
O evangelismo sofre de mau-gosto congênito. Não há um único escritor evangélico decente – a sua qualidade consegue ser ainda pior que a dos escritores espíritas –, assim como, afora Bach, não há um único compositor que efetivamente eleve o espírito. Isso, a meu ver, se deve às origens do protestantismo.
Lutero ergueu sua voz contra a Igreja por causa das tais indulgências vendidas pelo Papa Júlio II que, venhamos e convenhamos, não era mesmo flor que se cheirasse, chegadinho a uma boa guerra.
Mas estas tais indulgências, se serviam, por um lado, para financiar, lá pelos idos de 1503 a 1513, um espírito cruzadista já antiquado, servia também, por outro (e é o único lado importante nessa história), para patrocinar Bramante, Rafael e Michelangelo, a tríade que nos deu o maior, mais simbólico, e mais belo fruto estético para louvor a Deus: a Capela Sistina. Perto do mais singelo rabisco de qualquer um dos três, todo o palavrório evangélico sobre os altares, todas as críticas ao catolicismo, todos os cantos de louvores, todos os rituais que praticam, todas as orações que fazem, se parecem com urros antropóides em volta das fogueiras.
A Capela Sisitina é civilizadora: representa o ponto mais alto que a humanidade pode alcançar. Dêem uma mínima chance e os evangélicos são capazes de pintá-la de branco.
Anos de prática me fizeram criar um método para a correção de trabalhos. Não se trata de uma teoria educacional – as teorias servem para nada, geralmente (apenas para que aquelas velhinhas formadas em pedagogia lançem sobre os mortais à volta suas frustrações de caráter sexual. E notem bem: elas, quando jovencitas calientes, pensavam que colaborariam de verdade com a Educação, com e grande; depois, enfurnadas nos gabinetes, cansadas de recortar papeizinhos em formato de bonecos, de ler Piaget e Paulo Freire e outros capangas, resolvem vingar-se do mundo por causa da verruga peluda no queixo; Pedagogia faz crescer uma verruga peluda no queixo e aduncar o nariz), as teorias, eu dizia, servem para nada, de modo que criei uma prática que se revelou excelente: Wagner. Die Walküre ou Der Fliegende Holländer deixam o senso crítico afinadíssimo, naquele estado de tensão e irritabilidade que nos permite, a nós professores, pegar o menor errinho no texto. Tristan und Isolde é mais lírico e leve, bom para escrever de modo solto; Tanhäuser nos arrebata, como o Parsifal, mantendo-nos estáticos e embevecidos.
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Na Paulista, pregada à entrada do banco Real, uma placa. Não guardei os dizeres de memória – e nem ando por aí com bloquinho de anotações para copiar bobagens da afirmative action –, mas era mais ou menos isso que estava escrito:
“O Banco Real prometeu (prometeu, vem bem, amados leitores, o tom do cartaz) há tantos anos que iria tomar atitudes de ação afirmativa contratando funcionários negros. Até hoje não fez nada. E nós (esse nós da mensagem refere-se, claro, aos negões que querem uma vaguinha no banco) vamos processá-lo (não estava assim, mas não custa nada corrigir o estilo) por propaganda enganosa.”
Dizia outras coisas mais, frutos do delírio politicamente correto que reina por estas bandas tupiniquins e tupinambás. Terminava com a assinatura: “Com a força de Zumbi”. O lado negro da Força.
Para Samanta*
Lúcifer estava contrariado. Sempre se sentira o mais baixo dos seres; depois da Queda, sempre estivera acorrentado nos mais profundos abismos, relegado à categoria inferior da existência, cuidando apenas daqueles condenados às penas do seu reino. Milênios dessa vida triste, cercado de almas sofredoras e de demoniozinhos estúpidos (é sabido que os demônios sofrem de uma estupidez latente, mal enxergando um palmo diante dos seus narizes, se é que demônios têm narizes) e de mau gosto (demônios são vulgares em essência: gostam de música brega e de pagode, apreciam poesia concreta e dita marginal, amam cinema brasileiro, são fanáticos por teatro amador, usam roupas falsificadas de grife compradas na 25 de março e outras coisas similares e terríveis) fizeram com que percebesse o óbvio: ao mesmo tempo em que as pessoas iam à Igreja do seu oponente, ajoelhavam-se e rezavam e eram caridosos e davam as esmolas, às escondidas praticavam toda a sorte de pecados e infâmias. Graças a isso, teceu A Idéia.
Subiu aos céus para falar com Deus que é, sabe-se, um sujeito tranqüilo e respeitoso – e não se pode esquecer que a Queda de Lúcifer serviu para os Seus Divinos Fins; recebeu-o, sentado no Seu trono, um tantinho alheio, meio enfastiado: de tempos em tempos Lúcifer aparecia por lá com uma idéia mirabolante para conquistar o mundo e destronar de vez o Criador, que deixava a coisa acontecer: a Onisciência sempre tem a sua serventia, enfim.
— O que queres agora, Lúcifer?
— Senhor, desta vez tenho uma idéia ótima, ótima; a melhor de todas! E estou certo que dará resultado. Tenho observado por milênios o comportamento dos Seus fiéis: e percebi que eles, ao mesmo tempo em que obedecem às Suas regras, aproveitam o menor momento para pecar, e pecar feio. Eles têm uma irresistível atração por mim e pelo que eu posso oferecer, de modo que...
— Não vais me dizer que pretendes, outra vez, fundar a tal Igreja do Diabo. Já o tentaste, lembras, há mais de cem anos. Como a todo demônio, careces de originalidade. E me enches de fastio.
— Errei, errei sim, naquela ocasião. Acreditei que poderia derrubar a você com uma igrejinha qualquer – mas agora será diferente: andei estudando, no Inferno, e aprendi uma coisa chamada marketing. Com a estratégia de vendas apropriada, com a imagem certa, com a fala adequada, com o apelo direcionado ao público-alvo, você verá, Senhor, como conseguirei. Agora é diferente.
— Blá, blá, blá, como sempre. Conheço tudo isso, de velho. Aliás, fui eu que criei esse discurso todo só para oferecer uma pequena amostra aos pecadores o que os espera no Inferno: a fila do banco para conversar com o gerente, o próprio gerente, o vendedor de automóveis, a burocracia das universidades, o serviço público, horários eleitorais gratuitos – tudo uma pequena amostra de como é o ínfero mundo para que os homens se arrependam a tempo. Não tens condições de fazer nada de novo, meu caro.
[Continua abaixo]
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— É onde você se engana! Observei com atenção: esses que você chama de fiéis estão é mais preocupados com o dinheiro, com a matéria, do que com uma distante salvação da alma. Eles querem acumular, acumular egoistamente, cada vez mais, tudo o que puderem. Eles querem olhar para os outros, superiores, e dizer “olha só o que eu tenho – e vocês não!” O maior desejo dos homens é ter e não ser – e o que eles ganham ao te seguir? Eles são, mas têm? Terão, pela sua promessa, alguma coisa lá, muito longe, um dia nessa eternidade toda... Não! isso não serve para os homens: eles querem a coisa agora, i-me-di-a-ta-men-te! E para conseguirem alimentar o seu egoísmo, o seu materialismo, são capazes de fazer qualquer coisa: dão o que tiverem na mão, desrespeitam o próximo, injuriam a si mesmos e aos outros, blasfemam, dão as costas àqueles que os ajudam. Você tem de dar o braço a torcer, Senhor: a humanidade foi uma obra falhada – e vou explorar exatamente esse desejo, as falhas de caráter, a miséria da existência que levam – e eles se entregarão para mim, de corpo e alma.
— Parece que é apenas o seu velho pacto. Não vejo nenhuma novidade.
— Ah! mas é muito diferente, muito diferente! Eles não vão precisar assinar nada, não vão nem mesmo perceber que estão sendo levados para o meu reino! Pactuarão comigo graças a uma série de rituais muito bem disfarçados: sairão às ruas pela sua livre e espontânea vontade para conseguir mais seguidores; darão todo o seu dinheiro para a minha obra, graças a campanhas (vou chamá-las campanhas) de nomes curiosos tirados do Seu Livro e, se não diretamente tirados pelo menos Nele inspirados – tenho já uns dois ou três nomes curiosos: Fogueira Santa de Israel, Jejum de Neemias etc.; e em troca terão a promessa de cumprir com o seu desejo egoísta. E serão cegos, tão cegos que dificilmente conseguirão livrar-se das minhas garras! Pensei em tudo, Senhor: não posso aparecer assim, com a minha forma demoníaca, que eles se assustam; então consegui um sujeito meio baixinho, careca, de óculos, que se veste mal e fala errado – pelo corpo dele vou fundar a minha igreja!
— Lúcifer, Lúcifer... nunca aprendes mesmo. Isso irá funcionar um tempo, dois tempos... mas conheces a Palavra. Um dia a Verdade será revelada – e o que farás?
— Não desta vez, Senhor. Não desta vez. O povo gosta de ser enganado, identifica-se com a vulgaridade, ama ser dirigido, entrega o livre-arbítrio ao primeiro que ofereça a promessa de bens materiais em troca... É um grande negócio, você vai ver! Sem contar que, com as minhas legiões sobre os altares desta nova igreja, rapidamente conquistarei o mundo todo! O meu erro, antes, foi dar o meu nome para a igreja – e os homens têm medo do diabo; agora, agora usarei, conforme a minha natureza, de malícia: o Seu Nome, Senhor, é que estará sobre a porta...
— Arre! Já estou entediado com a tua presença. Vá, vá logo, faças o que bem entender, mas não te esqueças o meu alerta: tudo tem um fim no mundo – para isso ele foi criado. E, por piedade, não tornes aqui pelos próximos duzentos anos. Até a minha paciência tem limites.
Lúcifer sai do céu altivo e triunfante. Na terra, seduz o homenzinho careca e mal vestido. Poucos anos depois, funda a sua igreja – e orgulhoso, pendura à entrada: Igreja Universal do Reino de Deus.
Não contava, em sua malícia, no entanto, o fruto que iria colher, pois é mais do que conhecida a concorrência infernal. Ao contrário do Céu, estático em sua eterna perfeição, onde não cabem disputas de poder, o Inferno é composto pelos mais baixos seres, sempre descontentes com a sua situação, corroídos de inveja: a fundação da igreja luciferina foi o estopim de uma série de outras igrejinhas do mesmo teor: Balzebu abriu a sua, Renascer em Cristo; Azazel fundou a Igreja Internacional da Graça; Asmodeu a Sara Nossa Terra... impossível designar todas, tal a quantidade de Legiões Infernais.
O leitor no entanto não tem com o que se preocupar: Deus, na alta esfera celestial, está descansado, pois foi Dele a palavra: “Muitos virão em meu nome dizendo: Eu sou o Cristo – e enganarão a muitos”...