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Blogs, Banners e Outros


Politiquices Paulistanas


Nos out-doors de São Paulo: Marta faz bem feito.

O lugar está errado. O slogan da campanha política da prefeita histérica deveria ocupar aquelas páginas dos jornais: “Bianca completa”, “Dupla fogosa”, “Loirinha do sul, faço tudo” e, no lugar do número do partido, o telefone.

__________

Nunca gostei do Maluf. Ele é, sim e sem sombra de dúvidas, um ladrão, nada honrado. Mas fez escola: até a Marta Suplicy, sua opositora na última eleição paulistana, aprendeu com ele. Com uma diferença: a sua, dela, incompetência é assombrosamente maior. O rombo deixado nas contas, idem. Os trambiques para conseguir a reeleição, ibidem. Não há limites para cinismo no pt.

__________

Aliás, quando disseram que Maluf estava com câncer na próstata, pensei: finalmente. Mas foi Mário Covas quem morreu – do mesmíssimo mal. O que me leva à certeza de que nem o câncer suporta Paulo Maluf.

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São Paulo, dizem, é a maior cidade da América Latrina, é a locomotiva do Brasil, é quem sustenta o resto. Mentira, ou quase. Pode ser tudo isso, mas ainda é provinciana. Mais provinciana que São Paulo, só Brasília.

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Marta fez que fez para que Nienmayer fizesse o teatro popular no Parque do Ibirapuera. Anulou, ou manipulou, ou simplesmente desconsiderou o concurso, público, e vetou o projeto do vencedor, que foi de outro arquiteto, não lembro o nome, para ceder lugar ao seu cupincha comuna. Terá, o teatro, a forma de um martelo. Até quando o ranço stalinista viverá por aqui? Dessa vez, pelo menos, ele não derrubou as árvores em volta.

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O humor constante da prefeita é revelador. O mau-humor constante, digo. Qualquer crítica surgida na mídia, há ameaças de processo, há interferência do poder público nos jornais, rádios e tvs. Imagino a prefeita assim: arrastando-se pelas ruas metida em um roupão daquele tecido usado para toalhas, chinelões, bobes envoltos por um lenço, olheiras fundas, carrancuda. Quatro anos de TPM, das brabas.  



Escrito por Fabio às 02h22 PM.

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Terminei!


Apesar da ausência nesta página, consegui algumas coisas: terminei, finalmente, o romancezito que iniciei há meses e meses. Epi Logos, o título provisório, um trocadilho infame, eu sei, mas funciona para a história de um velho professor morto. Parece-me divertido, mas eu sou suspeito. Minha Primeira-Leitora, um cargo que existe há muitos anos, também gostou. E ela não é suspeita, pelo contrário: das pessoas mais críticas que conheço, não hesita no seu juízo de valor. Um trechinho de uma cena que se passa na

 

Igreja Universal do Reino dos Ateus

 

“Vamos acompanhar então mais de perto aquela mocinha ali, uniformizada, boca escancarada enquanto grita junto com o pastor: o que ela queria mesmo era uma belíssima trepada, desculpem a palavra, daquela clássica que a faria perder os sentidos e o controle do corpo, mas no caso não há outra: o seu desejo, intenso, escondido, reprimido a pauladas e ameaças com as penas infernais, era conseguir entregar-se a um homem que a satisfizesse e conseguisse, assim, ter um orgasmo de verdade e não esse simulacro de gozo, pois que, notem bem a expressão, os movimentos do corpo, a forma como ela se agarra na mulher que acabou de incorporar uma pomba gira ou coisa que o valha: vejam como ela luta, corpo a corpo, como as suas mãos seguram o corpo, como ela está engalfinhada, rolando no chão, tentando dominar a sua vítima, como ela tenta manter as roupas da mulher no lugar, como, sem querer, ela revela parte da coxa quando a saia levanta, como seus cabelos se desalinham, como os músculos estão tensos, como ela tirou os sapatos antes de entrar em ação, como ela grita, grita, grita, grita sem parar, tentando dar ordens e manter o controle, mas que, inconscientemente, deixa revelar uma perna, um pedaço da barriga, os cabelos soltam-se, como seus olhos giram nas órbitas, como as pálpebras se fecham – e como ela sua. O suor do seu corpo é revelador, o calor do templo é proposital, desligam os ventiladores para que as pessoas suem em bicas, um fluído corporal que substitui o sêmem, que torna os corpos mais corpos, mais humanos, mais próximos, e os engravatadinhos e as moçoilas de lençinho no pescoço – ah! gostam, gostam mesmo de tocar os corpos suados, só travestem este prazer com a desculpa de os estarem “libertando” quando, na verdade, libertam a própria libido. Notem como o som aumentou insanamente de volume, como a música tem um quê trágico, como o ritmo é envolvente em seus tons graves, sempre iguais, sempre iguais, sempre iguais, como a modulação altera-se muito pouco, aumenta e abaixa, e de tão alto nossos corpos tremem, tudo treme à volta, abafando os gemidos, os gritos, as palavras, como o pastor grita mais e mais, como perde o controle, como olha do alto do seu altar, a luta dos corpos enroscados ali na frente, como força, com ordens dignas de comandante de campo de concentração, que as pessoas fiquem e permaneçam de joelhos com as mãos para trás, uma postura humilhante, e olhem – olhem! – como ele sente satisfação, como sorri, como se agarra no microfone exageradamente grande, como seus olhos brilham, vejam! nesse exato momento tem uma ereção, estamos na presença de um voyeur, de um sádico, um caso clássico, estamos presenciando uma orgia digna da decadência do império, faltando apenas as línguas de rouxinóis e outros acepipes dignos da ocasião, todo o resto nós temos, o Inferno não deve ser muito diferente disso.”

 

Procura-se editor.



Escrito por Fabio às 02h51 PM.

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Estio


Humor abaixo da linha do tolerável. Nós, que precisamos escrever e ler e pensar, deveríamos estar afastados das mazelas cotidianas que nos impedem – de escrever, ler, pensar, não necessariamente nesta ordem, para que pudéssemos fruir, simplesmente fruir, todas as coisas Belas e Boas e Verdadeiras.

 

A idéia não é minha, claro. É do Sêneca que, que nas cartas a Lucílio, tenta convencer o amigo a abandonar o Senado da República para se dedicar à única coisa que vale a pena: o pensamento. Sêneca, o velho e bom Lúcio Aneu, também havia sido, por anos, senador do império – e sentia-se enfastiado com os dilemas políticos, a vida pragmática, os problemas cotidianos.

 

Imagino que ele chagava, depois das intermináveis discussões com um desses césares quaisquer que abundavam por lá, em seu domus, e se deparava com a taxa do lixo, por exemplo, ou com um novo imposto para conservar os aquedutos, ou sua escrava núbia ainda não havia terminado de preparar os pratos frugais do jantar, as línguas de colibris e os javalis embebidos no mel, e que seu escravo bretão havia comprado as ânforas de vinho erradas. “Não se pode confiar nos bretões”, pensava e, irritado, ia ele mesmo ao mercado, onde descobria que tudo, tudo, tudo havia aumentado consideravelmente de preço, apesar das notícias de que a inflação estava controlada. No caminho, cruzava com inúmeros romaninhos de toga rasgada, “precisa de um escravo, moço?”, “então me paga um pane et circenses”, e se via obrigado a dar uma volta imensa porque Roma estava inteirinha em reforma, buracos por todos os lados, faziam um túnel na Novem Julius, “se todos os caminhos levam a Roma por que não consigo chegar em casa?”. Tinha ganas de promover um golpe de estado, daqueles bons, com direito a sangue e tudo.

 

Como poderia escrever, responder as cartas, entregar-se às letras? Rabiscava uma linha no pergaminho, raspava, incontáveis horas perdidas.

Escrito por Fabio às 03h23 PM.

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Entre os Mundos


O que vemos na fotografia é o objeto em si ou a seleção que o fotógrafo faz? É a obra mesma ou uma outra obra, uma leitura que muda a realidade que registra, dando-nos a nós, leitores, uma visão particular e cuidadosamente selecionada? Não há dúvidas: o recorte se faz maior que a obra, a seleção demonstra a sensibilidade e a argúcia de quem olha...

 

Nada melhor do que permanecer momentos sem fim descobrindo os detalhes que esta moça – agora fotógrafa, além das outras qualidades artísticas – nos revela com suas imagens que nos elevam a este mundo permanente no limiar entre a Vida e a Morte... Seus anjos falam conosco. A impressão que se tem é a de que eles estavam ali, guardando seus amados, seus protegidos, mas mudos, terrivelmente mudos e solitários. E agora – agora conversam conosco na simplicidade de uma língua desconhecida, traduzida pelas imagens. Algo como um sorriso de boas-vindas a este mundo de mortos. Escutamos até mesmo o farfalhar de suas asas, lentas, eloqüentes, ecoando na eterna paciência. Sentimo-nos observados – e ora nos alegramos ao ver uma face conhecida (de onde?), ora nos angustiamos com a dor ressaltada (nossa?), ou nos entregamos, também silenciosos em nossa língua, ao respeito daqueles que ali dormem (dormimos nós?).

 

Qual o liame sutil que nos separa e nos atrai? Pois que o que aqui vemos é vida – uma outra espécie de vida, mas verdadeira como essa nossa, de agora. E o que dá a vida não é mais o sopro divino, mas a luz que reflete e irradia: as esculturas adquirem vida quando a fotógrafa diz, de outra forma, seu Fiat lux... As fotografias, nesta página, nos entregam ao mistério da existência.

Escrito por Fabio às 03h17 PM.

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Escrivinhadores


Vez por outra lemos, nos blogs por aí, a notícia grata de novos escrivinhadores ou do retorno dos antigos. É bom: como nossas letras andam carentes de bons artífices das letras, este mundo cibernético tem possibilitado que textos saíam das gavetas, que poemas sejam desenterrados, que aquela velha idéia de um livro finalmente tome força e vingue, que os antigos rascunhos sejam reelaborados – e tudo, tudo isto ofertado a nós, leitores sedentos, para nosso deleite. Ou nosso horror.

 

Entro na onda das notícias: está no ar o Esgrimistas (banner aí ao lado), que surgiu muito ao acaso, como uma brincadeira poética entre dois velhos amigos (bem, um já meio velhote; o outro ainda experimenta a terna juventude...). Como a coisa fugiu ao controle (ou ao controlo, como dizem lá na terra amada), resolvemos abrir um blog só para nossos cometimentos poéticos. Existe graças à Ana, a decifradora de linguagens desconhecidas, com a colaboração do amigo Zadig, que sugeriu o Cyrano. Passem por lá, leiam, comentem... ou xinguem. Responderemos sempre à altura!

 

Outra notícia, ou outras, pois são várias, refere-se a uma pequena experiência que fiz com minhas cobaias – digo: meus alunos (perdão). O universo da net poderia ser mais sedutor que o velho papel-e-caneta, então propus a criação de blogs, atualizados semanalmente, para que eles escrevessem o que bem entendessem (excetuadas as confissões de caráter pessoal, pois não queria saber dos namoros de ninguém – nem sempre o limite foi respeitado, mas enfim). O resultado? Algumas páginas de grande interesse e qualidade:

 

O Mundo Camillão aproxima-se do diário – mas, alerto desde já, não esperem um jargão internético fútil. Pelo contrário: sua autora, que tinha horror verdadeiro à técnica, criou um blog jeitoso e com textos deliciosos. Uma espécie de crônica de sua vida. Vale.

 

Há outro, Diário de Lampião, que já cativa pelo título. Não, não trata das mazelas do cangaço, fiquem tranqüilos. Mas busca reflexões, estéticas, política. Crítico por vezes, por vezes ácido – mas sempre primando pela busca da qualidade do texto.

 

Um coletivo é o Perdidos na Faculdade, título um tiquinho óbvio. Mas seus integrantes destilam sua ira e apaziguam seus fígados com críticas mordazes... Sim, uma espécie de festa – mas contradiz aqueles que dizem não haver mais vida inteligente no ensino superior. São raros, mas estão aqui para provar.

 

Diários imaginários também existem – e o Roberval Gancho de Lata prova que eles são mais divertidos do que os diários verdadeiros. Um pirata e seu papagaio nas águas poluidíssimas do córrego do Aricanduva percorrem as memórias da cidade e de seu passado.

 

Alguns, apenas alguns – mas se isto despertar ainda mais o interesse pela escrita e pela leitura, podemos nos sentir, se não salvos, pelo menos próximos dos primeiros círculos celestiais...



Escrito por Fabio às 06h42 PM.

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O Olhar da Osga


Não, não é um conto, isso aqui. Tampouco um daqueles textos pseudo-filosóficos franceses, pretensiosamente herméticos que levam o mais sagaz leitor ao delírio; não tem, igualmente, a pretensão de ser algo mais do que é, apesar desse enigmático “osga” aí em cima no título. Nada disso: trata-se apenas de uma opinião, daquelas que cultivo de quando em vez, quando leio este ou aquele livro – deliciando-me ou sofrendo de depressão pós-decepção. No caso, o resultado foi a segunda alternativa.

 

A osga é uma lagartixa, daquelas listradas, tigradas. Não uma qualquer: é nada mais do que a narradora do romance O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa que, parece, tem insistido em inscrever-se numa onda psudo que abunda (há bunda) por este mundinho tão chinfrim da literatura depois daquele triste, lamentável melhor dizer, O Ano em que Zumbi Tomou o Rio. Nada contra osgas-narradoras, mesmo que, como é o caso desta, seja reencarnação de um homem e passe a vida andando pelas paredes da casa de um negro albino que vive de inventar passados para os necessitados de certa posição social. Nada contra, também, às inserções políticas que remetem a uma Angola pós-independência nas mãos dos assassinos stalinistas. Também nada contra os laivos supostamente poéticos da moça que fotografa nuvens e luzes e seu romance anunciado com o tal albino. Idem a respeito da verossimilhança, já que em Literatura pode-se mandá-la às favas. Apenas que o livro é chato, repetitivo, redundante, óbvio.

 

Admirei Agualusa, anos a fio. Gostei, muito, do Nação Crioula, reencontrando um velho amigo, dândi, boa-vida, que viandava o mundo e escrevia para sua titi e para os amigos em meados do século XIX. Reencontrar Fradique Mendes travando diálogos com seu Eça, vê-lo apaixonar-se por uma luandesa de rijas carnes, envolvendo-se nas aventuras anti-escravocratas de sua época foi como partilhar horas de boa conversa com um conhecido que há muito não se vê entre cálices de brandy e baforadas de puros. Saltar dali para Goa, acompanhando os passos de um certo Plácido Domingo (outro, que não o tenor), foi como desvendar o mistério de uma existência, percorrendo o caminho já trilhado pelos portugueses no século XVI – e que ainda está aí, persistente e imenso por todo o mundo: um livro, perdoem-me o trocadilho, estranho, esse Um Estranho em Goa, mas bom, muito bom. Até mesmo o estertor da guerra de libertação de Angola, que acabou por se revelar uma prisão pior do que a primeira, como sói ocorrer com as revoluções, d’A Estação das Chuvas, trouxe aquilo que o escritor deve saber fazer melhor: vivência, fantasia, existências que nós, leitores, não temos. O que acontece com Agualusa, o velho e bom Agualusa?

 

Buscou a graça fácil, o estranho óbvio, os enlace e desenlace comuns. Criou um – um não! dois! – livros rasos em menos de três anos. Algo parecido com o que acontecera com Saramago até este seu último ensaio, o Sobre a Lucidez. Lamentável, mas é fato: osgas podem ser narradoras de um livro, mas o autor não precisa escrever como uma.



Escrito por Fabio às 04h26 PM.

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Esta disputa tem lugar lá no Della Santina, a partir de 05 de julho. Acompanhem!


DOR DE CORNO (por Rodrigo Della Santina e Fabio Ulanin)
A Ana Magalhães, em homenagem ao seu texto de 25 de junho.

Ah puta-que-pariu como ela escreve!
E ainda diz que não sabe escrever!
E esse texto, mesmo que seja breve,
Cada vez que eu leio me faz sofrer!

Continuar assim não sei se deve.
Que pode nas suas linhas ocorrer
Se a mente do leitor ela já ferve?
Ah, puta-que-pariu, vai escrever!

Mas é com essa frase que ela fita
A mim, que escrevo, e ao Fábio, que sentado
Em vozes mediúnicas me dita:

"Meu caro amigo, este será louvado,
Pois se mostra na face que se irrita,
Neste soneto mais será bicado."

DOR DE CORNO II, a missão (Fabio Ulanin)

À Ana e ao Rodrigo, pelo 25 de junho e pelo soneto acima.

A dor de corno nunca se amansa
quando vemos um tão grande talento.
Tu e ela fazem meu tormento
e nas palavras meu olhar descansa...

Não o consigo - então encho minha pança
para aumentar meu triste lamento
de empacar, tal qual um pobre jumento
que seu objetivo não alcança...

Mas tristeza maior não se acredita
ao escutar, vinda do etéreo céu,
as tuas vozes - o que me debilita:

"Fabio, aprendas com o mundaréu
de nossas palavras o que te irrita:
o teu soneto foi p'ro beleléu!"

 

SUSHIS (Fabio Ulanin)

Ao Rodrigo, que quer evitar pagar os sushis prometidos.

Não pagas os sushis com os teus versos
e nem sequer com o teu frouxo riso.
Pagá-los-á com os mais adversos
meios de consumires o teu siso!

Sim! nossa pretensão é o perverso
arruinar de teu saldo, lá no piso,
e ver-te tão somente submerso
de horror ante nosso grande riso!

Não te sintas então não-devedor,
pois se alimenta de ti a ira nossa
- e nem te creias só um perdedor.

Pague-nos sushis enquanto possas
e devorá-los-emos com fervor:
antes as tuas contas que as nossas!

 

 

SUSHIS II (Rodrigo Della Santina)

Ao Fabio e à Ana, chamando-os à razão.


Sushi é coisa pouca que não vale
O quanto pra mim vale uma amizade:
E pra que ela tenha eternidade,
Será esses sushis o que vos cale.

Mas antes que nos versos vos dispare
Aquilo que trará felicidade
Ás vossas pobres almas - claridade! -,
Direi (mortificado) vosso entrave:

Não vereis vossas bocas entreabertas
Senão para os meus versos, vos doado,
Pois o futuro meu é ser seleto.

E caso - retornando - achardes fato
Que co' o talento meu fareis mui festas,
Olhai: com ele é que sois completo.

 

A BUSCA DO EGO (Fabio Ulanin)

Ao Rodrigo, trazendo-o de volta ao senso.

Andava cabisbaixo pela rua,
um dia, o Rodrigo, alegre outrora.
Sentia a sua mente nua, nua,
temendo que seu ego fosse embora!

Pensava: "Não há daqui até a Lua
ninguém que o meu verso imprecora...
Ah! Guarulhos! a incompetência tua
a Poesia e a Arte embolora..."

Restava-lhe apenas da cidade
partir em breve à casa de Ana
e do Fabio - pois, apesar da idade

mantém sempre a conversa louçana.
Venhas, amigo - mas por caridade
não esqueças de trazer a Fabiana!
 



Escrito por Fabio às 03h26 PM.

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Uma Página de Eça


Nestes tempos em que estou na mais absoluta inépcia para a escrita, mais envolvido com as leituras e releituras daquelas obras que me mercaram, marcam, e com a preguiça muitos decibéis (pois é uma preguiça gritante, a minha) acima do limite do tolerável, nada melhor do que colar aqui uma página que combine com o calor e com as saudades que sinto da terra que amo.

 

Um ano faz, desde que estive lá no Alto Douro, mergulhado na luz dourada, fazendo o mesmo caminho de Jacinto. Um ano, desde que descobri a Quinta onde Eça viveu seus últimos dias, onde escreveu suas últimas obras, sempre em pé frente à uma mesa de trabalho muito alta e jogando os papéis preenchidos com sua letra à volta para depois reorganizá-los. Um ano, um ano: não é nada – mas é um abismo intransponível.

 

***

 

Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o divino Artista que fez as serras, e que tanto a cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado! A grandeza igualava a graça. Para os vales, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, dum verde tão moço, que eram como um musgo macio onde apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, largas ramarias estendiam seu toldo amável, a que o esvoaçar leve dos pássaros sacudia a fragrância. Através dos muros seculares, que sustêm as terras liados pelas heras, rompiam grossas raízes coleantes a que mais hera se enroscava. Em todo o torrão, de cada fenda, britavam flores silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a sólida nudez do seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de líquen e de silvados floridos, avançavam como proas de galeras enfeitadas; e, de entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para lá galgara, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sobre as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semeara nas telhas. Por toda a parte a água sussurrante, a água fecundante... Espertos regatinhos fugiam, rindo com os seixos, de entre as patas da égua e do burro; grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de pedra em pedra; fios diretos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das alturas dos barrancos; e muita fonte, posta à beira de veredas, jorrava por uma bica, benèficamente, à espera dos homens e dos gados... Todo um cabeço por vezes era uma seara, onde um vasto carvalho ancestral, solitário dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam laranjas rescendentes. Caminhos de lajes soltas circundavam fartos prados com carneiros e vacas retouçando: - ou mais estreitos, entalados em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, numa penumbra de repouso e frescura. Trepávamos então alguma ruazinha de aldeia, dez ou doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaçava, fugindo do lar pela telha vã, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos, por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas. O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegrias e força. Um esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas... Jacinto adiante, na sua égua ruça, murmurava: — Que beleza!

 

(Eça de Queiroz. A Cidade e as Serras. Porto: Lello & Irmão)



Escrito por Fabio às 03h15 PM.

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