveu em seu diário que o maior estrategista que conheceu (ou não conheceu, já que não o encontrou à espera para perder tudo) foi D. João VI: o único que soube como lidar com uma armada invencível e manter o controle do Império, deixando os franceses a chupar o dedo. Mas para o Planalto Central, Brasília, até onde conheço a sua, de Vieira, obra, nunca pretendeu mudar. Morreria de fastio antes de conseguir redigir os seus sermões. Até a inquisição lhe soava preferível.

&

Falando nisso, não conheço nenhum escritor de Brasília. Não produziu romancistas, poetas, contistas, dramaturgos. Uma ou outra musiquinha de protesto, com atraso. Brasília é um vácuo: político e cultural.

&

O erro foi tirarem a Capital do Rio de Janeiro. Um país não vive só de modernidade – aliás, não vive da modernidade, da atualidade, da contemporaneidade: vive de sua tradição, para o bem ou para o mal. Aliás, uma comparação, ainda que sem comprovação de dados de forma científica, já demonstra o que quero dizer: quando a Capital foi Salvador, tivemos por ali, circulando e esbravejando, Vieira e Gregório de Matos; quando foi para o Rio, encontrava-se nas ruas Machado de Assis, José de Alencar, Olavo Bilac, Cruz e Souza. Paremos por aqui: é muita humilhação. O Rio de Janeiro bebeu das fontes Imperiais e o fez o que é, violências à parte, culturalmente. Anda-se por suas ruas e sente-se a tradição, sente-se a cultura, sente-se uma efervescência que o faz, ainda nessa época de Rosinhas e Garotinhos e “bispos” Crivellas, capital cultural do Brasil, muito mais do que São Paulo. Anda-se por Brasília e o que se sente? Calor e cansaço.

&

Brasília é, essencialmente, um placebo.



Escrito por Fabio às 10h21 PM.

ou tente esse [   ]





Onanismos

(Crônica social da Festa dos Poetas Contemporâneos, ocorrida no mês de novembro de 2003,

no Panteão Universal Concretóide)

 

Imaginemos uma cena. Simples, singela, direta, como um daqueles filmes ingleses onde se reúnem seiscentos ou setecentos convidados para o casamento daquela jovenzinha que ingressará no mundinho da alta sociedade e deve demonstrar os seus dotes, sua beleza, sua delicadeza, sua competência em lidar com todos, sempre sorrisos e atenção, mesmo que não conheça metade das pessoas presentes. Esta jovem pode ou não ser cínica: pode falar, depois que todos foram embora, “finalmente!”, e arriar na poltrona vermelha tirando os sapatos e achando todos extremamente inconvenientes. Um filme, mas sem os diálogos. Apenas monólogos.

 

A poesia contemporânea brasileira é exatamente esta festa. Uma horda de convidados inconvenientes que falam sem parar consigo mesmos. Mantêm-se próximos aos demais convidados e tentam suplantar as suas falas utilizando a mais antiga técnica narcisista: falando mais alto. Falam, sempre, de si mesmos & da sua inteligência & da sua beleza & de seus poemas & das técnicas que utilizam & da genialidade que atingem. Na verdade, é um único discurso, repetidos seiscentas vezes por seiscentas vozes em seiscentos tons diversos. E eles - eles nunca vão embora.

 

Há alguns meses, no Panteão Universal Concretóide, houve uma festa dessas. Fora dois poetas, bons e sérios (talvez esta a razão por serem ilustres desconhecidos), os outros, os demais, eram parte da horda. Ouvi isto, dito mui seriamente e mui compenetradamente, de um, adestrado anos a fio nas mais recentes teorias literárias, ego inflado e estratosférico: “Poesia hoje é sintética e fala de si mesma. Toda poesia é metalingüística. Poesia longa é poesia descritiva e poesia descritiva não é poesia. Não tem sentido escrever um soneto, hoje. A poesia épica está morta. É uma forma antiga que não se relaciona com a exploração da linguagem. Poesia é linguagem e só: ela não pode tratar das coisas fora de si mesma”. Depois rolou no chão, sentou-se e deu a patinha para os professores que lhe estendiam o biscoitinho. Aclamação calorosa.

 

Outro convidado lê seu poema, acompanhado de uma cítara (atenção, meu amigo leitor, imprescindível, para a compreensão do poema, que seja lido em voz alta. Não te preocupes: levante-se agora, solene, ajuste a tela do computador, coloque no CD-rom aquele disco de música indiana, encha os pulmões de ar – e leia, rápido):

 

Rst

ftft

bli

hoj

resg

rrrrrrrrrrrrrrrrrr

uilt

prprpr

sint

esss

Capof!

 

A genialidade me comove. Os exemplos poderiam reproduzir-se por si sós – pois que a poesia metalingüística tem esse poder de auto-reprodução, uma espécie de vírus que afeta apenas o bom-gosto -, mas seria de extrema crueldade. Poderia mostrar o ridículo do sujeito que pixou nas paredes de São Paulo “E aí, gatinha?” e declarou, orgulhoso: “Este é o meu primeiro poema!”. Mais não poderia dizer nesta crônica social da festa: fugi dali, os demoniozinhos, que me acompanham, arredios, arrepiados, gritando “Dêem-me Camões, dêem-me Dante, dêem-me Tolentino!”. Dêem-me um tiro!

 

Esses pobres-diabos enchem-se de orgulho. Massacram a poesia a golpes de marreta e, depois, trancam-se no banheiro, soltam dois versinhos e, pensando em Leminski e nos Fields Brother, gozam.



Escrito por Fabio às 06h35 PM.

ou tente esse [   ]