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Os Espelhos

Espelhos me provocavam, na antiga infância, um duplo sentimento: o fascínio e o terror, misturados, confusos. Nunca sabia quando era um, quando outro que saltava da infinitude do espelho para me tomar de surpresa. Mas não conseguia, simplesmente, desviar-me deles, objetos guardiões que cercavam a casa, vigiavam meus passos, sorviam os segredos, irônicos e cruéis, levando-os não conseguia cogitar para qual dimensão, para qual universo paralelo – para mim, havia um outro mundo do lado de lá, que reproduzia com detalhes este de cá. Sabia que eu, que meus pais, vivíamos fazendo as mesmas coisas ali, repetindo com insistência mecanizada as ações daqui: era um universo não de contrários, mas de absoluta fidelidade; era um mundo no qual existiam as pessoas que eu conhecia sem conhecê-las contudo; era um infinito de duas dimensões, formado por uma película de nitrato de prata, que absorvia tudo, tragando como um buraco negro, as pessoas e os objetos para dentro de si – para aprisionar as suas essências e ironicamente devolvê-las a nós como um simulacro da realidade na qual acreditávamos guardar o sentido da vida. Este o sentimento duplo, fascínio e horror, sem fronteiras entre si, como não as havia entre o que eu era e o que via.

Logo no primeiro dia que entramos na casa, isolada numa rua estreita e tranqüila, deparei-me com um espelho imenso, coberto com um lençol preto. Era o único objeto da sala, fortemente preso à parede, que nem mesmo os pedreiros conseguiram – ou tiveram coragem – de retirar. Foi feita a reforma no ritmo das reformas, sempre mais longas do que deveriam, e o espelho ali, permanente. Eles, incomodados pela sua forte personalidade e sua recusa de sair do lugar, resolveram, para o bem dos seus espíritos, cobrir o objeto com aquele lençol negro – que, para uma mente infantil, apenas piorava as coisas. Depois da reforma pronta, depois da mudança, tiramos o pano que o cobria – e revelou-se um objeto pesado e antigo, uma espécie de olho eterno que pousava sobre nós, sentados à frente da televisão, seu olhar claro nos envolvendo numa espécie de bruma arredia. Eu tinha a nítida impressão que não éramos apenas nós, do outro lado, a assistir programas noturnos, mas que havia uma freqüência maior naquela outra casa, sombras que passavam rápidas pelas molduras e nos observavam como por uma janela. Quando me aproximava para notar quem estávamos ali, via apenas meu rosto em primeiro plano, os olhos temerosos contrastando com a ironia dos lábios, ironia que não era minha; diria que meus olhos eram os da minha infância, mas o esgar da boca era dele, daquele ser em tudo semelhante a mim mas estranhamente mais antigo. Minha primeira percepção de que nosso reflexo tem maior experiência de vida e que, a nós, suas fôrmas, ridiculariza silenciosamente. O espelho ficou ali durante os vinte e dois anos que moramos naquela casa, sobreviveu a nós e deve continuar seu trabalho terrível.

O segundo espelho era o do lavabo, entre a sala e a cozinha. O espaço, pequeno, úmido e escuro – um curto havia dado fim à claridade – guardava um pequeno espelho onde eu me encarava com insistência. O que ele me revelava não era eu – mas um espectro daquilo que eu fora, um espectro do que eu viria a ser. O fascínio, ali, crescia, talvez pela ausência de luz (e mesmo nos dias mais claros a janela se mostrava insuficiente para nos abençoar com o dia), talvez pelas pequenas manchas escuras que começaram a aparecer no espelho apenas um mês depois de instalado – escuridão e manchas que cresciam à proporção que olhava para o que acreditava ser os meus olhos: tudo à volta se fechava e se estrangulava, o tempo fazia a sua curva e se relativizava, o tigre à espreita saltava com seu sorriso de dentes e sangue, eu mergulhava cada vez mais profundamente nos olhos, naqueles olhos que assumiam o tom amarelado das feras, os traços que formavam a linha tênue do contorno do meu rosto deixavam de existir – e tudo era apenas olhos amarelos. Determinado momento mesmo os olhos se abriam – era a hora de escapar de ser tragado definitivamente pelo redemoinho, de escapar de ser preso para sempre no meu outro mundo, de escapar de me transformar no tigre. Fugia dali em desespero, sem olhar para trás, mas sabendo que no dia seguinte tinha o encontro marcado: encontro do qual não faltei até a fase adulta, quando aquela porta quebrou e foi trocada por outra, cerrando assim em definitivo o contato com o outro universo.

O pior era sempre subir as escadas, chegar ao segundo andar onde estavam os dois quartos, cada um com seus espelhos diferentes, cada um guardando o mistério de sua crueldade. Olhava, ainda no primeiro degrau, para o alto – e via apenas uma fotografia velha de mim mesmo, em preto-e-branco, coberta de pó, agarrada à parede pelas teias finas e negras. Subia, passo a passo, sentindo o mármore gelado nos pés, um anúncio de algo que desconhecia, mas hoje, passados tantos anos, compararia com o frio dos pés dos mortos. Olhava sempre para o alto, atraído pelo mistério escuro do corredor que abrir-se-ia quando pisasse no último degrau saindo do frio para a textura felpuda do tapete, sempre encarando a mim mesmo coberto de pó. Á direita estava o quarto dos meus pais – ou de minha mãe, meu pai morto, nessa época, já há algumas semanas. Estava não mais na infância, mas na plena adolescência, os primeiros fios de uma barba aparecendo. Entrava no quarto, escuro, a janela para sempre fechada, o forro rompido pelas goteiras, o ar de abandono, as portas dos armários sempre entreabertas revelando pedaços de roupas (uma manga, a ponta de um lençol, o casaco velho) que pareciam ter vida própria. O espelho da penteadeira, grande, imenso, incomensurável, estendia-se por coisa de um metro e setenta na horizontal e refletia o ar parado do quarto abandonado pela vida. Posicionava-me do outro lado, a uma distância que permitisse observar não a mim, não ao meu corpo, mas aquele outro quarto de outro tempo – pois que esse espelho dizia o que fora o passado, guardados em si os segredos das sombras. Não havia ironia nem fascínio, não havia horror nem medo, não havia movimento algum: tenho certeza que nem mesmo era refletida a imagem, a minha imagem, ali parado à espreita, a expectativa de uma revelação suprema. Tornou-se, também, um ritual – a casa, mal ficasse vazia, o espelho me atraía e eu permanecia horas vendo a inércia, desejando as sombras. Até que um dia eu vi um movimento. Pensei que finalmente o espelho se dignava a mostrar-me a mim – e o que vi não foi nada muito diferente, pelo menos em princípio: um corpo como o meu, um rosto como o meu, as mãos como as minhas. Mas a diferença, o choque da diferença, era radical: aquele eu no outro quarto estava nu; nu e gordo – e velho! E caminhava com lentidão de um lado para outro, como se dissesse “veja o espaço que me resta”, e me encarava com seus olhos mortos, “por que aqui me chamaste”. Eu via aquele homem, aquele eu de outra época, um eu passado com cinqüenta anos a mais, eu o via, eu me via, abrir os armários e retirar as roupas, empilhá-las sobre a cama, tirar o relógio da gaveta e murmurar “quatro e meia, quatro e meia, a hora da morte”. Eu via o murmúrio, não o escutava – ecoava em mim como se eu tivesse pronunciado as frases. Depois aquele homem me encarava, sorria com seu dente de ouro – e desaparecia, deixando os objetos sobre a cama. Tinha de guardá-los todos em seus lugares, depois.

O último espelho da casa estava no meu quarto, na parte interna da porta do guarda-roupa que eu fazia de biblioteca. Empilhava, ali, os meus poucos livros, relegando as roupas a duas gavetas apertadas, de modo que as camisas e as calças sempre estavam amassadas. Gostava de pensar que, portas fechadas, o espelho se encarregaria em dobrar a quantidade de meus livros, dobrando inclusive o silêncio que reinava naquela espécie de templo que criara para meus desejos – mesmo que não soubesse quais eram e o que o futuro me reservaria. O ritual desse templo era invariável: a escrivaninha branca, já amarelada pelo tempo, ficava de frente para uma parede, onde me sentava de costas para as portas abertas do guarda-roupa-biblioteca. Sentava-me sempre entre onze e meia noite para escrever na velha Olivetti portátil; antes, porém, abria as portas revelando os livros – e o espelho. Estava quebrado já não recordava desde quando: partira em diagonal irregular do alto até a metade, de modo que, quando olhava para ele, revelava-me apenas dois terços do seu universo. Nunca via minha face, não percebia o quarto – apenas minhas pernas e parte do meu ombro, o que aumentava a angústia, o que recruscedia o seu mistério: quem era que estava ali, quem me observava enquanto escrevia, quem murmurava para mim as palavras que freneticamente datilografava, quem suavemente ria com ares de mofa quando o resultado concreto da idéia, a sua transformação em palavras, resultava falha? A impressão nítida que eu tinha é que ali morava um desconhecido, dois terços de uma pessoa cuja face eu nunca havia visto – e não tinha coragem de encarar. Muitas vezes, enquanto escrevia, tão jovem ainda, eu sabia que do espelho partido saltavam seus habitantes, suas sombras invadindo o quarto; sentia o toque no ombro, a respiração leve e fria levantando os pelos da nuca, a serpente pegajosa enrolar-se nos meus pés; ouvia seus movimentos ao meu redor, os seus risos abafados como se ouvidos à distância do tempo e – meu Deus! – ouvia outros risos, os risos das crianças que ficavam presas ali até a hora em que eu abria as portas para libertá-las em sua inocência, em sua inconseqüência! Aquele o mais terrível espelho da casa, pois não era o meu reflexo nem seus tons que ele reproduzia com fidelidade – eu que o refletia, eu que era o paralelo de sua existência.

Passados tantos anos, tantas casas, tanta coisa, os espelhos dizem-me muito pouco, não guardam mais o abismo, não trazem mais tigres de olhos amarelos, não são mais janelas nem portas, não se refletem em mim. Trago comigo apenas um espelho, pequeno, para o qual não olho – até o dia em que será inevitável encará-lo de frente, ser tragado pela sua revelação derradeira, e – com alívio abençoado – deixar, finalmente, de existir.

Escrito por Fabio às 01h13 PM.

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Vontade de um domingo à toa, à toa, folheando o Victor Hugo de Graham Robb e sorteando ao acaso um parágrafo ou outro, pensando na morte da bezerra. Aliás, o livro, fruto da bienal, pechincha daquelas irrecusáveis, dez reais no lugar dos setenta das livrarias, era namorada desde 2000 quando li que era a melhor biografia do autor dos Misérables; a esta juntou-se outra sobre Borges, um dos favoritos sempre aqui ao lado.

***

A bienal não estava dessas coisas, talvez por falha da organização, tudo junto em um único galpão enorme parecendo oficina, forrado com um carpete azul de gosto duvidoso. Repete-se o que se viu nas anteriores, toneladas de auto-ajuda que só ajuda mesmo os autores das bobagens, espiritualismo suspeito, vendedores de assinaturas e de métodos infalíveis de memorização e leitura dinâmica que pegam pelo seu braço e perguntam “você lê por prazer ou por obrigação?”. No meu peito, o tal crachá “professor”. Triste, mas é verdade: quantos pares não conheço que lêem apenas por obrigação?

***

Leitura dinâmica me lembra uma frase de Woddy Allen, citada de memória: Fiz um curso de leitura dinâmica e li Guerra e Paz em dez minutos. Tem a ver com a Rússia.

Os folhetos dizem: desenvolva sua capacidade de: leitura diagonal, leitura fotográfica, leitura periférica, leitura alternada, leitura intensa, leitura profunda, leitura objetiva, leitura rarefeita, leitura isso, leitura aquilo. O que prova que ninguém mais lê, simplesmente.

***

Mas duas coisas valeram: a obra de Paulo Francis, reeditada aos poucos, com  promessas de coletâneas dos artigos do Diário da Corte. E uns portugueses novíssimos em primeiras edições brasileiras: Rui Zink, O Reserva, e Filipa Melo, Este é o Meu Corpo. Os portugueses entram em uma fase literária que nos deixa com inveja, chupando o dedo.

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Sério problema, as crianças aos montes, verdadeiros batalhões, hordas inteiras, festivas, barulhentas, descontroladas, escondidas entre as prateleiras, atrás dos estandes, só esperando você passar para saltar direto no pescoço, quais dobermans, e te devorarem ali mesmo, deixando os ossos sobre o carpete azul. Que, aliás, tinha um gosto muito duvidoso.

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Lembro que a bienal foi inaugurada pelo Lula, vosso presidente. O Lula abrindo a bienal do livro! Isso é que é autoritarismo: o governo nem deixa a gente fazer as piadas – ele toma a frente e as faz sozinho.

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Volto à bezerra que continua ali, mortinha.  



Escrito por Fabio às 03h20 PM.

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Frase para Reflexão


Depois de dias mergulhado nas insídias políticas desta imensa oca que se transformou o país, uma oca sem caciques e recheada de pajés miraculosos, percebo o quão óbvio é tudo o que nos cerca, o quanto é fácil falar qualquer coisa por aqui sem que a agulha do eletroencefalograma da população registre o menor movimento acusador de vida.

 

O que acontece, nas mais variadas áreas de atuação, desde a política até a cultural, é a mera reprodução, a repetição até a exaustão das mesmas fórmulas prontas e sabidamente vazias, na tentativa (com sucesso, infelizmente) de convencer a maioria de que as propostas, todas, lançadas pelo governo ou pela oenegês ou pelas igrejas ou pelas universidades, que as propostas são excelentes e que vinculam-se a uma efetiva preocupação social com o objetivo mais nobre do mundo: acabar com as diferenças. Não digo que é maquiavélico para não ofender o pobre Maquiavel, uma vestal de tranças e virgem perto destas moiras de nariz adunco e verruga peluda no queixo que usam o seu – e nosso! – precioso tempo a preparar fórmulas verdes e borbulhantes e fétidas. Uma espécie de hipnose que lembra aquela frase de não-se-quem, “uma mentira repetida mil vezes etc”.

 

Depois, passado o tempo, a poção não dá certo, apontam-se os dedos, os gorilas digladiam entre si para saber quem é o mais culpado pelo aumento da violência, pela descoberta das minas terrestres no morro, pelo recrudescimento do racismo (em uma verdadeira democracia deveria haver quotas para racistas?), pelo aumento da miséria, pela falência da educação, pela qualidade abaixo da linha de Uganda de nossos leitores, pela gratuidade do sexo na tv, pela burrice generalizada. E a fala, o discurso, repete-se, há anos: “é que eu pensei que...”.

 

E aqui vai a frase para reflexão, extraída do cabedal filosófico de João Ulanin: “Pensando morreu um burro!”



Escrito por Fabio às 01h09 PM.

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Cuba é Aqui!


Já pensaram na maravilha que é viver em um país onde todos são forçosamente iguais? Onde todos têm obrigatoriamente os mesmos direitos? Onde todos comem a mesmíssima coisa, quando comem, mesmo porque não há mais nada? Onde o cidadão é limitado em seus direitos mais simples em nome desta suposta igualdade social? Onde todos, compulsoriamente, colaboram para o bem comum? Onde não se pode comprar os livros que quer, não se pode ouvir o que quer, não se pode falar que quer? Onde seus gastos são conscienciosamente controlados pelo Estado para evitar as tais desigualdades sociais? Já pensaram em viver em Cuba, mas em uma Cuba muito maior do que a ilhota castrista metida no Caribe? Em uma Cuba continental, imensa, também governada por um sujeito barbudo e carente das mais simples qualidades intelectuais? Uma Cuba gigantesca: um Cubão? Pois sejam bem-vindos: vocês já estão nela!

 

Olhem que maravilha de idéia que o senhor JOSÉ NAZARENO CARDEAL FONTELES (o e-mail do homem é este, afinal estamos, ainda, numa democracia. Ou acho que estamos:   dep.nazarenofonteles@camara.gov.br  ), deputado do PT pelo Piauí, apresentou na forma do Projeto de Lei Complementar 137, agorinha mesmo, em 2004:

 

Estabelece o Limite Máximo de Consumo, a Poupança Fraterna e dá outras providências o Congresso Nacional decreta: 

Art. 1º Fica criado o Limite Máximo de Consumo, valor máximo que cada pessoa física residente no País poderá utilizar, mensalmente, para custear sua vida e as de seus dependentes.

§ 1º O Limite Máximo de Consumo fica definido como dez vezes o valor da renda per capita nacional, mensal, calculada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, em relação ao ano anterior.

Art. 2º Por um período de sete anos, a partir do dia primeiro de janeiro do ano seguinte ao da publicação desta Lei, toda pessoa física brasileira, residente ou não no País, e todo estrangeiro residente no Brasil, só poderá dispor, mensalmente, para custear sua vida e a de seus dependentes, de um valor menor ou igual ao Limite Máximo de Consumo.

Art. 3º A parcela dos rendimentos recebidos por pessoas físicas, inclusive os que estejam sujeitos à tributação exclusiva na fonte ou definitiva, excedente ao Limite Máximo de Consumo será depositada, mensalmente, a título de empréstimo compulsório, em uma conta especial de caderneta de poupança, em nome do depositante, denominada Poupança Fraterna.

[...]

§ 4º As pessoas físicas que auferirem rendimentos de mais de uma fonte deverão, até o quinto dia útil do mês seguinte ao do recebimento, realizar o depósito do valor dos seus rendimentos, excedente Ao Limite    Máximo de Consumo, na Poupança Fraterna.

I - a não-realização do depósito na Poupança Fraterna, ou sua realização em valor inferior ao determinado no art. 3º desta Lei, por período superior a trinta dias, implicarão a automática e imediata inserção do retentor no cadastro da dívida ativa da União, pelo valor correspondente  a duas vezes a diferença entre o valor depositado e o valor devido.

Art. 4º Caberá à Secretaria da Receita Federal:

I - a elaboração do cadastro anual dos poupadores compulsórios da    Poupança Fraterna, constituído de todas as pessoas físicas com rendimento  mensal igual ou superior ao Limite Máximo de Consumo;

[...] 

Art. 5º Os recursos compulsórios aplicados na Poupança Fraterna serão devolvidos aos seus titulares nos catorze anos seguintes ao período mencionado no art. 2º, com prestações mensais de valores equivalentes à metade de cada um dos depósitos realizados, respeitada a ordem em que os depósitos foram feitos, mais os juros acumulados no período.

[...]

São apenas uns trechos selecionados da singela proposta deste homem público. O delírio completo, assim como seu andamento, está no site http://www.camara.gov.br/Sileg/Prop_Detalhe.asp?id=156281.

Alguém ainda duvida para onde estão nos encaminhando?

Escrito por Fabio às 03h14 PM.

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Samambaias


Não sou dado a falar de política – e duas vezes em uma única semana parece-me excessivo, mesmo com um governo como este, que causa irritações nas mucosas só de olhar as fotografias e escutar as vozes de seus representantes. Mas, depois daquela pérola freibetiana (o Papa foi mesmo infalível, ao mandá-lo calar a boca, anos passados), impossível não lembrar de outras regurgitadas sonorosas surgidas de gargantas tão nobres quanto por seus diletos pares. Recuso-me a transcrever as frases – isso só causaria horror ao leitor mais sensível, enquanto àquele menos sensível as reações poderiam ser das mais diversas, desde o riso desenfreado até a convulsão hidrófoba. Poupo a vós, ilustres leitores – e poupo a mim.

 

Mas é inegável que vivemos no tal febeapá que já era dos grandes nos idos de 60 e 70. A diferença é que agora o festival criou enormes tentáculos e se alastra, dominando as mentes, penetrando os corpos, transformando todos em samambaias, como naquele filme antigo. Os casos são inúmeros, intensos, frustrantes – e culminaram, depois de passar pelo tal Waldomiro, ou Valdomiro, cupincha do Zé Dirceu e dos pastorezinhos canalhas universais do reino do demo e do conseqüente abafa (“Zé Dirceu é meu homem forte”, disse Lula – hmmm, sei, sei) e pelos programas sociais que ninguém sabe, ninguém viu, culminaram com a aprovação oficial do preconceito com as tais cotas raciais nas universidades públicas e particulares. Os comparsas de Brasília não sabem mais o que fazer para manter aquele ar sério de quem está fazendo alguma coisa... Mas ninguém já acredita.

 

Lembra-me, a situação política, uma velha piada: a respeito do lula & Cia., há duas posições – a dos otimistas e a dos pessimistas. Os otimistas acham que o governo anda mal das pernas e acaba ates do prazo. Os pessimistas, que não vai dar para todo mundo.



Escrito por Fabio às 04h53 PM.

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Eu sei o que vocês fizeram na eleição passada...


O que eu queria mesmo, de verdade verdadeira, beijando os dedos em cruz e tudo, é que este texto fosse algo assim, digamos, dominical, levezinho e digestivo, agradável aos olhos de quem lê e que fosse capaz de arrancar um sorriso, mínimo que fosse. Mas escrever é sempre um drama. Uma das saídas dos blogueiros, alguns anônimos outros nem tanto e outros, ainda, ilustres desconhecidos como este escrivinhador, nestes momentos de crise e desespero (tenho de atualizar a página, tenho de atualizar a página, tenho de atualizar a página, repete, insistente, a mesma voz monótona), o que fazem, o que faço, é percorrer as páginas dos jornais e passar os olhos sobre as notícias do dia, em demanda de um assunto. Não há nada mais terrível do que fazer isso...

 

Nada pior porquê: um, há, sempre, uma foto do presidente, todo sorridente, como se a coisa não fosse com ele; dois, há, sempre, a citação de alguma coisa brilhante que ele disse; três, há, sempre, um dos seus asseclas, aqueles sujeitos que o cercam e que, geralmente, têm idéias tão ou mais brilhantes do que ele; quatro, paremos por aqui: não há fígado que agüente. Então uma frase tirada da Folha desta semana (estão lá, eu juro!), que revela... bem, vocês verão o que revela:

 

"O programa Fome Zero nada mais é que a versão política da multiplicação dos pães e peixes realizada por Jesus". Do Betto, que se diz Frei. Se Lula pode ser comparado a Jesus, nós podemos também pedir, por piedade, “Crucificai-os, crucificai-os”...

 

***

Texto novo no Oito Colunas. A Primeira parte de Literatura, Ensino e Transformação, de Fabio Ulanin (quem?).



Escrito por Fabio às 02h16 PM.

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Vassene’l tempo e l’uom non se avvede.


Não há como discordar de Dante, o Alighieri: o tempo passa e nós, pobrezinhos e presos em nossas preocupações cotidianas, não nos apercebemos. Mas então que – já? Um ano faz este blog. E percebo, um tanto preocupado, ao revirar as páginas passadas (imaginemos que seja um livro), que no mais das vezes escrevi variações sobre temas muito próximos. Mas percebi outra coisa: de abril de 2003 a este abril atual, mais ruidoso e menos atribulado, o estilo mudou – e não foi pouco. O ranço acadêmico do início cedeu lugar a algo um tantinho mais lírico, as elocubrações cerebrinas e supostamente racionais mandei-as às favas – e que passem bem, obrigado.

 

Aliás, se o que escrevi não tem lá grande importância e se o texto por vezes me sai manquitola, pelo menos uma coisa é certa: adentrar, pela porta dos fundos, na chamada “blogosfera” (termo que, sinceramente, acho insuportável, coisa de sci-fi de quinta), valeu-me boas e sérias amizades. Contando com o endereço antigo, há o registro de 12.184 visitas! Senhor! Isso significa que todos os três leitores não param de clicar sobre o “atualizar página”... A todos os que por este pequeno e pobre feudo passaram e passam, comentaram meus delírios ou permaneceram em um silêncio compenetrado, meu muito obrigado. Àqueles que porventura passaram por aqui e saíram resmungando e xingando – estou nas tintas. Mas paremos com isso, diz a tal consciência, preocupada. A quem interessa isso tudo?

 

Concordo, então vamos a algumas breves informações que também não têm o menor interesse para ninguém – o resultado de minha profunda pesquisa sobre o significado de “Ulanin”. Além do nome de minha família, herdado de meu avô, que saiu de Moscou depois da catástrofe de 1917, e que não se espalhou tanto assim, encontrei o seguinte:

 

1) Ulanin é o nome de uma mina em Batangas, nas Filipinas, coisa de 200 quilômetros de Manila, em uma das mais de sete mil ilhotas por lá espalhadas. O que dela se extrai, pergunta o leitor, exigente de informações sólidas. Sabe-o Deus! A página da net estava em construção – mas creio que é uma mina de onde se extraem ulaninzinhos em estado bruto que, depois de devidamente lapidados, serão incrustados em algum metal e vendidos nas feirinhas hippies manilenses.

 

2) Ulanin é o nome de uma personagem que, pelo que entendi, toma parte de um RPG. Ulanin the Red, esperando que este vermelho nada tenha a ver com a condição política do guerreiro do século XIII. Aliás, uma tristeza viver tanto tempo e descobrir que, de alguma forma, você se tornou uma personagem de um jogo no qual marmanjos barbados se vestem de elfos e fingem jogar raiozinhos uns nos outros.

 

3) Há um Ulanin, dito Artturi, nascido em 1906. O que ele fez, ou faz, não sei – mas vocês sabem: quando depois do nome aparece um parêntese com a data do nascimento e, às vezes, quando é o caso, da morte, é porque o sujeito era importante. Prefiro imaginar que ele não fez nada, assim tenho pelo menos um parente, ainda que distante, que pôde cumprir o meu desejo de absoluto ócio.

 

4) Finalmente, Ulanin é um verbo – lá da língua deles, nas Filipinas – que significa “chover”, no passado. Assim, meu nome poderia ser Fabio Choveu, o que não significa que chova fabios por aí, para sorte da humanidade. Mas explica este estado de espírito pantanoso em que me encontro no mais das vezes. Verdade que poderia ser algo mais heróico ou nobre, o nome de um herói nacional, personagem do canto épico ancestral, quiçá um deus – um semi-deus já serviria. Mas “choveu”? Se levarmos em consideração que “Fabio” significa “aquele que planta favas”... olhem que miséria...



Escrito por Fabio às 06h19 PM.

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Dois Blogs...


Extra! Extra! Inaugurado o blog Oito Colunas, que publicará dois artigos semanais! Formado por André de Oliveira, Flamarion Daia Júnior, Tiago Sacilotto, Diogo Costa, Rodrigo Pedroso, Mauricio Amaral, Adalberto Queiroz e este que vos escreve, Fabio Ulanin. O primeiro artigo, que já anuncia a excelência da empreitada (êta frase que tem ares daquele jornalismo dos anos 40...), “Multidão de Covardes”, é de autoria de Diogo Costa. Uma cápsula só para provocar o leitor:

 

“Há um tipo bem peculiar de pessoas que vejo multiplicar-se como a maior epidemia da contemporaneidade. Pessoas que tremem de pavor quando se encontram sozinhas. Precisamente quando se encontram. Os covardes da alma.”

E mais! O Canção de Outono está em endereço novo, com roupa nova, mais belo e arejado. O texto de estréia nos traz de volta a Ritinha, protagonista do delicioso “Rita e o Trem”, já conhecido e, cá entre nós, um dos mais sensíveis contos sobre o universo infantil que já li. Outra cápsula para adoçar o paladar:

“Rita estava feliz da vida na estrada para o interior. Nossa! Como essa menina gosta de ir pra lá! Fica o tempo todo olhando pela janela do carro, contando os quilômetros que faltam para chegar e abre um sorriso largo quando começa a perceber as mudanças da paisagem no caminho.”



Escrito por Fabio às 10h56 PM.

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... e dois livros.


Não falo sobre livros faz algum tempo. Mas como resistir à tentação? Ou: tentações, pois são duas, uma simples e outra sublime.

A simples: passei o fim de semana com 12 anos. Voltei à era das aventuras da minha pré-adolescência, mergulhado nas profundezas de África, participando de caçadas, em busca do mistério de uma mulher-rainha imortal, Ayesha, cercado por uma tribo estranha praticante de mais estranhos rituais canibalescos. A novela é de H. Rider Haggard, Ela, e tem tudo aquilo que este tempinho chato de hoje proíbe com gritos histéricos: os africanos são selvagens mesmo, as caçadas matam os animais mesmo, os europeus são mais inteligentes mesmo. Tudo o que a neurose politicamente correta chamaria de preconceito.  Falta publicarem as aventuras de Allan Quatermain.

 

“Ayesha acabara de pronunciar tais palavras e de todos os lados surgiram formas escuras, todas trazendo o que num primeiro instante nos pareceu ser enormes tochas. Fosse o que fosse, delas saíam chamas imensas, que se alongavam por um metro ou mais atrás daqueles que as carregavam. Eram cinqüenta ou mais, todos com suas tochas, parecendo um bando de demônios escapados do inferno. Leo foi o primeiro a descobrir o que eram as tochas.

— Meu Deus! – exclamou. – São corpos em chamas!”

A sublime: leio, com parcimônia, aproveitando cada linha, cada palavra, as Cartas do Pai, correspondência de Alceu Amoroso Lima para sua filha Madre Maria Teresa. Relutei alguns meses para comprar o volume, mas decidi-me, finalmente, quando o Beto Queiroz – a quem devo grandes agradecimentos pela sugestão – publicou, lá no Zadig, uns trechos. A impressão, nítida, que tenho, ao percorrer os anos da correspondência, é que essas cartas foram escritas para mim – e eis o poder do livro: conhecemos Tristão de Athayde, conversamos com ele, sentados nas grandes poltronas da biblioteca, bebericando o uísque de que gostava, e somos docemente encaminhados para a mais pura reflexão metafísica, tomados por suas mãos, ofuscados por seu gênio.

 “O que nos deve inspirar – em coisas altas e grandes como esta de um Concílio Ecumênico que será o 21º na História – é apenas o amor da verdade e nunca o temor de ver nossas posições confirmadas ou rebatidas. Temos de crer que em assembléias como esta, em que vão se reunir mais de 1800 bispos de todo o mundo católico, só a verdade prevalecerá! Mesmo que o dedo de uma facção tenha entrado em algum momento, o resultado final bem sabemos que tem de ser inspirado pelo Espírito Santo. Basta nos lembrarmos na oposição que houve, por parte de bispos, no Concílio Vaticano, à definição do dogma da infalibilidade. E de como Santo Tomás de Aquino não aceitava, em seus escritos, o futuro dogma da Imaculada Conceição!” (26 de janeiro de 1959)



Escrito por Fabio às 10h52 PM.

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Uma Vida


 

Vejamos mais de perto o espécime que caminha, apressado, pela rua. Notem que ele carrega uma infactível paste zero-zero-sete prateada, daquelas que, parece, trazem tubinhos arrolhados com um vírus capaz de matar a população em duas horas ou aquelas pequenas cápsulas redondinhas e verdinhas com material radioativo, que ele veste uma camisa azul com colarinho e punhos brancos, que seu paletó está impecável apesar do calor (ele nunca tira o paletó, nunca o carrega displicente sobre o ombro, nunca o abandona nem mesmo quando vai tomar o cafezinho no corredor da firma – ele fala assim mesmo, “firma”), que sua gravata apresenta um nó complexo e austero, corretíssimo, que o corte do cabelo é tão competente quanto seu rosto limpo e escanhoado todos os dias por mãos hábeis, que seus óculos sem aros, milimetricamente pensado, dá o efeito de quem detém a solução de todos os problemas, que seus sapatos são novos e engraxados e sem desgastes. Aliás, há toda uma psicologia nos sapatos que deveria ser, se não o foi, analisada com atenção: no nosso homem eles, os sapatos, representam uma determinada categoria funcional, a sua expectativa de ascensão, de poder, de desejo de mando – os sapatos são o ponto nevrálgico de sua carreira, são os objetos com os quais ele pisa, indiferente, o mundo.

 

Mas vamos, vamos segui-lo. Não se preocupem, pois ele não é capaz de nos notar, não porquê seja desatento – uma de suas características principais é nunca perder “o foco”, como gosta de repetir apontando com os dedos indicador e médio para os próprios olhos, truque que aprendeu num filme, gesto que gostou, pegou e ficou – mas porquê ele não pode nos ver. Temos um ponto de vista privilegiado dotado da mais pura imisção nas almas, de modo que podemos não só seguir esse homem como também nos aproximar, caminhar ao seu lado, tocar em seu braço, mostrar-lhe a língua, passar-lhe uma rasteira – coisas que não faremos pelo respeito que devemos ao nosso objeto de estudo: não podemos, agora, estragá-lo. Tome coragem, aproxime-se um pouco e sinta que ele usa um perfume caro, um tanto doce demais, e que olha persistente e preocupado para o relógio: estará atrasado para uma reunião, tem de escrever um relatório a ser entregue até as dezoito horas, reflete se dará tempo de almoçar ou para um lanche ao menos.

 

Entremos atrás dele no edifício, o acompanhemos no elevador silencioso até o 25º andar. Olha insistente o marcador anunciando o primeiro, o segundo, o terceiro e, apesar de o veículo ser rápido, parece que o tempo, para nosso homem, se arrasta. Agora, que está sozinho, sem ser observado a não ser por nós, consegue relaxar um pouco: seus ombros cedem, seu rosto aparenta cansaço, dir-se-ia que, nessa atitude de levar a mão até o nó da gravata, que vai afrouxá-la e desabotoar o colarinho; mas mete a mão no bolso e retira um lenço perfumado e o passa na nuca, na testa, nas faces. Percebe que está só, não no sentido de uma solidão momentânea de elevador, mas só em sentido absoluto.

 

O drama dos momentos sem ocupação, sem atividade, sem a preocupação cotidiana é este: o pensamento, essa matéria palpável e brutal, aproveita-se de cada mínimo instante para saltar repentinamente, qual fera, olhar diretamente em nossos olhos (pois compactuamos com nosso homem, partilhamos as mesmas experiências) e, ao invés de nos devorar, murmura “quem sois?”. A pergunta é pertinente, e poderia ser “o que fazes?”, sabido é que fazemos algo a partir daquilo que somos – o Bem ou sua ausência, o Mal – já que escolhemos livremente o caminho. Mas nosso homem não chega a refletir sobre isso, não consegue, tanto por não conhecer Santo Agostinho, que nós, observadores, conhecemos, quanto por não ter em si o laivo filosófico das preocupações metafísicas. Notem como agora chegamos, sem esforço, no mais íntimo desse nosso amigo (podemos chamá-lo desse modo, já que partilhamos de um instante, pequeno mas intenso, que nos revela o seu caráter): é um homem prático. E um homem prático não se preocupa com bobagens filosóficas, não se desgasta na tentativa de descobrir o que, afinal, ele é ou faz – o prático faz e pronto, reveste-se da mais clara competência.

 

[Continua abaixo]



Escrito por Fabio às 05h24 PM.

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[Continuação de Uma Vida]

 

Se um de vós se aproximar do homem, agora que quase chegamos no nosso destino, faltam dois breves andares, e murmurar no seu ouvido “mas porquê és assim?”, poderemos ouvir a resposta, óbvia como tudo o que ele exerce. Alguém gostaria? Sim, temos também este poder, oferecido pela onisciência narrativa e pelo raciocínio hipotético – podemos interferir a qualquer momento, sussurrar sugestões, mudar uma vida. Mas devemos – e isto é um alerta – tomar cuidados e murmurar sempre de modo consciente para evitar uma ação precipitada e descabida de nosso observado. Mesmo que ele seja apenas uma personagem, nós gostamos dele; mesmo que ele, muito pragmaticamente, não acredite em nós, pois crê, em oposição, na pura razão de suas ações, será marcado por qualquer sugestão que lhe fizermos – não queremos, então, que ele cogite em suicídio ou em uma demissão sumária caso um de vós, só para experimentar esse poder que vos é conferido, diga maliciosamente “vidinha inútil a sua, não? para quê continuar com a eterna redundância das ações, para quê, me diga, vais entrar na sua sala, dividida por tapumes baixos que permitem que se vos observem a todo o instante, e preencher todos aqueles relatórios, sempre os mesmos, sempre os mesmos, sempre os mesmos...”. Vejo que um tomou a coragem e, antes que o elevador o jogue de volta no burburinho do mundo tecnicista, enquanto ele se encara no espelho e expulsa uns fiapinhos imaginários dos ombros, faz a fatal pergunta, de maneira amorosa e quase paternal: “porquê és assim?”.

 

Há uma surpresa no olhar que o espelho reflete. Sua expressão turva-se, vêem? Não se reconhece, não se encontra, e a sugestão na forma de questionamento ecoa – o que é um excelente sinal, posto que o som não se propaga no vácuo. Não senhores, não senhoras: não é um tipo carente de qualidades intelectuais – elas estão ali, mas adormecidas, ou, se não adormecidas pelo menos encolhidas em um canto qualquer, desnutridas e trêmulas. Dê-lhes algum alimento e elas se arriscam a erguer-se e a se aproximar, a vir à luz, a ocupar o centro do palco. Podemos escutar o torvelinho das idéias em luta contra a Convicção desse homem. As idéias, insinuantes como são por natureza, não desistem facilmente de seu objetivo: cantam em roda, alegres, uma cantiga que todos conhecemos e que, no mais das vezes, tentamos calar – e conseguimos. Acorrentamos as idéias, as tratamos com ração insuficiente, as abandonamos em um quarto fechado e sem luz – foi isso que nosso amigo fez em nome da praticidade de sua vida: leu todos os manuais que regram o comportamento do homem de sucesso, assistiu a todos os filmes de treinamento funcional, bebeu das normas do trabalho em equipe, estudou e graduou-se administrativamente, especializou-se em organização e métodos e quando sua vida pragmática e organizada e metodizada exige um pouco de ar, ele assiste ao filme da moda na tv, encontra os amigos da mesma firma para a partida de futebol socaite, lê o livro que encabeça a lista dos dez mais vendidos da Veja – mesmo em seu descanso age na comodidade do método. Fez tudo para que perdesse a sua individualidade, para que fizesse parte do Grupo. Mas as idéias as libertamos agora e, contra a sua festa, ouvimos a Convicção tentando resistir aos gritos: “foco, foco, mantenha o foco, seu trabalho te espera, essa não é a hora de ter idéias, não é o momento, vê: chegamos no andar, a porta vai se abrir, recomponha-se!”.

 

[Continua abaixo]



Escrito por Fabio às 05h24 PM.

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[Continuação de Uma Vida]

 

Nosso amigo pensa nas inúmeras justificativas a que sempre se apegou desde que percebeu, há tempos, que o mundo funciona de determinado modo, previsível; as justificativas são aquelas mesmas que lhe foram embutidas na consciência como um valor supremo pelo seu pai, pela escola, pela sociedade – respeita a memória do primeiro não porque o amasse, pode até ser que sentisse amor pelo pai, coisa que nunca saberemos já que acabamos de conhecer este homem, escolhido ao acaso na rua, mas pela razão de que ele é, também, pai e que deixar para os filhos uma vida construída, os valores que recebeu, a autoridade de um homem sóbrio e ponderado, lógico e justo; das escolas pelas quais passou tirou uma lição: que o estudo é necessário para se ser alguém (“quem és, quem és?”), já que é o que ali se aprende, e depois se esquece, pois o valor de uso já foi cumprido, o que ali se aprende serve para o ingresso na universidade e mesmo esta dá as fórmulas, se não para uma consciência profissionalizante, pelo menos para que, título em punho, se consiga aquele emprego desejado, o status de ser Alguém. Pensa “me formei na universidade da vida”, mas a imagem do espelho diz outra coisa. Todas as suas justificativas estão soltas. Sente-se náufrago. Olha para si mesmo e repete, com insistência “quem sou?”. Tenta nos convencer que é fruto do meio onde vive, que faz o que faz por ter responsabilidades, os filhos, a família, as contas, o carro, o chefe. O que faço, tenta se convencer, é útil para o mundo, o faz girar, o coloca nos eixos – a vida sem eixos é o quê?

 

Bobagem, bobagem, gritam as idéias em coro – nunca te preocupaste com o outro, com o mundo, com a família; esfriaste em tua humanidade ao te tornares um técnico, pior: um tecnocrata; teu espírito tornou-se mínimo e tímido, isolado em uma camisa-de-força de chavões nos quais não acreditas verdadeiramente: tudo em que acreditas, tudo o que essa tua convicção dita e regra e regulariza apenas te fez o que és: um invólucro em torno do vazio. A resposta para o drama de tua solidão não está onde procuras: na tua mesa, no teu computador, nos gráficos, no beijo morno que recebes à noite depois de dezesseis horas de trabalho, nos teus contatos, nos teus desejos de reconhecimento, no grupo ao qual pensas pertencer, na tua aparente competência, nos teus sapatos. A mais velha das idéias aproxima-se e murmura: “A resposta que procuras está na sala acolchoada onde prendeste teu espírito”.

 

Creio que é chegada a hora de deixarmos nosso amigo. Pode ser que ele cumpra com o seu desejo. Pode ser que ele ouça a voz que traz em si. Pode acontecer tanta coisa, ainda, no corredor que lhe parecerá interminável até sua saleta. Pode ser que ele apenas enxugue a lágrima insistente, como o faz agora, e vista de novo a couraça de sua Convicção, e erga o queixo, e ajuste os óculos, e arrume a gravata, e escreva seu relatório urgente para as dezoito horas. A nós, que o acompanhamos em sua breve vida, de três páginas quando muito, resta a esperança de que ele liberte seu espírito. Adeus, nosso amigo.



Escrito por Fabio às 05h23 PM.

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