
Quem nunca riu ao ler Machado de Assis não viveu. Ou melhor, viver, viveu, assim de uma forma vaga e inconsciente de si mesma, mecanizada e espezinhada pela vetustez carrancuda da vida. Ler Machado e permanecer sério, compenetrado, sem se deixar levar pela ironia e pela leveza do estilo é perder tempo. Não à toa que muitos o odeiam: foram treinados para não ler, para não se divertir, para não se deixar levar. Pois que o segredo da vida é este: deixar-se levar pela brisa das palavras ou navegar pelas ondas das frases – as duas metáforas são péssimas, o leitor que escolha uma ou me dê outra de melhor tecitura, que a aproveito.
A perda da graça da literatura – aquela graça elevada que enleva o leitor e o transporta para outras esferas mais dignas do que esta na qual, carregando pesos absurdos, habitamos – corresponde à perda da civilização. Pois que fomos civilizados, lá pelos tempos de D. Pedro II, não apenas pela técnica, mas pelas letras, muito mais importantes do que qualquer aparato tecnológico que se revela como pedra de toque, revestido de um misticismo milagreiro que resolveria todas as mazelas humanas. Fomos civilizados porque tivemos Machado de Assis, assim como a França foi civilizada por Baudelaire e, mesmo que o detratem os críticos, Hugo; a Inglaterra foi civilizada por Shakespeare e ainda tem seus laivos metropolitanos; a Itália civilizou-se com Dante – o que já é suficiente para uma eternidade, suas emanações perduram até hoje; Portugal teve Camões e, não bastasse o vate, começou sua vida literária com um Rei e, até antes dele, com a melhor prosa já escrita em português, a Demanda do Santo Graal – mas manteve sua civilização até há pouquíssimo tempo, Eça e outros o digam; os Estados Unidos... mas basta, basta. Levantar as civilizações, efetivas ou falhadas, não resulta melhor: já entenderam o que eu digo.
A nossa literatura foi brutalizada, currada em algum beco escuro. A civilização até tentou reagir, depois da sombria face dos anos 20 e 30 do século passado com as bobagens dos Andrades, Mário e Oswald: tentou reerguer-se com as graças de Guimarães Rosa que, a exemplo do que acontece com Machado, ninguém mais lê para simplesmente divertir-se, para ser levado. Perdemos um, perdemos outro, e a nossa literatura ficou algo parecido com a arte rupestre, aqueles cavalinhos pintados nas cavernas, aquelas vaquinhas, aqueles mamutezinhos perseguidos por homenzinhos primários. Os nossos grandes nomes, hoje, rabiscam nas paredes das cavernas num ritual mágico que visa enfeitiçar suas presas: os leitores mal-formados saídos das escolas.
Comprava, então, com os tostões, quatro ou cinco livros por mês, o que, lógico, não era suficiente para alimentar o vício – já desenvolvido e com os vírus dominando todo o meu tempo. Meu pai, percebendo o ponto ao qual a coisa ia – e talvez desconfiando que eu não daria para nada mais mesmo (acima eu falei que jogava bola na rua – o que é meia verdade: havia, sim, uma bola; havia mesmo, em tempos idos e longínquos, um campinho onde hoje há apenas um posto de gasolina. Mas não posso dizer que jogava, assim, na acepção literal do termo: sempre fui daqueles que ficam por último na escolha do time para desespero dos verdadeiros candidatos a atletas) comprava coisa de dez volumes de Agatha Christie/mês, que eu, filho ingrato, devorava em uma semana. Não há exagero nisso. Não conseguia ser comedido, de modo que ele acabou por assinar o Círculo do Livro para mim – para mim e só para mim! Este o começo da Biblioteca – muita coisa continua aí, nas prateleiras; muita coisa foi ou trocada ou doada ou distribuída aleatoriamente. Livremo-nos dos excessos – há uma hora em que é impossível não nos desfazer do passado.
Li e reli todas as aventuras de Poirot e Miss Marple e daquele casal de detetives de quem não lembro o nome em um ano; li e reli Jules Verne; li, apenas, Dostoievski; meti-me com Shakespeare; atrevi-me com Dante, o Inferno. Rabisquei umas coisas, em um caderno de capa verde, hoje perdido: estava recheado com a letra já horrorosa contando uns casos policiais que nunca mostrei a ninguém – mas tinham personagens, tinham esquemas, tinha uma velha terrível inspirada diretamente na avó russa que, para horror familiar, morava conosco e cheirava a naftalina. Depois que ela morreu o seu quarto continuou impregnado – e tornou-se sombrio. Herdei dela uma Bíblia (era ortodoxa na Rússia pré-revolução; quando chegou ao Brasil, por falta de uma Igreja Ortodoxa, converteu-se para a Batista. Ainda mais garoto, fui, em um dos intermináveis domingos, na sua casa: ali estavam o pastor e umas quinze pessoas, cantando e orando alto. Soube depois: era o primeiro sinal de sua doença que a faria abandonar a horta que amava e se meter no quartinho de casa) datada de 1920, made in England, em russo, toda sublinhada a lápis preto e azul e vermelho, uma cor para cada assunto. Pelas marcas, seu livro favorito era o Apocalipse de João – algo que, misteriosamente, só veio a insinuar-se em mim anos mais tarde. Mas agora, parando um pouquinho a escrita para folhear o livro encadernado de preto e judiado de tanta manipulação, percebo que ali estava a raiz do que veio a aflorar já na fase adulta: o princípio, em um verbo ininteligível (ainda hoje: meus estudos de língua russa nunca passaram do segundo estágio), da busca do Verbo. Aprendeu a ler e escrever com a Bíblia, como acontece com tanta gente por aqui – Elizabeta, vó Eliza, nasceu camponesa e assim permaneceu por toda a vida. Morreu, tenho cá comigo, de saudade da época em que, logo de manhãzinha, pegava na enxada e revirava a terra. Morreu porque não criava mais.
Uma mulher pragmática, a velha Eliza: quando soube que eu gostava de ler perguntou para meu pai a razão pela qual ele não me comprava um livro de matemática – isso sim, coisa séria e útil. Seu sonho – quem poderá saber? – era um neto contador que soubesse fazer dinheiro. Creio que a decepcionei terrivelmente. E, ainda por cima, a matei em um conto.
Descobri outras coisas: que, com o dinheiro juntado do lanche poderia comprar não um, mas muitos livros. Pois que existiam outros templos espalhados pela cidade, templos que tinham em si mais do que os livros de capas brilhantes e ainda cheirando a tinta: tinham memórias, partes de vida de pessoas que nunca conheci mas que de certa forma faziam parte da minha vida. Os templos outros eram os sebos – ou, mais especificamente, O Sebo, só um, que passei a freqüentar não uma vez ao mês, como fazia com o Templo, mas semanalmente, carregando no bolso os trocados da semana. Sentado por detrás de uma escrivaninha velha, cercado de prateleiras de madeira e de livros cobertos de pó, ficava Walter de Souza Barbeiro. Barbeiro ainda vive, continua como professor de Direito Romano em uma dessas universidades, mas a livraria fechou – uma parte da minha vida que foi deixada para trás. A sua casa continua lá, em frente ao supermercado, os camelôs ainda à porta, uma casa de empadas de um lado, a loja de roupas do outro. Lembro dos gatos, toneladas de gatos espalhados pelas estantes, pela mesa, pelo quintal. Hoje há apenas um cão, estrangulado pela coleira.
Não sei também como começou: mas já não ia ao Sebo apenas para comprar o livro da semana. Ia para sentar horas e horas ao lado daquele homem, então com seus sessenta e tantos anos, e escutar suas histórias, suas memórias, seus poemas; ia para receber de suas mãos os conselhos do que eu deveria ler, do que poderia ser deixado de lado, do que poderia aguardar alguns anos para ser lido, do que deveria ser escorraçado de uma biblioteca. Delas, das mãos, recebi muitas coisas, algumas compradas outras presenteadas. Ali comprei todo o Shakespeare em edição da Lello & Irmão; comprei meu primeiro Kafka; encontrei os dois volumes de Poe traduzidos por Érico Veríssimo; consegui minha primeira República de Platão (à qual seguiram-se outros diálogos, mais Aristóteles, mais uma historinha da filosofia do Padovani e do Castagnola). Ali descobri a poesia – e que a poesia fala diretamente às sensações. Barbeiro dirigiu-me, leu meus primeiros cometimentos literários, corrigiu-me, foi paciente. Passei a ir duas ou três vezes por semana na sua livraria, não mais, ou apenas, pelos livros. O que aprendi naquela sala entulhada de livros velhos, alguns inúteis, e onde pouquíssima gente entrava para comprar, foi mais, muito mais, do que em todo o período escolar. Das mãos desse homem recebi, presente que está aqui ao meu lado neste exato momento, as Obras Completas de Platão, pela editora Aguillar de Madrid, quando tive, já professor, de substituir uma colega de filosofia (substituição que durou três anos...).
Mas creio que adianto as coisas nessa mini-biografia livresca, pois que não foi bem assim que aconteceu tudo. Antes, muito antes da entrega à alta literatura, teve a paixão pela novela policial. Como fiz com todos os autores, comecei a ler Agatha Christie pelo fim. Ou seja, pela obra publicada já em 1975, a morte de Poirot. Consegui o livro, em uma edição do Círculo do Livro (existe, ainda? Ou, como antas coisas da minha infância, também deixou de ser?), na casa de uma prima. Aquela coisa de visita de família, a fatídica estante na sala, os livros ao lado da TV, uma heresia. Devia ter, ali, também uma dessas Barsa da vida, que fazia parte inescrutável da vida familiar – o sinal de que ali habitavam pessoas letradas. Velhos tempos. Hoje, a internet acabou com as pesquisas escolares nas páginas de uma enciclopédia – o que, parece-me, colabora com o parco hábito de leitura que persiste em ser anunciado jornais afora (ou adentro?). Estava lá, também, O Pequeno Príncipe, que li só muito mais tarde – e odiei, claro: não há como não odiar Exupéry.
Cai o Pano foi o início do vício pela novela policial – e o responsável pelos meus primeiros rabiscos policialescos que resultaram, alguns anos depois (eu tinha 13 ou 14?), em dois cometimentos pseudo-literários (já aos 17 – ou 19?) de títulos “Óleo na Pista” e “Tamanho não é Documento”, terríveis e horrorosos. Matei muita gente nessa época – pelo menos disso posso me orgulhar.
Não tenho na memória o momento exato, mais foi mais ou menos assim: odiando o que a escola impunha como leitura obrigatória, preferia jogar bola na rua. Até que um dia meu pai – que não completou a quara série – chegou em casa com um livrinho metido no eterno envelope pardo: 20.000 Léguas Submarinas. Olhei desconfiado, achando que ali teria mais uma daquelas insuportáveis historinhas à la Menino do Dedo Verde ou uma Iracema entediante. Ele, o livro, devolveu o olhar – Decifra-me ou te devoro. Passaram os dias, o volume ali sobre a mesa (creio que uma estratégia do meu pai), sempre no caminho, sempre a mesma desconfiança. Um dia, abri – e não o larguei mais. Li e reli vezes seguidas, sete ou oito, até que perguntei para o senhor João Ulanin se de onde havia saído aquele não tinha mais. Tinha: uma minha inesgotável de aventuras, de ilhas do tesouro, de moicanos sempre últimos, de irmão gêmeos separados, de homens metidos em máscaras de ferro, de soldados do rei de chapéus emplumados e longos floretes, de corcundas que moravam em torres de igrejas. Foi meu tesouro da juventude, que inoculou o vírus fatal do amor aos livros. Não bastava porém.
Um dia (outro dia), remexendo nas sombras misteriosas do guarda-roupa (não sei com vocês, mas para mim, nos idos da infância, o guarda-roupa era um universo que trazia em si todos os mistérios do mundo, de onde saíam, aos poucos, as memórias que se materializavam no exato momento em que descobria uma foto amarelecida, um casaco cheirando a guardado) encontrei uma caixa, grande, de papelão, lacrada, escrito na lateral Livraria José Olympio Editora: lá de dentro saíram, um a um, pelas minhas mãos, dez grossos volumes encadernados em vermelho, ilustrados em preto e branco, que contavam histórias estranhas e confusas, um tanto incompreensíveis (tinha então 13 anos) de um certo Míchkin, de dois irmãos Karamazóvi, de um tal Raskolnikov que matou uma velha. A descoberta foi dupla: uma, que havia algo de interessante nas palavras e nas histórias, para além das aventuras; duas, que o livro era mais do que a história ali contada: era um objeto belo, com sua textura, com sua vida, que possibilitava um prazer – prazer que me acompanhou toda uma vida.
Depois dessa descoberta, não perdoei mais os armários. Revirei-os todos, encontrando, aqui e ali, novas caixas, novos mistérios, novos tesouros. Sentia-me, então, com tapa-olho e papagaio sobre o ombro. Bastava gritar “abre-te sésamo” e as pedras preciosas, os rubis, as taças de ouro, seriam minhas: Casanova e suas memórias (ler essas aventuras sexuais tão jovem me rendeu noites de insônia...), o Cavaleiro da Triste Figura em demanda dos seus sonhos – e seus delírios, o detetive de cabeça de ovo e de grandes e encerados bigodes descobrindo – sempre antes de mim! – os criminosos.
Passei a não tomar o lanche no recreio: juntava os tostões duas, três semanas e, quando achava que havia acumulado o suficiente, descia a longa ladeira ao lado da escola, entrava à direita depois à esquerda e chegava no Templo que descobrira: A Livraria (para mim aquela era a única livraria do mundo, onde todos os livros estavam pacientemente à espera). No Templo comprei meu primeiro livro (meu pai disse: “Você não precisa fazer isso... eu consigo com desconto”. Mas ele não percebia que o prazer não era apenas o de receber por suas mãos os livros que eu queria, mas outro, ainda maior: escolher, ver, tocar, folhear os volumes até que escolhesse por mim mesmo aquele – o eleito), A Maçã no Escuro, de Clarice Lispector. Ousado, o fedelho.
A atitude tomada pelo governo do PT em caçar o visto do jornalista do New York Times pelo fato de ele revelar que o Lula é chegado nuns traguinhos lembrou-me uma frase, dita por um vetusto senhor de farda verde-oliva e estrlinhas, quatro ou cinco, não me lembro mais, nos ombros, encimado pelo eterno óculos escuro: “Eu prendo e arrebento!”. Este o espírito democrático no qual vivemos...
O curioso é que ela, a Esquerda, assim mesmo com E maiúsculo para diferenciá-la das suas ações tristemente cotidianas, sempre foi a primeira a erguer a voz e berrar contra o que chamam de censura, a favor de uma tal liberdade de expressão, em defesa de projetos ditos sociais e coisas e loisas nas quais todo mundo sempre acreditou porquê é bonito & simpático & lógico. Mas a verdade é esta: a liberdade de expressão existe para a esquerda, e só; para qualquer outro que tente discordar de suas emanações intestinas, o que há é a atitude troglodita da censura, da chibata, da gratuidade, das amarras.
Ajoelhem-se – e pasmem! Pois presenciamos uma ressurreição! Pois ele, redivivo, caminha entre nós! Curvem-se humildes para obter a salvação: Santo Stálin está entre nós...
INCOMPTÊNCIA
1) “Senhor presidente, como o senhor explica que, ao invés de comprar ambulâncias novas para os hospitais, o seu governo apenas pintou as antigas e colocou uns adesivos novos ao custo de mais de mil reais cada um?”
“Foi um erro, foi um erro...”
2) “Senhor presidente, porque o senhor aprovou a idéia do censo dos idosos e os fez ficar, aos velhinhos de mais de 80 anos, em uma interminável fila sob o sol?”
“Ah, mas foi só um erro...”
3) “Senhor presidente, o senhor pode explicar a razão pela qual o Zé Dirceu continua no governo se está mais do que claro que ele estava envolvido com o caso Valdomiro?”
“Olha, companhêro, foi um erro...”
4) “Presidente Lula, explique para nós porque a campanha publicitária do seu governo apresenta dados incorretos tanto no que se refere ao ano e pouco do seu mandato quanto aos oito anos do governo FHC.”
“Um errinho, pequenininho desses, sabe...”
5) “Senhor presidente, como o senhor prometeu tantas vagas no programa Primeiro Emprego e agora anuncia que irá cortá-lo em 80%?”
“Meu amigo, foi um pequeno erro de cálculo, sabe.”
6) "Presidente Luís Inácio, o mote da sua campanha foi o Programa Fome Zero. Por que ele ainda não deslanchou?”
“É que tem um erro ali, vê?”
7) “Qual a razão, presidente, pela qual o salário mínimo aumentou tão pouco, se o senhor prometeu que ele seria muito maior?”
“Erros acontecem...”
8) “Senhor presidente, porque o senhor vetou a Medida Provisória que destinaria verbas para a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais?”
“Cometi um ligeiro erro nesse caso.”
9) “Presidente Lula, por que o seu governo demorou tanto para decidir pagar as restituições do Imposto de Renda referentes a 2003?”
“É que aconteceu um erro...”
10) “Povo brasileiro, porque você votou nesse sujeito?”
“Foi um erro, foi um erro lamentável...”