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Caminhos I


Admirável som da plaga vasta

que soa e reverbera pela terra,

chamando, movendo aquele que erra

em direção à voz que tudo arrasta.

 

Oh! Breve cansaço, pleno segredo

que esvai dos corações como fogo!

Não permitas que me torne o engodo

para sempre lançado no degredo...

 

Ferem os sonhos, em árdua procura

de sentido, que não há nesta vida;

apenas o sofrer e a loucura

 

neste caminho, somente de ida:

em mim soa o som da tua cura

eterna, como palavra sentida.

Escrito por Fabio às 05h33 PM.

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Caminhos II


Não contenho o vazio que se alastra

nesta vida, em tudo duvidosa;

busco uma fé que seja ardorosa

mas em mim esta palavra não basta.

 

Procuro, com aflição, o acalanto

da palavra que inebria, escrita,

que sempre resta em si circunscrita:

seu vagar profano é o maior espanto...

 

A palavra que quero não a adivinho:

constrói-se, pouco a pouco, o seu sentido

sem saber que com o meu não o alinho.

 

Resta-me somente, intenso, o partido

de quem busca o verdadeiro caminho.

Mas de seu furor me encontro despido.

Escrito por Fabio às 05h32 PM.

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Caminhos III


Procuro o caminho a ti, com a ânsia

de quem nega o sentido absoluto

da luta para vencer a distância

— e permaneço no solo bruto.

 

Estática mantenho a espera

e a vontade de não se mostrar tarde

esta busca, constante e austera,

da revolta contra o mundo que arde.

 

O desejo, duro e vasto, move, fero,

o coração em sentido oposto:

talvez aquilo que não sei se quero

além de mim se encontre nu, exposto...

 

Manter esta espera é vão esboço

e o trajeto a ti, lento e triste esforço.



Escrito por Fabio às 05h31 PM.

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Circus Maximus


Não consegui me aproximar do computador nem para ler os mails desde terça-feira, fruto de uma natural tensão: a expectativa para a sexta, quando teria de enfrentar o Circus Maximus e seus leões.

 

Por tudo o que sempre me disseram, uma defesa de mestrado cerca-se de ironia, críticas brutais, cinismo, tudo para desestruturar o pobre que está ali à frente, sentado com o fruto de dois anos de trabalho sobre a mesa, e para ver se ele, afinal, consegue sair das armadilhas que lhe são lançadas. Temia e tremia, verdade, consciente da minha natureza nervosa e da timidez que me acompanha desde o tempo de eu menino. Quando estou excessivamente tenso, acontecem duas coisas: tremor violento no corpo, incontrolável, seguido da mais absoluta mudez.

 

Não foi bem assim e, quando as portas do Circus abriram-se às 15:00 para o público ávido do sangue do cristãozinho e os leões entraram, sorridentes, senti-me tranqüilo: se é inevitável...

 

Movi-me corretamente, desviando das armadilhas, enfrentando um ou outro ataque com consciência; dava um pulo à frente, repentino, surpreendendo o primeiro leão, que não esperava uma série de outras relações que surgiam ali, de uma idéia que serviria, antes de qualquer outra coisa, para me acuar; depois, retraía-me até chegar a um canto da arena e observava o bicho dando uma longa volta, lenta, farejando-me à distância, até que se aproximasse de novo e, no momento do bote, resvalasse, se muito, no tecido da toga. O público, olhos arregalados, suava, tenso.

 

Depois de três horas de espetáculo, consegui não ser devorado. Os leões aproximaram-se, deitaram-se próximos, aceitaram um afago, dóceis, domesticados.

 

Minha tese, O Maravilhoso na Demanda do Santo Graal: uma perspectiva cristã, recebeu, unânime, dez com louvor e recomendação de publicação. A galera vibra. Obrigado, obrigado, obrigado.

__________

Um adendo tardio - mas importante: a tese será publicada, aos poucos e de modo selecionado, no blog A Demanda do Santo Graal. Todos os leitores serão bem-vindos.



Escrito por Fabio às 03h30 PM.

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Bíblia e História


Toda vez que escuto a expressão “Jesus histórico” ou “Madalena histórica” ou “uma explicação científica da Bíblia”, tenho ganas de sair correndo arrancando os cabelos ou, pelo menos, quebrar os óculos daqueles velhinhos, sempre tão simpáticos, que aparecem no canal Discovery. O mesmo quando, com o escândalo típico dos intelectuais que não têm nada a fazer, afirmam ter descoberto a “verdadeira face de Jesus Cristo”, e que Ele é um sujeito bem diferente daquele que a arte ocidental registrou por dois milênios: olhos escuros no lugar dos azuis; cabelo acarapinhado, longo e negro, ao invés do também longo e aloirado; nariz semita, exageradamente grande, no lugar daquele afilado, de moldes gregos; um tanto baixinho e troncudo, chocando-se com a imagem do imaginário de um homem alto e esguio – feioso mesmo, quase uma caricatura. Tenho essas ganas de esganar alguém por um simples motivo: não há um Jesus histórico.

 

Calma, calma (peço a todos). Não digo que Cristo não existiu, o que seria uma tolice. Digo apenas que tentar encontrar provas materiais de Sua existência é perda de tempo: não são provas que fazem o cristianismo, não são indícios de veracidade histórica que lhe dão sentido, não são elementos laboratoriais que podem explicá-lo. Ler a Bíblia como um relato histórico é ser ingênuo e conseguir apenas uma coisa: não chegar a lugar algum, fazendo voltas e mais voltas em torno do incerto. Ler, por outro lado, os Testamentos como devem ser lidos, ou seja, como uma série de textos de autoria duvidosa, montados e sobrepostos uns aos outros por milênios, centrando a atenção não na sua veracidade objetiva, mas na verdade-em-si de sua mensagem, independentemente de provas, nos leva (e eleva) a um nível diferente de compreensão – e, quando digo diferente, digo mais complexo e Verdadeiro.

 

A Bíblia, assim como os Evangelhos, independem da História. Não são relatos confiáveis para se aprender a origem do povo judeu, assim como não o são para explicar a origem do mundo e o fim dos tempos. Sua estrutura, como notou Northrop Frye em um belíssimo e recentíssimo livro publicado nestas bandas brasileiras (O Código dos Códigos, a Bíblia e a Literatura, pela Boitempo), aproxima-se tanto do histórico quanto do literário sem, contudo, chegar a ser um e outro. Diz o teórico que, sim, há elementos históricos ali, como há os literários – mas ler o texto de uma ou outra forma é o mesmo que não compreendê-la como um todo. Aliás, isso é explicitado já no século IV d.C. por Santo Agostinho: a Bíblia pode ser lida em quatro níveis diversos e complementares: o histórico, o literário, o simbólico e o teológico. Quem permanece nos dois primeiros níveis tem apenas uma visão parcial e imperfeita do seu significado; quem chega ao terceiro nível vislumbra, se muito, a sua mensagem profunda. O quarto nível, o teológico, é o que fornece melhor compreensão, mas é tão intrincado e tão complexo que se chegar a ele é reservado a uns poucos homens. Poderíamos dizer que este quarto nível é o do Mistério, logo central no Novo Testamento.

 

Buscar indícios sobre a verdade bíblica fora do seu texto resulta, quando muito, em uma série de referências a respeito de mitos similares: o dilúvio bíblico relacionar-se-ia, de alguma forma, ao dilúvio da epopéia de Gigalmesh e a outros mitos similares em todas as culturas; a luta dos hebreus contra os gigantes para a conquista da terra prometida encontraria eco em qualquer narrativa onde um povo pequeno e frágil tivesse de confrontar-se com uma nação mais forte e armada para conquistar o seu lugar devido; a expectativa da vinda do Salvador existiria em todas as nações, como de fato existe. O que faz a Bíblia verdadeira não é sua relação com o exterior, mas com as suas referências internas: o dilúvio é verdadeiro porquê ele é necessário para a compreensão do mundo e da realidade; a luta contra os gigantes é um fato porque, se não ocorresse, o destino do povo não teria se cumprido; o Salvador veio e fez o que fez porque nós vivemos sob a sua égide.

 

Mesmo que os cientistas encontrem as tais “provas” da existência ou não da pessoa de Cristo, nada muda em relação à Sua mensagem. Estes tempos orgulhosos em que vivemos, tão elevados no seu racionalismo objetivo, ofereceram apenas uma coisa aos homens: a cegueira completa, a falta de sensibilidade, a compreensão obtusa, portanto a incapacidade de se perceber uma única palavra que resume a essência da Bíblia: Mistério. Afinal, há uma única chave para tudo isto: “Eu Sou o Que Sou”. Tudo o mais é excessivo.



Escrito por Fabio às 08h48 PM.

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Espírito Olímpico


O nacionalismo sempre serviu de excelente desculpa para os tiranos de plantão, para seus fins mais sórdidos, para a matança dos inocentes. Um nacionalista é, geralmente e sem a menor dúvida, carente da mais simples capacidade crítica: independe da razão e é questão de fé, com minúscula mesmo, a sua indescritível capacidade de sofrer em favor de um “projeto nacional”, aquela imagem manjada de que nós somos, ainda, o país do futuro, ame-o ou deixe-o, sou brasileiro não desisto nunca. Todo nacionalismo é tolo – e esse amor à pátria, se não serve para outra coisa, serve, pelo menos, para que o governo se projete e crie a imagem positiva que pretende na mente dos incautos, uma espécie de holograma que encobre a realidade. A turba, enquanto isso, urra e torce e sofre e sua e agita as bandeiras, grudada na tv para acompanhar aqueles atletas lá em Atenas.

 

Não percebem algumas coisas: que essa tal de “maior delegação brasileira numa olimpíada”, cantada aos quatro ventos pelas maquinações maquiavélicas do senhor Duda Mendonça, o Goebles do Lula, não existe por causa de um ano e meio de desgoverno, incapaz de cuidar do próprio rabo quanto mais do preparo de atletas. É simples questão matemática: um atleta, qualquer que seja, começa sua carreira muito jovem – e qualquer incentivo que o governo pudesse dar em tão pouco tempo seria, como é, insuficiente para prepará-lo adequadamente. O que dá para se fazer em um ano e meio é preparar direitinho a chantagem nacional que se anuncia, utilizando-se da mais sórdida das campanhas: o povo gosta de esportes e, sempre que escuta uma bola batendo no chão, sente uma espécie de frisson uterino – por algum motivo, físico ou metafísico, o esporte traz à tona os sentimentos mais reprimidos em defesa de causas perdidas. Duda, e Lula, e os marechais de campo que chegaram à presidência da república sabem disso, como, aliás, todos os governos do mundo: o esporte é uma das mais eficazes armas para colocar antolhos nos desavisados.

 

Essa a razão pela qual não torço pelo Brasil nas Olimpíadas. Não quero ver aqueles jovens sendo usados para os objetivos autoritários do PT, cada dia mais óbvios. Não precisamos de heróis nacionais (triste o povo etc., não lembro de quem é a frase). Melhor ver aqueles jovens terrivelmente humilhados em uma competição do que fazer parte de um país humilhado por anos.

Escrito por Fabio às 03h12 PM.

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Subnutrição


Universidade é para formar elites, e não para dar diploma para pé-rapado. A afirmação é do Paulo Francis, em um momento em que a febre das universidades não havia, ainda, atingido este ponto crítico no qual vivemos hoje, colocando em risco a saúde (mental) dos pacientes; lá pelos idos de 80, bem no finalzinho da década mais chata da história (a década de 90 foi a mais imbecil; a de 70 a mais besta; a de 60 a mais bobinha), já se começava este incentivo à plebe rude e ignara para “ter diploma”, como se ser possuir de um papelucho pendurado na parede da sala signifique, mesmo, grande coisa.

 

Aliás, o diploma – ou O Diploma, como é dito em altos brados por aí – substituiu, nas salas das casas, aqueles reproduções de quadros famosos que vinham junto com as revistas Caras. Ambos têm o mesmo valor: de mau gosto e decorativos, já que, nem em um caso nem em outro, a feliz família sabe exatamente para quê, afinal, serve aquilo. No mais das vezes, nem o diplomado, que passou quatro anos enfurnado numa sala de aula com a ligeira impressão que aquele sujeito ali na frente, metido numa roupa um tiquinho desleixada e atrás de uns óculos grossos, não dizia nada que tivesse sentido. “Não consigo entender nada do que ele diz...”, murmura no boteco logo ali ao lado. Depois vai pegar as xérox por desencargo de consciência e para mostrar para a família, orgulhosa, que tem de estudar e olha só quanta coisa eles dão lá pro meu filhinho... é demais, ler tanto assim! Quem lê muito acaba ficando louquinho, né filhinho? As cópias acabam, invariavelmente, empilhadas sobre a escrivaninha, ao lado do computador, MSN à toda.

 

O negócio é o seguinte, e a lei é velha, uma anciã respeitável: universidade é para quem gosta de estudar. Ponto. Quem não tem aptidão pode fazer outra coisa, como ganhar dinheiro, que é uma forma honesta de se viver. Escutei aí no fundo que o que digo agora revela intolerância e preconceito. Que todos têm direito à universidade, todos devem ter a chance de continuar os estudos, que todos etc., aquela balela toda. Lamento, lamento, meu senhor, mas isso é ilusão. Universidade é para elites – mas elites intelectuais, de modo que qualquer um que tenha condições pode, e deve, segui-la, na carreira que bem entender. Independe a sua condição social, sua raça, seu credo, o raio: uma mocinha que viveu toda a vida numa favela da periferia, se tiver condições suficientes para pensar, está dentro. O rapaz riquinho nascido nos jardins, se for um completo idiota (todos os idiotas são completos, nunca há gradação, nunca há alguém “um pouco idiota”: idiotice é absoluta, sempre), está fora. Esta a elite de que fala Francis – a mesma, aliás, de que falava Ortega y Gasset.

 

Estudar exige esforço, uma espécie de exercício espiritual. Um subnutrido intelectual, mergulhado nas infindáveis modas televisivas, que conhece de cor os pagodes e os raps da vida, para quem o conceito de diversão é batucar numa mesa de boteco e o conceito de cultura é “estar informado” (e por isso assiste Cidade Alerta), não pode estar numa Universidade.

 

O subnutrido é aquele sujeito que se diz “homem do seu tempo”, com orgulho, e despreza toda a tradição do passado. O subnutrido é aquele que tem uma visão imediata e imediatista das coisas. O subnutrido tem mau gosto. O subnutrido é a pessoa que ergue as bandeiras mais tolas e defende as minorias, pois é preciso “fazer alguma coisa” de prática para resolver os problemas. O subnutrido é um coletivista. Encontra-se com outros subnutridos para matar o indivíduo. Acredita que cada um tem a sua verdade e diz que respeita a dos outros, desde que concorde com a sua. O subnutrido chama de intolerante quem não segue as suas normas. Rotula que “direita”, “reacionário”, “conservador” quem alimenta o espírito e busca a Verdade em si. O subnutrido intelectual é um tiranete de república de bananas, como esta em que vivemos.

 

O subnutrido é o pé-rapado – mas é ele quem, hoje, coordena as coisas, de dentro dos gabinetes.



Escrito por Fabio às 12h26 PM.

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Não


O trabalho não engrandece ninguém. Nem sequer dignifica o homem. São essas coisas que dizem para que nós nos mantenhamos naquele nível inconsciente, ocupando o tempo para que não pensemos e não nos preocupemos com as coisas mais altas e verdadeiras – aquilo que alimenta o espírito.

 

Não consigo mais me imaginar oito ou dez horas por dia metido em um escritório, olhando para a mesa, sofrendo com a angústia de saber que, em casa, estão os livros que quero ler, sabendo que a vida poderia ser infinitamente mais produtiva do que a repetição constante, diária, dos mesmos gestos, das mesmas coisas, dos mesmos relatórios inúteis. Aliás, quando trabalhei metido em escritório, fiz muita coisa – mas trabalhar, mesmo, nunca. Fico feliz em dizer que nunca fiz hora extra e que entrava na saleta onde me acorrentavam, às sete da manhã, já pensando que, dali há tantas horas, teria minha alforria. Não, nem o dinheiro valia tanto: ele apenas era, é, um instrumento para que eu consiga as coisas que gosto: livros, vinhos, charutos. O resto é excesso.

 

A profissão ideal é aquela na qual eu possa simplesmente não ser obrigado a produzir – e que se dane o mundo à volta. Aquela que não tem, colado no seu caráter, o rótulo de útil para a sociedade. Aquela da qual não se exige um determinado engajamento, um papel transformador qualquer. Quando digo que sou professor, todos pensam imediatamente na tal responsabilidade social, como se eu tivesse a obrigação de, simplesmente, como se fosse detentor de um poder fluídico e melífluo, emanar uma espécie de aura de sabedoria para que eles, os alunos, se tornem, assim, num passe de mágica, melhores do que são. Como se não dependesse deles. Não, não sou professor por isso – acho que não sou capaz de transformar nada nem ninguém, e nem quero isso. Sou professor porque gosto. As poucas horas que estou em sala de aula me dão prazer. Um prazer egoísta, entranhado, contumaz, agudo. Os dois ou três que gostam da aula estão salvos, os mesmos dois ou três que já têm em si o desejo de saber mais. Ali, fui apenas o fósforo que acendeu o pavio – mais cedo ou mais tarde, descobririam as coisas sozinhos.

 

Não quero ser digno. Não quero ser útil. Não quero ser prático. 



Escrito por Fabio às 05h13 PM.

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Projetos para Romances


Os escritores passam seu tempo livre, que é quase todo o tempo que têm, pensando em novos projetos, em novas histórias, para agradar aos seus leitores. Anotam, em pedacinhos de papel ou num diário ou nas margens de livros que lê, breves resumos de possíveis histórias, em estilo quase taquigráfico, para que possam, quando ficarem sóbrios, lembrar-se das próprias idéias. Estes projetos acumularam-se por anos – e aqui os transcrevo pensando mui nobremente naquele futuro pesquisador que, não tendo nada mais importante para fazer, mergulhará em anotações sem interesse nenhum.

 

Retrato de um artista enquanto come. Difícil elaboração. Sabe-se que, em se tratando de artistas contemporâneos desta assim chamada pós-modernidade, o senso estético é proporcional ao sentido palativo. Sabe-se também que, quando não está fumando qualquer coisa que lhe apareça na frente, está caindo de bêbado. Descrições dos seus descontroles emocionais. Egocentrismo explícito. Frase-chave: estou acima do meu tempo para ser compreendido; ou: sou um homem do meu tempo. Cena, na pág. 247, de uma transa enquanto sofre de delirium tremens. Alguma escatologia. Palavrões. Inspirado em Pollock.

 

Onze segundos. Beste-seller, na linha de Inrving Wallace e Pau no Coelho. Narra uma transa de um homem que sofre de ejaculação precoce. Texto curto, um parárafo, cinco linhas, encerradas por retircên...

 

Ensaio sobre o esnsaio. Seqüência do Ensaio sobre a cegueira e do Ensaio sobre a lucidez. Um homem sem nome compra um livro de Saramago e percebe que todas as páginas estão em branco. Reclama com a editora. Todos os livros estão em branco. Nas livrarias, idem. Nas bancas de jornais, ibidem. Conotação política: uma parábola sobre o mercado editorial. Será uma greve de escritores? Citações implícitas de Foucault, As palavras e as coisas. Cerca de 400 págs. Em branco.

 

Violentas na janela. Espírita. Ditado pelo espírito de Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho. Os espíritos de duas velhinhas, no outro mundo, jogam ectoplasma usado nos encarnados deste mundo aqui. Descrições tediosas do além. Lições de moral fúteis e vulgares. Lugares-comuns e chavões aos montes. Erros de português. Histórias de reencarnações passadas de grandes líderes da humanidade. Referências a Allan Kardek (acrescentar uma cena com ele, bêbado, batendo numa mesa: “Fale comigo! Fale comigo!”).

 

Meucunãoéímã. História de um índio homossexual que quer porque quer pegar na muiraquitã de um italiano grandão. Novela vulgar mas ao gosto dos acadêmicos.

 

Enterrem meu coração lá a p.q.p. Biografia de M’Boi-Mirim, líder de sua comunidade. Laivos realistas-socialistas. O índio faz uma greve de fome em frente ao palácio do planalto. O presidente (gorducho, barbudo) o recebe. Demarcam as terras. O índio ganha uma nota preta vendendo madeira nobre para os europeus.

Escrito por Fabio às 01h42 PM.

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