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Saramago de Volta


Um leitor um tanto mais rabugento vai olhar para esse título aí em cima e pensar: mas como assim? Ele nunca foi! Ou, de forma mais explícita, murmurará um “ele sempre esteve...” irônico, referindo-se, certamente, ao fato de o escritor português aeroportar por estas bandas coisa de três ou quatro vezes ao ano para todo o tipo de evento, desde congresso de educação até cafés ditos filosóficos nos quais entra de tudo, desde discussões sobre a política que nos cerca até terapias alternativas, mas de filosofia mesmo, que é bom, pouca coisa ou nada, bastando apenas que o convidado detenha em seu poder, em letras sedutoras, um PhD qualquer ou, como é o caso, um Prêmio Nobel no currículo – o que, digamos desde já, não é pouca coisa, o que me força a concordar com a rabugem acima referida – ele nunca foi, ele sempre esteve.  Mas peço paciência ao sutil leitor: que refreie a sua impaciência, que evite esse leve esgar no canto da boca e que note que a volta de Saramago a que me refiro não é a física, de corpo presente – o que ocorrerá em abril, com a Bienal, como não poderia deixar de ser – mas uma outra, que chamarei de Volta à Prática das Boas Obras, o que não carrega nenhum sentido religioso e cristão, sabido é que ele, o escritor não o sentido, é ateu de carteirinha e, até onde sei, continua tão comunista como sempre foi.

 

Mas ateísmos e comunismos à parte, ainda que essas posições determinem o conteúdo dos seus romances, pouco me importa em que acredite ou o que pregue – importa-me, muito mais e de modo intenso, que seu mais recente romance Ensaio sobre a Lucidez traz alívio a quem acreditava que Saramago estava morto como escritor, opinião fruto de oito anos e três livros abaixo da linha da mediocridade que resultaram naquele esgar de lábios do leitor: o Nobel, murmuravam pelos cantos, com o medo do pecado acadêmico, acabou com o homem e, se não com o homem pelo menos com o escritor. Ah! injustiça! Ah! insídia! Ah! malícia... Todos os Nomes, A Caverna e O Homem Duplicado certamente não podem ser vistos além da necessidade de alimentar um mercado de leitores sedentos pelo “último saramago”, fórmula pronta e sempre incorreta; são livros ruins, se não de todo – pois que alguma coisa sempre se salva, uma frase aqui, uma idéia ali, um parágrafo, um diálogo –, no geral se mostram cansativos e corriqueiros: a fábula do primeiro, sobre a busca da identidade, se arrasta; a do segundo, sobre o poder das grandes corporações que destroem a tradição – alinhavando uma crítica ao capitalismo e aquela coisa toda já desandada e mofadinha nos cantos –, torna-se um bloco doutrinário chato e cansativo; e a do terceiro, que resgata o tema ancião da troca de identidades, mantém-se ao nível da sessão da tarde. No entanto.

 

No entanto, este Ensaio sobre a Lucidez consegue passar longe da fórmula pronta utilizada nos romances anteriores. É uma fábula sobre a desobediência civil e sobre a tirania, passada em uma cidade imaginária de um país idem, a mesma do Ensaio sobre a Cegueira, com as mesmas personagens. Faço um resuminho, ou não o faço? Ditam as regras de resenhas que se deve, para respeitar ao leitor, que se explique o teor do livro resenhado. Eu deveria, segundo estes manuais, dizer que a história começa em um dia de eleições e que oitenta e três por cento da população vota em branco, eximindo-se de escolher ou partido da direita (que está no poder) ou o do centro (que pode ou não apoiar a direita, ou quem sabe a esquerda, ou os dois, porque não?) ou o da esquerda (que é a oposição marcada pelos chavões já conhecidos) e que esta opção desencadeia uma crise política sem precedentes e que, com a desculpa para se manter o status democrático da nação, o governo decreta estado de emergência e depois de sítio e usa e abusa das mais torpes ações para controlar a situação. Deveria, também, dizer que, por maior que seja a pressão governamental, a população brancosa, como é chamada no romance, age pacificamente e toca a sua vida como sempre tocou, enfim, que o governo não faz falta nem diferença. Deveria também colocar umas tantas quantas citações entre aspas, revelando o número das correspondentes páginas, e analisar os trechos, seu estilo, sua importância; buscar, quiçá, as fontes dos tratados anarquistas, rechear este meu texto de bakunins, malatestas e kropotkins e, mui sabiamente, tecer as mais sutis relações com o romance – tudo para demonstrar o quanto a obra é boa, o quanto a minha idéia de que Saramago escreveu um grande livro é correta. Mas sabe o leitor que odeio esses manuais e que estou nas tintas, como dizem, para a clareza do meu raciocínio. Se quiser, meu caro, agora que o esgar já passou e que a sua ironia cedeu terreno à atenção, compre o livro e o leia – se concordar comigo, melhor; se discordar e achar o romance uma grande perda de tempo o problema já não será meu. Então não digo nada disso, não faço resuminhos e nem malabarismos mentais de prestidigitador, como escreveu Gustavo Corção, para encantar e distrair o olhar atento (pois que o leitor tem olhar afiado, gosta de pegar os deslizes no ato e desvendar os crimes de quem escreve – refiro-me, claro está, ao bom leitor) enquanto saco da manga um argumento lindo e falho.

 

O romance é bom – e é o quanto me basta.



Escrito por Fabio às 04h56 PM.

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As Damas


 

Gostaria de ser daqueles sujeitos que pegam um assunto qualquer pela orelha e desenvolvem um belo raciocínio, um texto, se não profundo, pelo menos engraçadinho e leve que penetre a alma do leitor e lhe arranque um sorriso, ainda que breve. Gostaria, mesmo, de ter a condição de olhar para o mundo todos os dias e achá-lo interessante – e escrever sobre os fatos, ou torná-los mais líricos do que são na verdade, defender grandes teses, demonstrar, por meio de um raciocínio cristalino, as mazelas que nos cercam ou as bênçãos que nos invadem. Mas percebo, nestes dias de necessidade de escrita, quando ouço o chamamento das palavras, o canto da sereia, que minha competência é infinitamente menor do que gostaria. Olho para fora, para o mundo, e ele me soa vazio e sem interesse; olho para dentro, para o universo pessoal, e o noto seco e estrangulado. Gotejam palavras soltas, versos ralos, frases obtusas. É o drama da escrita.

 

Mas talvez essa sensação desértica se deva à ebulição íntima das idéias, como se elas sussurrassem: ainda não, ainda não... tenhas paciência que estamos nos preparando, escolhendo as roupas certas para sermos apresentadas no grande baile. Não queremos (dizem elas, insistentes) ficar a um canto do salão, vendo as outras, dos outros, serem convidadas para a dança, serem paparicadas por estarem mais belas do que nós, serem cortejadas e elogiadas apesar de sua superficialidade, divertirem-se com a atenção desmedida dos leitores enquanto permanecemos mudas a um canto, constrangidas, desinteressantes. Temos nosso próprio tempo, a nossa vontade – e nós, nós dominamos tua mente e te fazemos circular insistentemente em busca da saída do labirinto em que habitamos. Console-se: sairemos juntas, de braços dados contigo, prontas para a festa. E tu – sim! tu nos apresentarás entre olhares de inveja, escutarás os murmúrios incontidos, nos entregarás, pelas tuas mãos, aos que querem dançar conosco – sempre sabendo que voltaremos ainda mais altivas e elegantes...

 

As damas conseguem me manter em silêncio. Damas altivas, possessivas, irascíveis. Orgulhosas de si mesmas, obedecem ao seu próprio tempo.



Escrito por Fabio às 04h53 PM.

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Pathos


 

Erguem-se as vozes, como sempre. Por curiosidade, percorri páginas e páginas da blogosfera, os cadernos culturais virtuais, os sites de críticos de cinema. O que se lê, aí, não passa de uma mesma repetição cansativa e vaga dos mesmos bordões: a Paixão de Cristo é violento; a Paixão de Cristo é anti-semita; a Paixão de Cristo revela o olhar sádico de Mel Gibson.

 

Como se violência não a tivéssemos em maior grau em qualquer filminho que redunda as tais sextas-feiras, coincidentemente todas 13, e em outros menos piores. Verdade: há uma fórmula para a violência sem sentido no cinema, o de roliúdi e o tupiniquim, que dita que não se podem passar vinte minutos de película frente aos olhos da vítima que entrou na sala sem que um braço decepado caia sobre o seu colo. Mas esta violência, a dos corpos mutilados, a dos atentados, a das vítimas em profusão, parece não chocar: a amplitude das mortes, estas sim, sádicas e para sádicos, anula em nós a capacidade de distinguir a morte individual. O sofrimento coletivo nos coloca – e é um “nos” puramente retórico, este, pois não me incluo na turba, assim como não incluo o sensível leitor que pacientemente acompanha meu raciocínio frouxo –, o sofrimento coletivo visto na tela, eu dizia, nos embute uma espécie de amortecimento das emoções e nos afasta daquilo que nos torna humanos. É o contrário do que ocorre em Paixão... Sim, há ali violência, mas a violência contra o indivíduo – e não um indivíduo qualquer: contra Aquele que representa toda a humanidade em sua pequenez, em seus dramas, em seus erros. O que provocou a ira e a cegueira dos críticos foi simplesmente isso: não reconheceram no filme o padrão de violência com a qual estão acostumados e viram-se, sem aviso prévio, jogados no mais puro reconhecimento que poderia haver – sou eu ali, também.

 

Mesmo os argumentos que tentam manipular, como os malabaristas desajeitados de esquina no sinal fechado, desmoronam. Resta ao crítico, ruborizado, agachar-se e pegar de novo o bastão, recolher as bolinhas coloridas, e, se for minimamente coerente, recusar os aplausos e a gorjeta. Pois uma das bolinhas que caiu, e cai ainda, é o argumento de que “homem nenhum agüentaria 500 chibatadas” (citação de memória), o que apenas me diz duas coisas: primeira, que o alto inquisidor desconhece o texto bíblico ou, se o conhece, não sabe ler; segunda, que não percebe que ali não está um “homem”, mas “O Homem” (Ecce hommo, diz Pilatos, apresentando um Jesus dilacerado em Sua carne aos sacerdotes e fariseus), revestido, caso não queiram admitir a Sua divindade, de um caráter simbólico que personagem alguma, em mitologia alguma, jamais teve. Pois, coisa difícil de se admitir em tempos que louvam a racionalização experimental acima de tudo desembocando em uma lógica fátua e perecível, o que nos incomoda não é a violência que Cristo sofre, mas o que representa esse sofrimento. E vamos à segunda bolinha, que rola para o bueiro.

 

A representação do sofrimento é, ao contrário do que dizem, espiritual. Ressalta-se apenas a materialidade do filme, a natureza humana de Cristo – e se esquecem, de propósito, que Ele detém uma outra natureza, não uma segunda, mas outra, no mesmo plano e do mesmo valor: a Divina. Aliás, esta uma das lutas da Igreja, que percorreu pelo menos 1200 anos, primeiro contra os maniqueus e contra os arianos, depois contra os cátaros e ainda mais algumas heresias – que pregavam ora a separação entre as naturezas humana e divina de Cristo, ora que Ele seria apenas um homem, ora que seria apenas divino –, o que resultou em pelo menos duas obras fundamentais da cristandade: De Trinitate, de Santo Agostinho, e o Livro IV da Summa Contra Gentiles, de Santo Tomás de Aquino. Há outras obras de outros Santos Doutores, mas relacioná-las aqui apenas ocuparia espaço e faria meu leitor torcer o nariz, acreditando que este escriba não desejaria mais do que demonstrar uma erudição pedante. Não, meu amigo, não te preocupes: longe de mim mostrar erudição, coisa que não tenho e, mesmo se a tivesse, não interessaria a ninguém. Minha preocupação é mais singela e rasa: mostrar que o edifício que a crítica construiu está mais para Palace 2 do que para Capela Sistina. Falar apenas a respeito do caráter humano de Cristo e sobre a técnica utilizada para a filmagem é restringir-se à forma – em outras palavras, incorrer no pecado da superficialidade. Pois que o que é ressaltado é aquela outra natureza, a divina, desde as cenas iniciais: o dilema de Jesus em sua oração, o seu drama pela consciência do que iria, deveria, obrigatoriamente, acontecer ainda naquela noite, cercado constantemente pelo demônio. É a vitória do Espírito sobre a carne, ponto central de todo o cristianismo.

 

[Continua abaixo]



Escrito por Fabio às 04h32 PM.

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[Continuação de Pathos]

 

A terceira bolinha, pois que é um malabarismo de principiantes com apenas três bolinhas, também não se mantém no ar. O anti-semitismo inexiste. As organizações judaicas que fazem movimentos de protesto pelas ruas de Nova Iorque ofendem-se não porque o filme alimente qualquer espécie de preconceito ou que incentive, minimamente, o ódio aos judeus. Protestam por outra razão: reconhecem-se na casta dos sacerdotes do Templo. A insídia, a manipulação, a ameaça, a corrupção estão retratadas como descritas no texto bíblico: não é uma invenção gratuita para atingir aos judeus. O sentimento de ofensa destes grupos é resultado de um comportamento politicamente correto que vem sendo alimentado há pelo menos vinte anos e que obriga à Igreja a “pedir desculpas” pela perseguição que exerceu há coisa de seiscentos anos. Aliás, vejo apenas a Igreja desculpando-se a torto e a direito, seguidamente; reconhecer os próprios erros (e como negar que os cometeu? São homens que a dirigem, dos melhores e, alguns, dos piores) é, sem dúvidas, essencial, mas reconhecê-los para agradar a determinados grupos é inverter a lógica dos termos. Os protestos judaicos são pudores de falsa virgem.

 

A Ira que se levanta contra A Paixão de Cristo tem, ainda, outro aspecto. Teriam vários, se eu tivesse paciência de isolar a todos, um por um, com a ânsia laboratorial de contar as moléculas que causam um tumor para depois examiná-las sob o microscópio da frieza e do distanciamento críticos. Perdoem-me, mas não sou assim, defeito feio que carrego comigo, arraigado como... não há nada que e pareça tão arraigado assim no homem, a não ser o Amor e a Fé, então que valha a comparação. Olho, vejo, falo, movido pela paixão – o pathos grego (finalmente a explicação do título, murmura o leitor insatisfeito), que nada mais é do que sofrer uma ação. O outro aspecto, nem uma bolinha chega a ser, é a idéia de que elogiamos os filmes americanos e desprezamos o tal cinema nacional. Há, por aí, nas páginas virtuais, até mesmo uma comparação, descabida, com o Cidade de Deus: “aqui, pelo menos, a violência é aquela encontrada na realidade!” (outra citação de memória). Ah! cansaço! Ah! superficialidade! Que mania essa em ver apenas o respeito à realidade como valor da arte... Louvam a violência do filme brasileiro porque ela bate à nossa porta, entra em nossas casas, mata aqueles que amamos; degradam a violência da Paixão... porque ela seria – notem o tempo verbal: seria – uma “ficção”. Não é um ato de Fé crer no que está descrito na Bíblia: é um ato de razão. De novo Santo Agostinho: a razão alimenta a Fé, as duas caminham juntas, uma apóia a outra – retire-se a Fé da operação lógica e perde-se a razão; retire-se a razão e a Fé deixa de existir. Sem a Fé temos a violência que os brutos elogiam no filme tupiniquim; sem a razão, temos a violência que promove atentados sob o véu da religião. O óbvio está dito: Paixão de Cristo é um filme infinitamente superior, pela forma e pelo conteúdo.

 

Vejo o crítico, olhos injetados, marretando furiosamente no teclado de seu computador as opiniões pautadas em conceitos frouxos. Vejo-o tentando manter as tais bolinhas no ar. Vejo-o irritado porque um filme religioso consegue lucro. Vejo-o nas roupas sacerdotais, na sétima fileira da sala, apontando para a tela. Vejo-o espantado quando o véu se rasga.



Escrito por Fabio às 04h31 PM.

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Notícias e Abismos


 

Não sou adepto da televisão. Sempre que passo uma hora frente à telinha, tenho a sensação de que estou não só perdendo tempo, mas efetivamente emburrecendo: chego a sentir os neurônios, todos os dois que me restam, se transformando em uma massa gelatinosa e amorfa. É o tempo do desespero: sinal de que preciso, urgentemente, abrir um livro. Dois parágrafos que sejam se mostram suficientes para me trazer de volta à esfera dos vivos.

 

O mesmo se dá com o jornalismo – o telejornalismo. Deixei, há tempos, o péssimo hábito de ler jornais e de acompanhar as notícias de modo sôfrego. Um hábito que me foi embutido na faculdade: é preciso ler dois jornais por dia, uma revista semanal, ouvir o noticiário na rádio, assistir ao jornal na TV, pelo menos em dois canais – tudo para confrontar as informações e se chegar a um juízo pessoal, próprio, da Verdade. Bobagem: o jornalismo nunca disse, diz, verdades – mas interpretações de fatos, ou melhor: más interpretações de fatos. Ainda mais nesses tempos de obscurantismo ideológico no qual apenas se lançam loas de louvor ao Lula e asseclas como se lançassem confetes e serpentinas... Mas. Mas, por vezes, caio na tentação. Como ontem.

 

Duas notícias me deixaram indignado, não pela notícia em si, mas pela tal interpretação dada aos fatos. Primeira: um garoto, sei lá o nome, “ator” do Cidade de Deus, filme que não vi e não gostei e não verei e não gostarei, foi preso ao roubar um carro. Usava uma arma de brinquedo (diz a notícia). Imagens: do filme, do filme, do filme – a cara do garoto estampada em close-up, arma na mão, atirando de forma prazenteira num alvo que não aparecia na cena: violência escancarada. Imagem: o mesmo garoto sendo preso, algemado – seu rosto coberto por um efeito de edição, pois não se pode mostrar menores infratores na TV, o tal Prostituto da Criança e do Adolescente, coisas assim. O bandido ficcional e o bandido real. No caso, são o mesmo. Imagens e sons: desculpas, desculpas, desculpas – o âncora afirma “ele vai passar a noite em uma cela fria com menores infratores”. Cela fria, Senhor! Se não bastasse o lugar-comum (não acrescentou “solitária” ao fria porque seria inacreditável), o apelo emocional é de uma estupidez insana. Mais: “com menores infratores”: quer dizer, então, que ele não o é? A mensagem subjaz ao discurso: o atorzinho é uma vítima, pois ele participou de um filme, fez parte do elenco da Globo em uma minissérie. Mais explicitamente, o pai: seu filho era uma vítima, pois as crianças se envolvem com o filme no qual eram os heróis! Heróis! O herói desvalido, abandonado pela sociedade e pelo sistema que se rebela e parte para a violência. Herói, no meu tempo, era outra coisa. Culpar a sociedade e o sistema pela ação deste garoto é como culpar a mulher estuprada pela violência que sofreu.

 

Segunda notícia, ou quase: a idéia genial de se fazer um debate, ao vivo e com participação dos espectadores, sobre os atentados na Espanha. A especialista, uma professora da uspe, não me interessa o nome. Seu discurso repete o que tem se tornado norma em toda a mídia: a culpa dos atentados não é dos grupos terroristas, não é da Al-Caeda (ou Al-Kaida ou Al-Caída, seja lá como se escreva isso), não é do ETA, não, de nenhum grupo. A culpa, a responsabilidade é... dos Estados Unidos da América! Pois foi ele que bombardeou o Afeganistão, ele que invadiu o Iraque, ele que retaliou os atentados às Torres! Tive a nítida impressão de que estava em um mundo diverso, em um universo paralelo no qual o delírio é o normal e o normal um sintoma de neurastenia: ouvia coisas, vozes que murmuravam, tentando me seduzir. Pior: não basta o delírio da insigne senhora sobre os EUA – ela continuou com a cantilena: “não é certo o terrorismo, mas é preciso saber as suas razões, o que justifica as suas ações”! Aqui embaixo, onde habito, a frase soou-me como uma justificativa do terror. Não é certo, mas justificável? É errado, mas correto? É injusto, mas racional? É imbecil, mas inteligente? É doutora, mas tão burra?

 

Todos têm limites: o meu chegou ali. Antes do surto, dos tremores, das palpitações e decorrente elevação da pressão, antes da completa liqüefação do meu pobre cérebro, corri para a biblioteca – depois disso, apenas uma superdose de 150 páginas de Esaú e Jacó poderia me salvar. Salvou.



Escrito por Fabio às 03h37 PM.

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Caminhos


 

“A técnica é inebriante por duas razões fortes. Primeiro, porque dá à inteligência uma satisfação vertiginosa; segundo, porque todos se maravilham com suas prestidigitações. É difícil resistir à admiração dos outros, e o técnico é hoje o mais admirado dos homens. Dum lado, pelas espirais lógicas, farta-se de segurança, de certeza; doutro lado enche-se de louvores. Suas manipulações dão certo. E quando não, ele ainda sorri, sabendo que tem recursos, ou para explicar, ou para retificar. Nas explicações, o técnico, na sua esfera de ciência aplicada, não corre as angustiosas aventuras da ciência e contenta-se com os elos mais próximos. Tem um determinismo curto, míope, e vive um racionalismo de pequenos círculos. Quanto às retificações, essas constituem um dos prazeres solitários da vida do técnico. Para ele o erro não é um elemento trágico; não dói. Antes faz uma pequena cócega diferencial e excitante. [...] A coisa mais desagradável que pode acontecer num ambiente de laboratório é ter de recomeçar; mas é sempre possível recomeçar.”

 

Este parágrafo está n’A Descoberta do Outro, de Gustavo Corção, logo no momento inicial de sua reflexão que levará – ao autor e ao leitor – por um caminho que descortinará a Verdade de nossa existência, derrubando os falsos valores nos quais nos agarramos como tábua de salvação na ânsia de tornar todas as coisas compreensíveis e racionalizáveis, me diz mais do que está explicitado. Um caminho de busca da Verdade, como aquele que os gregos percorreram, que exige coragem e determinação para se derrubar as falsas aparências e as verdadezinhas perecíveis que se nos são impostas. Mas o parágrafo me leva a outra coisa, que não a preocupação existencial, que não as perguntas perenes “quem somos” ou “para onde vamos”. Leva-me, pelo contrário, ao abismo da realidade corrompida que a educação tem incentivado.

 

A Universidade tornou-se esse laboratório, um imenso laboratório de testes ideológicos, de manipulações de mentes ainda não formadas, de sistemas de erros permanentemente incentivados como a Verdade que salva. Os alunos, ali, são cobaias; os professores, não menos ramsters, orgulham-se de suas inteligências particulares, de suas teorias, de suas demonstrações. Todo o sistema de ensino pauta-se pela reprodução constante e insistente, pela doutrinação de fórmulas vendidas como a solução suprema para todas as dúvidas. Uma historinha pessoal pode ajudar na compreensão do que tento dizer: há anos iniciei um curso na uspe da vida. Naquela época, na ânsia de possuir um título – o Título Acadêmico, daimon que possibilita o encaminhamento das almas mortais às esferas olímpicas –, restringia minha visão ao caráter utilitário do que estudava: se a Universidade valorizava os mudernos, que os mudernos fossem estudados. Tempo. Orientaram-me: você deve seguir a linha da crítica marxista – e lá fomos, pelo território árido dos chavões e lugares-comuns, das palavras de ordem, da arte como propaganda, da arte enquanto função social. Tempo. Disseram-me, depois de quase cem páginas já escritas: mas este teu texto é neo-liberal! Neo-liberal? Então uma pesquisa sobre literatura pode ser neo-liberal? Não satisfeito (e um tanto irritado com tão fácil rotulação), procurei outro professor, este sim, neo-liberal de carteirinha, e mostrei meu trabalho. Escutei: mas este teu texto está um bloco doutrinário marxista!

 

[Continua abaixo]



Escrito por Fabio às 04h44 PM.

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[Caminhos – continuação]

 

Foi um momento de iluminação – naquele tempo, no auge de minha ingenuidade política, acreditava na fala geral que percorria as universidades: o neo-liberalismo era coisa da Direita, assim mesmo com D maiúsculo, demonizada e perseguida; o marxismo e suas correntes todas era coisa da Esquerda, também com E maiúsculo, elevado como o caminho da salvação das consciências. As duas opiniões dos dois eminentes professores iluminaram-me: marxistas e neo-liberais eram uma só e mesma coisa. Utilizavam-se, apenas, de fórmulas lingüísticas diversas para reproduzir os mesmos conceitos e para desculpar seus próprios erros. Acusavam-se mutuamente, trocavam farpas, digladiavam-se em congressos, escreviam toneladas de artigos que quase ninguém lia, preenchiam laudas e laudas de respostas ácidas, debatiam vorazmente – tudo a serviço de uma única verdade, falsa: fazer da Universidade o seu Clube, o seu laboratório de experiências críticas (nos dois sentidos que tem a expressão “experiências críticas”).

 

O momento de libertação – do longo, árduo e solitário caminho que gerou mais conflitos com os pares do que soluções efetivas. Caminho de anos, debruçado não mais nos modernos, mas nos antigos;  não mais no processo científico que via no texto literário um objeto inerte a ser dissecado, mas que via neste mesmo objeto um ser participante de relações maiores e mais importantes do que esquemas frios; não mais um papel de professor  transformador social, mas, pelo contrário, de um professor que pode incentivar o gosto pela leitura – e seu decorrente prazer – e a liberdade de raciocínio. Dez anos, esse percurso. Ainda não concluído, pois a estrada apresenta armadilhas e salteadores, obstáculos e ladrões de consciência, bifurcações e violadores.  Armadilhas, obstáculos e bifurcações fazem parte da ordem natural das descobertas: ao percorrermos o caminho em busca da Verdade, caímos umas tantas vezes, nos desviamos outras, até que, determinado momento, olhamos à volta e vemos a paisagem triste e sem luz – resta-nos voltar, humildes, e retomar a jornada. Salteadores, ladrões e violadores, convivemos todos os dias: vendem suas retóricas com aparência sedutora. Mas quem trilhou alguns passos do caminho já não mais é seduzido.

 

Este nosso drama, de todos que estamos submersos no pântano que se transformou a Educação: doutrinam-se jovens para que eles se tornem “profissionais” funcionais que repitam, nas escolas, aquilo que supostamente aprenderam. Serão aquelas pessoas de jaleco branco que sorriem quando a tese não resulta e sacam do bolso uma explicação pronta e também funcional. Serão estes que, num futuro próximo, ocuparão as mesas ministeriais e manterão o ensino onde já hoje ele se encontra: num laboratório imenso que prega falsas doutrinas.



Escrito por Fabio às 04h42 PM.

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Madrid, 11 de março


 

Nunca conheci Madrid,

mas é como se a conhecesse

em seu sofrimento de fogo,

pelo ar gélido que desembaraça

as vestes do horror.

 

Nunca a conheci

em suas touradas célebres

e em suas cores claras:

não a vi, antes

— e a vejo agora,

como se todo o passado se tornasse presente

(um presente erguido em surpresa

um presente devastado de sombras

de nomes vagos, resquícios da gente desconhecida

de números vagos, frios e indolentes

das imagens escancaradas, como sua luz)

 

Nunca conheci a cidade em sua branquidão

(apenas vi, alguns dias, a irmã-gêmea sem terror)

em sua imensa e fátua alegria.

O que conheci foi o fragmento que choca,

cidade-vítima, dilacerada,

em seus corpos tombados,

em seu sangue derramado,

em sua voz calada,

em sua alma roubada.

 

Não, nunca conheci Madrid.

Mas dói reconhecê-la em sua ausência.



Escrito por Fabio às 01h14 AM.

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Burocracia


A lista dos pecados capitais deveria sofrer um acréscimo imprescindível para a boa moral e para os bons costumes das instituições que nos regem: a Burocracia.

 

A Burocracia é pior do que a Ira, pois nos leva a esse comportamento que nos faz perder o bom-senso e o equilíbrio, abandonando a Temperança tão defendida por Santo Agostinho; é pior do que a Inveja, pois o burocrata apenas demonstra seu poder por invejar a vida daqueles que estão fora das malhas cruéis do sistema; é pior que a Soberba, pois que o burocrata aprende, com o dever do ofício, a cultivar e desenvolver uma arrogância tal que o torna insuportável até para os mais cruéis tiranos – o tiranete burocrático aparenta o poder sem o tê-lo e, por isso, se torna mais cruel e intransigente; é, ainda, pior do que a Luxúria, pois a Burocracia seduz os incompetentes e ineptos, levando-os às práticas mais nefastas para o domínio dos outros – do corpo e da mente; é pior do que a Preguiça, pois o burocrata é lavado à completa inércia, física e mental, e qualquer interrupção de sua inatividade o leva ao primeiro pecado desta lista (a Ira); é pior do que a Gula, pois o burocrata devora o que vê à sua frente, desde o mais simples carimbo ata as resmas de papel desperdiçado – mais ainda: nas intermináveis horas de ineficiência, ocupa seu tempo comendo quilos de bolachas e bebendo litros de café; é, enfim, pior do que a Avareza, pois o burocrata faz questão de reter todos os documentos para si próprio – apesar da ineficiência, não dividir e acumular inutilidades apenas lhe dá a sensação de poder ainda maior.

 

Deparamo-nos com este terrível pecado todos os dias, todas as horas, a todo instante. É um Leviatã que se ergue com seus tentáculos, tentando nos impedir de realizar as mais simples ações, nos impedir de viver, simplesmente. Um monstro que do nada cria labirintos imensos e sem saída, que vomita normas e regras nunca antes discutidas e ponderadas. A Burocracia é o paraíso dos incompetentes.

 



Escrito por Fabio às 08h45 PM.

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Filosofices


(ou Muito Gabriel e Pouco Platão, os Males do Brasil São)

 

A filosofia desapareceu. Produz-se pouco, ou nada, de sério a respeito daqueles homens que marcaram a civilização ocidental; as edições das obras de Platão são um vácuo – basta entrar em qualquer livraria para constatar o triste fato: uns quantos diálogos reunidos em um volumezinho feioso, sempre os mesmos Banquete (ao invés de Simpósio, como deveria), Apologia de Sócrates, Fédon, Fedro; da República abundam edições, nem sempre sérias, e d’As Leis, obra derradeira onde Sócrates não aparece, conheço apenas uma, boa. Com esforço a Loyola publicou, em dois anos, dois diálogos, Mênon e Parmênides, em edições bilíngües, com a promessa de continuar com pelo menos o Eutidemo – um ano de espera... A Editora Universitária da Universidade Federal do Pará prometeu a reedição das suas obras completas em tradução do grego por Carlos Alberto Nunes, esgotada há vinte anos e considerada como a melhor tradução que já tivemos na terra tupiniquim, mas desde 2002 o silêncio se alastra, sem contar que a distribuição, por estas bandas, inexiste. Fôssemos um país sério, teríamos a obra completa reunida em um volume, como a belíssima edição da Aguillar, de Madrid, que ganhei, tempos idos, quando ingressei no clube acadêmico. Quem me presenteou talvez acreditasse, ainda, que as Universidades se preocupavam com a filosofia grega – ou que, pelo menos, um dia voltariam a se preocupar.

 

O que vemos, nestas mesmas livrarias, é uma avalanche de produção sobre filosofia, mas sempre marcada pelo gosto da modernidade (ou da pós-isso): toneladas de Nietzsche, outras tantas de Baudrillard, quilos e quilos de Derrida (que os pedantes pronunciam “Derridá”) e Lyotard e Jameson e Foucault e e e e e e. Nem falo em Marx, sempre metidinho ali na estante entre os filósofos, pertinho de Julián Marías para desespero deste. Mas como nos surpreendermos com a barbárie? Como nos surpreendermos se... Mas espere! Isso vale um novo parágrafo!

 

Soube, em conversa com meu amigo Evandro, de quem não duvido e nem tenho razões para tal, vistos a sua inteligência e bom-senso crítico, que a Philósopha-Mor da União da Sapiência Prostituída, Chatilena Maoí, vem ensinando filosofia por meio do estudo de... letras de rap! Surpreendeu-se, leitor? Hem, hem? Pois não precisa. Basta uma olhadela superficial no que rege a educação, as normas que nos são impostas, para notarmos que estudar filosofia por meio das músicas do Gabriel o peidador faz parte da ordem natural das coisas. Não dizem que temos de atingir nossos alunos, nos servindo do seu (deles) referencial cultural e que, dessa forma, eles crescerão fortes e saudáveis e com todos os dentes, como se comessem danoninho, que vale por um bifinho, todas as manhãs? E a surpresa diminui ainda mais se considerarmos que Gabriel carrega consigo o codinome “o Pensador”, o que já é suficiente para ganhar um volume de capa verde e letras douradas naquela coleção da Abril. E mais: atingir os alunos com o referencial cultural deles é algo como responder no mesmo tom quando você, andando na calçada, é atingido em cheio por um saco de urina atirado da janela do ônibus escolar.

 

Não há mais lugar para surpresas, no ensino brasileiro. Só cabe, agora, uma reação: o desespero.

 



Escrito por Fabio às 03h11 PM.

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Não! Não partirei!

 

Apesar de todo o desejo e de todo o fastio, afirmo: não partirei. Apenas termino uma fase de absoluta imersão medieval – e um tanto de ar para escrever outras coisas não iria nada mal.

 

Creio que escrever revela-se, muitas vezes, um problema: quando mergulho em textos acadêmicos, torno-me inepto para a criação – quando, pelo contrário, estou apto para criar, nada de acadêmico se torna possível. Até mesmo um artigo, um mini-ensaio, um parágrafo de tom jocoso, exigem um esforço sobrenatural. Meus neurônios, os dois, entraram em pane – e cheguei mesmo a perceber um estrebuchando e murmurando “luz, luz, eu preciso de mais luz”... Mas o texto acadêmico pouca luz oferece. Quando muito, umas velinhas no canto da sala projetando sombras maiores do que o objeto em si.

 

Tomam-me, essas sombras. E, quando olho à minha volta, vejo apenas os grãos.

 

&

 

Mas não nego que sinto falta de uma escrita mais solta, leve e inconseqüente. De um modo de lidar com a realidade que interessa muito pouco ou que, pelo menos, possa ser vista sem tanta importância. O que eu queria, de verdade, era mergulhar nos livros que se acumulam sobre a mesa, abandonados, encarando-me irritados: Agustina abandonada há semanas, o Gustavo Corção interrompido na página trinta e sete, o Philip Roth em desespero acreditando-se desnecessário, o Saint-John Perse resmungando contrafeito “para isso ganhei o Nobel? para ficar aqui na mesa entre cinzas de cigarro?”.

 

Acumulam-se as cinzas e os livros. Sinto-me, desesperadamente, cinzas.



Escrito por Fabio às 12h43 AM.

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