
Outra vez. Ainda mergulhado nas correspondências de Eça de Queiroz – impossível não encontrar paralelos entre o que o Escritor dizia, no século XIX, com esta nossa situação na terra brasilis, sempre abaixo da linha da mediocridade tolerável. Este um trecho de uma carta a Luiz de Magalhães, de 2 de julho de 1887, a respeito da crítica literária :
"Um artigo de Crítica é hoje uma coisa tão rara em Portugal*, que, quando me aparece um, sinto-me penetrado de reconhecimento como cidadão e como Português. É a impressão dum homem ordeiro e honesto, que no meio de uma suja desordem de taberna veja de repente aparecer à porta um gendarme. Com efeito a Crítica não é só a Consciência escrita duma literatura; é também a polícia da literatura. Onde ela falta, como entre nós, há logo, como entre nós, anarquia e balbúrdia na cidade literária. Se nós tivéssemos um Corpo constituído de Críticos, três ou quatro, investidos de autoridade e de saber, independentes e inflexíveis como a própria Lei, e armados dum grosso cacete — já a rapaziada não escrevia essas prosas reles que correspondem a sair à rua em ceroulas e chinelos, nem escrevia esses versos insensatos que correspondem a cantar bêbado a uma esquina**. Assim, sem polícia crítica, não têm medo. Não se dão ao trabalho de vestir um estilo decente para aparecer aos seus concidadãos; e quando lhes apetece fazer uma orgia de lirismo, fazem-na descaradamente no largo mais público das Gazetas. Por isso mal avisto um Crítico, bato as palmas, como a uma insperada garantia, que surge, de decência e ordem".
*Podemos ler aqui, sem a menor hesitação: Brasil.
Há um filme, de alguns anos, em que um sujeito descobre uma passagem, entre dois andares de um edifício, que vai dar exatamente na cabeça de John Malcovich. O sujeito entra pela portinha, agachado, escorrega e – pimba! – é John Malcovich, vê como John Malcovich, vive como John Malcovich, age como John Malcovich. Sua namorada descobre o caminho, outras pessoas o percorrem, e há uma febre: todos querem ser John Malcovich por algumas horas. Negócio seguro e lucrativo. Menos para John Malcovich. Quando todos querem ser John Malcovich, John Malcovich é ainda John Malcovich?
Mas, como dizem, a vida imita a arte – e nós temos o nosso modelo a ser seguido, temos a nossa febre. Não nas telas, pois imitação da vida do ator famoso ou da madame falsificada de tanta plástica é vulgar. Imitar o comportamento e a moda e a roupa e o penteado e o botox e o psudo-glamour é banal perto da imitação intelectual. Pior: o imitador intelectual acha, mesmo, de verdade, com absoluta certeza, que vale tanto quanto o original. São os Fonsequinhas.
O Fonsequinha não tem sexo. Podem ser macho ou fêmea ou um misto dos dois. O Fonsequinha olha para os lados e se vê como defensor das causas justas. O Fonsequinha tem uma inclinação, nada leve, patológica, para o desvio do comportamento sexual. Ele gosta do bizarro, do violento, do gratuito. Acredita que tem um papel definido na sociedade e que seu valor cresce na relação diretamente proporcional às patologias sociais que descreve.
Descreve? Sim: o Fonsequinha jura de pés juntos que é um escritor. Não um escritor qualquer: um escritor especial, relacionado com o que gosta de chamar de vanguarda pós-moderna. Preenche seus textos com citações implícitas de outros autores, preferencialmente pouco conhecidos do público. Dá-se ares eruditos. O Fonsequinha é fruto do final do século XX, um fruto indigesto que também digeriu mal o modelo no qual se baseia, como o foi Mário de Andrade, que digeriu mal o Modernismo europeu. Ou não o entendeu, que é a mesma coisa.
A primeira das Fonsequinhas é Patrícia Melo. Em seus primeiros contos não se distingue o que é dela e o que do original. Nos romances, idem. Tentou uma voz autônoma ao descrever a vida de um garoto no inevitável morro carioca até se tornar um líder do tráfico. Descambou, desabou, apesar da festa da mídia. Mídia ama pobreza – parece uma daquelas madames que vão fazer assistência social nas favelas e diz “o meu pobre”, "tenho de cuidar do meu pobre”, entra no barraco e tem nojo de aceitar o cafezinho ralo. A miséria se tornou um grande negócio cultural. Marçal Aquino também descobriu a portinha e se transformou em um grande Fonsequinha. Os clichês são os mesmos, o invasor não perdoa a ars literaria, massacra o bom senso, reproduz os topoi. Outro amante midiático, mofadinho de esquerda, engajadinho e enjoadinho. Há Fonsequinhas novos, recém-saídos das fraldas que aprenderam direitinho o caminho: Cristiano Baldi, que publicou, por enquanto um livro lá pelos pampas. Ainda tem salvação, este, se descobrir um método de desfonsequização e utilizar-se de voz própria. Não se esgota aqui, a tuba dos Fonsequinhas, mas para quê enumerá-los se isso apenas tornaria tudo mais redundante? Falar de um Fonsequinha é falar de todos, indistintamente.
É um mal na atual literatura brasileira, um mal que mesmo os livros didáticos – esse material execrável que deturpa mentes de professores e alunos – louvam com loas e cânticos. É a reprodução de modelos, constantemente, insistentemente, como ocorre nas rádios que tocam sempre a mesma música (as letras são diferentes, a melodia é outra, mas notem bem: é sempre a mesma, sempre sempre sempre). É o mal que revela a crise de uma cultura: todos querem ser Rubem Fonseca.
"A função de universidades é criar elites, e não dar diplomas a pés-rapados" (Paulo Francis)
16 rue de Berri
Paris 26 novembro 1888
Querido Ramalho
Vêm tarde todas as considerações sobre a Revista que se deveria fundar. Este negócio marcha desde setembro, e há cartas minhas para Genelioux que, sem estar cobertas de selos do Estado e de firmas de tabeliães, me prendem todavia tanto como se as revestissem esses símbolos tremendos. Concordo que uma Revista bleue era a publicação mais adequada a Lisboa: concordo com tanto mais alvoroço, quanto essa é uma velha idéia minha com que muitas vezes em Lisboa tentei inutilmente aquecer o seu entusiasmo, e que V. agora me devolve, envernizada de novo, e ornada dum penacho sul-americano! [...]
Enquanto à sua idéia de fazer uma Revista, não para nós mesmos e para o nosso país de origem, mas para as gentes do Pacífico e dos Pampas – ela seria bufa se não nascesse dessa nobre e tocante tendência que V. tem de amar, com inteira ternura, todos os povos que visita. Aqui há três anos V. decerto me teria proposto dedicar a Revista à Holanda. E se daqui a anos V. for à Romélia e ao Montenegro tenho a certeza que me há-de convidar a voltarmos para esses cerros bárbaros os olhos da nossa alma como para o verdadeiro Sinai da Inteligência!
Meu querido Ramalho! Revista e jornais para a chamada “América Latina” – têm-se criado às dúzias, às grosas. Todo o literato, colocado na passagem dos paquetes do Pacífico pensa imediatamente em exportar literatura para essas regiões selváticas. Têm-se fundado dessas Revistas em Londres, em Liverpool, em Bordéus, no Havre, em Gênova, em Cadiz! Umas em francês, outras em espanhol, outras em português ou pseudo-português. Tenho-as visto, tenho-as folheado com o devido horror! Ainda há meses, em Londres, me caiu nas mãos um desses monstros chamados (como V. queria para a nossa) Revista de la America Latina! – Pois tudo isto, comercialmente, tem falhado – porque o sul-americano é, de todos os seres humanos, o mais indiferente à letra redonda. São chamados civilizados – por se saberem servir, mais ou menos gauchêment, dos instrumentos de civilização que os outros inventam: mas eles próprios nunca tiveram um ato de civilização original – isto é nunca tiveram iniciativa na esfera do Direito, da Filosofia, da Religião, da Arte, nem uma só idéia sua, nem um feito, nem uma descoberta, nem um folhetim, nem um dito! A poesia parecia dever ser a sua expressão intelectual instintiva; pois se V. ler, como eu fiz, a coleção dos poetas mexicanos, chilenos, argentinos, etc., verá que eles são infinitamente inferiores aos líricos do Almanach de Lembranças. Eu conheço-os, vivi entre eles! Puras bestas, tendo só de simpático uma certa generosidade hospitaleira, comum de resto a todas as raças que vivem em descampados. Na Havana, num dos seus grandes centros, havia apenas um livreiro para meio milhão de habitantes: e nesse livreiro, só romances de Montépin, que se vendiam por causa da encadernação. Se V. me torna a falar na “América Latina” agarro num arrocho! [...]
Isto é um empreendimento de literatura e não de dinheiro - que eu ganharia mais a meu gosto, e em maior quantia, continuando a fabricar romances. Mas tive, como qualquer chauvin o meu fogacho de patriotismo. A imprensa que entre nós domina, fala do alto, faz e desfaz a História – é mais sórdida e vil que o vômito de um ébrio: por outro lado não há em Portugal um bocado de papel onde se discutam seriamente, e com especial saber as coisas vitais do país, onde as obras tenham o seu comentário, e onde se produzam os espíritos elevados, que hoje (e isto sucede a O. Martins, a Antero, Teófilo, a V. próprio) não têm um jornal decente onde decentemente digam o que pensam. Ora, nestas condições, eu decidi sacrificar-me, e fundar esse bocado de papel. É, até certo ponto, um ato patriótico – para o qual eu contei com todas as adesões. E elas vieram, largas e convictas, mesmo dos mais endurecidos céticos como o Casal, o Antônio de Serpa, etc. Todos os nossos amigos se lançaram de alma no caso. O. Martins tem-se dado un mal du diable. Junqueiro, o mais indolente dos homens, tem-se agitado. Etc., etc. Só uma adesão me faltou – a sua! Quando eu estava certo que V., que tantas vezes tem clamado contra a nossa degradação de imprensa, me ia gritar “vamos a isso e com gana!” escreve-me V. propondo-me não sei que fantástico meio de nos pormos a reboque de Montevideu e da Bolívia, e termina por me dizer, por demais, e com a mais sacudida indeferença – escreverei todavia se isso lhe convier!!! Quase me ia zangando – e abstenho-me de outros comentários sobre esta resposta dada a um velho camarada, para não me deixar ir a palavras de melancólica amargura. [...]
Perdoe este enorme documento, e responda, com brevidade ao
Seu do C.
Queiroz
Imagino uma dessas Associações que reúnem dependentes das mais variadas espécies para trocar seus traumas em público contando suas tragédias pessoais fruto do próprio descontrole e fazendo com que os demais participantes da tal reunião semanal se sintam melhores porque nunca desceram tão baixo. O curioso é que, quando o pobre vai lá na frente e confessa as piores ações, é aplaudido. Este aplauso significa, em primeira instância, um incentivo à coragem e a conseqüente ruptura com a timidez daquele que confessa. Mas, na verdade, parece ser outra coisa: aplaude-se não a coragem, mas os próprios egos: puxa, nunca fizemos tal coisa... Dizem que ajuda, certo – e o inferno mesmo está cheio das melhores intenções. Mas se tornou uma mania, estas Associações: depois dos Alcoólicos Anônimos, temos a das Mulheres que Amam Demais, a dos Homens Idem, a dos Gordinhos Desesperados, dos Dependentes de Paçoca, dos Sexólatras Nem Tão Anônimos Assim, dos Maestros Viciados em Pagode.
Mas a que imagino é outra, que traria em si um misto de sadismo e arrependimento; uma que promova reuniões também semanais com pessoas que se julgam especialíssimas, portadores de um comportamento que mescla a mais descarada retórica com a tendência sádica. Isto significa um grupo que se considera seleto demais, especial demais, profundo demais, blasé demais, politizado demais, inteligente demais, intocável demais. Um grupo de excessos. Refiro-me à criação da Associação dos Acadêmicos Anônimos – e o nome já é uma lição de humildade: ser anônimo, para o acadêmico, é uma experiência similar ao mergulho no Limbo.
A função principal da AAA é purgar, através da confissão, as culpas dos ilustres participantes, primeiro, e, depois, possibilitar que eles impressionem seus pares com sua retórica: “Segundo o procedimento dialético-construtivista, posso dizer que este período desde nossa última reunião foi produtivo no sentido segundo o qual apliquei com tenaz persistência as sugestões habermesianas dos ilustres colegas. Deste modo, seguindo uma tendência pós-moderna onde a ironia e o citacionismo se desprendem e depreendem da e na polêmica discursiva que aplico em minha cátedra, percebo que o desenvolvimento lógico das aulas surtiu o efeito mais que desejado: meus alunos finalmente não compreenderam nada do que eu afirmava o que resultou em grande quantidade de conceitos medíocres, o que fez com que eu me sentisse melhor”. Aplausos.
Com persistência e devoção, os ilustres membros do AAA libertar-se-ão do maior trauma que possuem: ser compreendidos e efetivamente formar seus alunos...
Antes que o leitor erga a sua voz para afirmar que as ações dos gorilas não têm comparação com a dos rinocerontes, já que estes, em menos de cem anos, mataram coisa de 100 milhões de pessoas, enquanto aqueles não atingiram sequer uma porcentagem ínfima nesta tétrica contabilidade de vidas; antes que o leitor me venha com aquela desgastada justificativa que os gorilas brasileiros foram até suaves em sua festiva matança, perto de outros da mesma espécie na América Latina, como os chilenos e argentinos; antes que desfilem aqui as ações de terror dos rinocerontes nesta mesma América Latina e em outros lugares de África e Ásia; antes disso tudo, permitam que eu diga que uma morte, uma morte sequer, por motivos políticos já é, e si, uma tragédia, seja do lado do Gorilla gorilla seja do Ceratotherium simum. Parodiando o poema, uma vida é uma vida é uma vida.
A estratégia dos rinocerontes não é diferente daquela utilizada pelos gorilas. Estes que agora nos governam têm a mesma predisposição, o mesmo gosto, o mesmo desejo, a mesma intransigência, o mesmo viés ideológico que aqueles que outrora nos comandavam. Mas os rinocerontes são piores, muito piores: articularam por mais de trinta anos as estratégias de destruição da liberdade; manipularam pelo mesmo longo tempo as consciências de modo a oferecer aos jovens apenas a sua versão da História; enquadraram todos num conceito maniqueísta de luta de classes onde aqueles que eles denominaram “direita” aparecem como os vilões sanguinários que perseguem e matam sistematicamente os mocinhos da pseudo-história que criaram, a tal “esquerda” – e o fizeram tão bem que a tal “direita” deixou de existir, mantendo um campo aberto e limpo para a sua pérfida ação. Um campo plano, tranqüilo, que possibilitou que eles, os rinocerontes vermelhos, chegassem ao poder, ao tão desejado poder, por meio de eleições livres e diretas. Sua maquilagem de bons-moços vitimados pelos gorilas iludiu toda uma nação – e garante, ainda, o apoio daqueles mesmos senhores que jogavam pôquer e bebiam seu uísque nas noites de sexta-feira em casa. Não afirmo – o que seria um completo absurdo – que os rinocerontes aprenderam com os gorilas. Desenvolveram sua capacidade destrutiva e intransigente por si sós: é inerente ao seu ser, à sua espécie, o desejo de centralização e de mando. O alerta que se acende, com sirenes tocando em alto e bom som (e que não são, ao que parece, ouvidas, numa repetição do passado), é claro demais para uma pessoa consciente para ser ignorada.
Como os gorilas, estes rinocerontes apresentam propostas para a morte do espírito: um tal Conselho Federal de Jornalismo, uma tal Ancinav, uma doutrinação esquerdizante nas escolas, a criação – ou o incentivo – de mitos como Che Guevara, tornando um assassino um herói romântico, e o casal Olga Benário e Carlos Prestes, transformando os dois agentes bolcheviques numa espécie de Aberlardo e Heloísa infernais. Esta manipulação de consciências, esta tentativa de matar o espírito é um prenúncio de novos tempos negros. Um dia chegará que, quando os rinocerontes perceberem que não conseguiram matar todos os espíritos, passarão a matar os corpos como sempre fizeram em outras partes deste mundinho. E dirão, orgulhosos: é preciso, é preciso para que possamos colocar em prática a justiça social; é necessário para que possamos arrumar o país; é imprescindível para que o Brasil volte a ser, ou passe a ser, uma nação. Dirão: é apenas um regime de exceção.
Mas, convenientemente, esquecerão: regimes de exceção são, sempre, regimes de excessos.
Lembro de eu-menino, carregando minha timidez crônica, a um canto da sala enquanto um monte de gente discutia, fumava, jogava cartas. A mesa era aberta (pois era uma daquelas mesas que abriam ao meio e se colocava uma tabuazinha a mais para acomodar oito pessoas), as cadeiras arrumadas, os copos preenchidos com uísque, um cobertor verde estendido, o baralho embaralhado e distribuído, os cinzeiros estrategicamente colocados um ao lado de cada ocupante para que não houvesse a confusão do passa-passa e nem se corresse os riscos naturais das brasas na mesa ou no chão ou, pior, sobre o tapete tão carinhosamente lavado no dia anterior. Este tipo de encontro começava, sempre, numa sexta-feira, lá pelas oito da noite e se estendia até a manhã seguinte. Eu, fascinado, agüentava acompanhar com algum interesse até meia noite ou uma da madrugada quando, tomado pelo sono (mas nunca admitindo o fato), era arrastado para o meu quarto pelas mãos de minha mãe. Ela também se recolhia, como dizem nas novelas ruins, após preparar os pratos, infindáveis, infinitos, de sanduíches e petiscos e bolachinhas – uma tentativa última de manter alguma sobriedade nos homens até o final do pôquer. Estávamos em 1972.
Esta a única imagem que tenho da casa naquela época. Era muito pequeno, sem idade suficiente para marcar as faces e perceber exatamente o quê se discutia na mesa durante o pôquer. Sabia apenas que ali estavam amigos do meu pai em sua reunião mensal, escapando das pressões do cotidiano, das pautas dos jornais, da criação de campanhas, da diagramação das revistas, do trabalho intelectual exigente. Não só da editora onde João Ulanin trabalhava vinham esses amigos: alguns, que chegavam mais tarde, bem mais tarde, saíam das redações dos dois jornais de São Paulo; outro, pois era um só, soube depois, anos depois da tragédia de 1975, vinha de uma tv pública onde era diretor ou coisa assim. Aliás, soube muita coisa depois, muito tarde, tarde demais. Soube que as reuniões não ocorriam para que se esquecessem – mas para que se lembrassem; soube que o que eles deveriam se lembrar, sempre, não das preocupações da vida, das contas, da escola dos filhos, da compra do mês, essas coisas comezinhas cotidianas – mas sim do cuidado que deveriam ter todos os dias; soube que ali eles escapavam não da labuta, não dos problemas do trabalho – mas de uma engrenagem que os esmagavam e tornava esse mesmo trabalho praticamente inviável. Lembrança, cuidado, engrenagem. Isso sei agora, tempo passado: o que se discutia era política.
O leitor mais atento já percebeu o assunto deste texto – que não chega a ser um artigo, aproximando-se, talvez, da crônica. O mesmo leitor deverá ter ficado um tantinho enfastiado, sabido é que uma crônica assim, tão pessoal, desagrada a maior parte das pessoas que procuram, quando entram nesta página, idéias e discussões e não melancolias – ainda mais quando essas melancolias assumem um posicionamento político que perigosamente se aproxima da esquerda. Ao leitor desatento, ou jovem demais (sabido é que a memória histórica não é lá muito cultivada...), digo apenas uma coisa: em casa eram, todos, de esquerda – desde meus pais até os amigos que lá freqüentavam. Este leitor deve, também, ter fixado as duas datas que coloquei ali em cima. Um período de três anos durante o qual se discutia – e muito – a censura prévia que se instalara nas redações, nas rádios, nas tvs; um período de tempo no qual se doutrinou muito em todos os lugares, para o bem e para o mal. Três anos durante os quais se sentia, em volta da mesa de pôquer e de modo semi-embriagado, toda a pressão que um chamado regime de exceção exercia sobre aquele grupo de amigos; um período de tempo em que aqueles homens olhavam-se assustados e que traziam para casa, de quando em quando, a notícia de um conhecido preso ou de que os gorilas (eu imaginava literalmente gorilas) haviam invadido esta ou aquela universidade. Três anos – até a tragédia de 75.
Meu pai chegou em casa, naquela noite, diferente. Não trazia o riso de estrondo de sempre, não andava pela rua com o peito erguido. Ao abrir o portão, estava encurvado. Os olhos fundos guardavam um misto de tristeza e horror. Ele morreu, disse. Morreu. Falava daquele homem que sempre chegava por último nas reuniões de pôquer e política, calvo, magro, olheiras fundas, não lembro se alto. Havia sido preso e interrogado – e, finalmente, encontrado enforcado na cela, o cinto atado nas grades da janela baixa, as pernas dobradas apoiando-se no chão. Morto. Os gorilas o mataram, disse.
Mataram seu corpo por não conseguirem matar o espírito. Por anos, os gorilas, como os chamou Alceu Amoroso Lima ao se referir à “linha dura” do regime militar, promoveram as ações mais absurdas para calar a imprensa, para coibir a liberdade de expressão, para enquadrar nos seus moldes ideológicos o comportamento social. Intervieram na educação, na produção artística; censuraram filmes, jornais e livros – numa tentativa desesperada de matar os espíritos. Morto o espírito, morta a liberdade de pensamento, o corpo social fenece. Deu certo o plano? Por um lado, para o ideal gorila, não. Após a tragédia de 75, as vozes se ergueram, os protestos cresceram. Por outro lado, sim, o plano deu certo: talvez não do modo como pretendiam, mas possibilitou, com efeito, a morte de inúmeros espíritos, levantando uma nova classe de agentes, terríveis e cruéis, que não mediu, nem mede, esforços para conseguir aquilo que deseja em nome de uma “nova ordem” pautada num conceito obtuso de “justiça social” – os rinocerontes. O tempo dos gorilas passou – é chegada a era dos rinocerontes.