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Blogs, Banners e Outros


Graças a Deus...


...2004 termina! Ano intransigente, difícil, estranho. Coisas boas: conheci pessoalmente muitos amigos dos blogs, reatei relações com outros um tanto distantes por algum tempo, escrevi muito – bem ou mal –, li muita coisa boa e ruim, defendi o mestrado depois de uma longa novela, amei ainda mais minha doce Ana e fui amado – o que se pode querer mais?

 

Coisas ruins: dureza, fiz dívidas, trabalhei menos do que gostaria, comprei menos livros do que era o meu desejo. Mas a vida funciona assim, neste ritmo de altos e baixos, nesta maré inconstante – e é esta inconstância que dá sentido ao Mistério. Aliás, há um texto de Chesterton que me parece aplicável ao caso:

 

“O grande problema deste mundo é que não é um mundo ilógico, mas também não é um mundo racional. O que mais comumente nos aborrece nele é que é quase razoável, mas não chega a sê-lo perfeitamente. A vida não é anti-lógica, mas é uma armadilha para os lógicos. Parece um pouco mais matemática e regular do que realmente é; a sua exatidão e patente, mas a sua inexatidão se esconde e o que tem de insólito jaz emboscado.” (Paradoxos do Cristianismo, Quadrante, 1993).

 

O insólito é que dá o sentido ao turbilhão de nossas vidas – e não podemos esperar outra coisa. Não adianta questionarmos as razões de um determinado fato (porquê o tal maremoto na Tailândia? porquê o Lula foi eleito e se mantém? porquê me foi dado escrever?), mas apenas percebê-lo como ele se apresenta: está aqui, à minha frente, neste momento – e a única coisa que posso tirar dele é o seu sentido mais profundo. Tudo o que acontece tem uma razão de ser – e esta razão não é, muitas vezes, lógica e cristalina. Mergulhamos na confusão mental, tentamos descobrir uma lei invisível que nos rege e nos é vedada. Enquanto isso, sofremos.

 

Mas não é do sofrimento que desejo discorrer, nem sequer estou em condições de um grande texto de análise filosófica ou teológica. Apenas, para minimizar a confusão mental que me toma, pratico, neste final de terrífico ano, um ritual que meus leitores mais assíduos já conhecem: leio o último livro do ano: São Bernardo de Claraval, de Albe J. Luddy (Editorial Áster, Lisboa, 1959), que, se não é uma biografia muito boa – o autor leva a sério demais os mitos medievais criados para explicar a predestinação do Doutor Melífluo – tem a qualidade, pelo menos, de trazer cartas completas e trechos enormes de sermões. Vale, enfim, pela documentação.

 

A segunda parte do ritual é a leitura do primeiro livro de 2005, que já está ali na estante, à espera: a História da Beleza de Umberto Eco, recebido pouco antes do Natal pelo correio – presente de Papai Noel, que leu meu pedido num post anterior...

 

Que os meus leitores, meus amigos (e aqueles que entram aqui silenciosamente, lêem e passam), tenham seus rituais. E que tenham um belíssimo ano-novo. 2005 nos possibilitará mais encontros e mais conversas; permitirá que nossa amizade se enraíze e solidifique; fará com que nos descubramos; permitirá, enfim, que partilhemos um pouco do sentido insólito do mundo.

Escrito por Fabio às 12h38 PM.

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A Anunciação segundo S. Bernardo Clairvaux


Ouviste, ó Virgem, que vais conceber e dar à luz, não por obra de homem – tu ouviste – mas do Espírito Santo. O Anjo espera tua resposta: já é tempo de voltar para Deus que o enviou. Também nós, Senhora, miseravelmente esmagados por uma sentença de condenação, esperamos tua palavra de misericórdia. Eis que te é oferecido o preço da nossa salvação; se consentes, seremos livres. Todos fomos criados pelo Verbo eterno, mas caímos na morte; com uma breve resposta tua seremos recriados e novamente chamados à vida.

Ó Virgem cheia de bondade, o pobre Adão, expulso do paraíso com a sua mísera descendência, implora a tua resposta: Abraão implora; Davi implora. Os outros patriarcas, teus antepassados, que também habitam a região da sombra da morte, suplicam esta resposta. O mundo inteiro a espera, prostrado a teus pés.

Apressa-te, ó Virgem, em dar a tua resposta; responde sem demora ao Anjo, ou melhor, responde ao Senhor por meio do Anjo. Pronuncia uma palavra e recebe a Palavra; profere a tua palavra e concebe a Palavra de Deus; dize uma palavra passageira e abraça a Palavra eterna.

Abre, ó Virgem santa, teu coração à fé, teus lábios ao consentimento, teu seio ao Criador. Eis que o Desejado de todas as nações bate à tua porta. Levanta-te, corre, abre. Levanta-te pela fé, corre pela entrega a Deus, abre pelo consentimento. Eis aqui, diz a Virgem, a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38).

 

Das Homilias de louvor à Virgem Mãe, de S. Bernardo abade (S. Bernardo Clairvaux): Hom. 4,8-9: Opera omnia, Edit. Cisterc. 4.[1966], 53-54. Séc. XII.



Escrito por Fabio às 04h03 PM.

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Agora sim!


O que eu queria dizer, na anti-crônica (obrigado pelo empréstimo, Milton!) da semana passada, era a respeito do encontro com o Papai Noel, no shopping, fugindo da chuva. Melhor: eu fugia da chuva – o Papai Noel estava lá, sentado na sua cadeira vermelha, num cercadinho que lembrava muito aquele chiqueirinho de nossa infância; ao seu lado uma moça, uma gnoma (existem gnomos-fêmeas?, afora aquela azulzinha que, pelo que me recordo, não era exatamente uma gnoma, mas uma smurfette criada pelo Gargamel...), mui linda e leda, vestida de verde, um metro e setenta de altura, o que, levando em consideração as proporções gnômicas, é coisa pacas. Estavam lá, lado a lado, um saco vermelho largado pouco mais atrás. Nada de novo nessa época natalina, dentro de um shopping: chovem papais-noéis por todos os lados – fato que, nos idos da minha infância, me confundia e encantava: como o velhinho podia estar dentro de uma loja e, logo em seguida, na porta de outra? Ou era muito, muito rápido, ou então ele, para atender a todas as crianças, se servia de ajudantes-sósias. Não pensava esta palavra, claro, pois sósia não fazia parte do meu parco vocabulário de pré-leitor. 

Um dia vi Santa Klaus, devidamente aparamentado, subindo num ônibus, enroscando na catraca o seu saco (o dos presentes, o dos presentes) e tentando, a muito custo, manter o equilíbrio na hora do rush. “Tadinho, deve ter quebrado o trenó”, pensei, e senti vontade de xingar o mecânico que ainda não providenciara o conserto. Mas, sendo o trenó movido por renas – quem cuidaria da manutenção? Veterinários? Zoólogos? Aliás, nunca entendi uma coisa: porque o Papai Noel sempre chegava de helicóptero se ele andava de trenó? Esta uma das coisas que fazem parte da minha decepção de infância, sedenta de puro realismo.  

Mas o Papai Noel que eu mais amava, aquele que esperava ansiosamente todos os anos, aquele no qual eu via o Papai Noel de verdade, o único, o insubstituível, o enorme, com barbas brancas reais caídas, longas longas, sobre o peito, era aquele que estrategicamente ficava sentado no setor de brinquedos da Sears. Gostava de ir à Sears, por um motivo: enquanto meus pais iam revirar os demais setores da loja, deixavam-me no meio dos brinquedos, extasiado, encantado, frenético. É mais ou menos o que acontece hoje, quando vou ao shopping com minha doce Ana: enquanto ela vai às lojas, ver aquelas coisas chatíssimas (sapatos, cintos, roupas; roupas, sapatos, cintos; cintos, roupas, sapatos; de quando em vez uma bijuteria – e cintos, sapatos, roupas), fico ainda frenético, extasiado, encantado: nas livrarias. Nada mais triste que um shopping sem livrarias – e os há aos montes. Mas desvio-me, afasto-me perigosamente dos objetivos desta real crônica: para mim, o bom velhinho comprava tudo na Sears para depois distribuir pelo mundo afora. Não existia Natal sem Sears... 

Aliás, o shopping que me serviu de proteção durante a chuva fica exatamente onde ficava, mais de vinte anos passados, a tal Sears. E volto ao Papai Noel que encontrei junto á sua gnoma alta demais: não havia sequer uma criança por perto; nenhuma fila de petizes ansiosos seguros pelas mães; nenhum olhar brilhoso, nenhum desejo de tocar nas barbas, de sentar no seu colo. Estavam, ambos, solitários no seu chiqueirinho: ela, sentada com os joelhos juntos e pés afastados, corpo curvado para frente, o queixo apoiado na mão, olhava para algum lugar que não fazia parte da realidade objetiva; ele, também encurvado, trazia as mãos apertadas e cruzadas entre os joelhos, cabeça baixa. O Papai Noel mais triste do mundo. 

Não tive coragem de obedecer ao meu desejo: seja por ter passado dos 30, seja porque o velhinho aparentava não agüentar os meus cento e tantos quilos. Queria fazer lá o meu pedido – e perdi a chance. Mas nessa era internética, e já que o Noel sabe de tudo, deixo aqui os meus pedidos. Um alerta, antes: olha, fui um bom garoto, errei e me arrependi, tentei fazer as coisas direito, os meus rasgos de mau-humor são apenas para a diversão alheia – não quero, então, um chicotinho ou um pedaço de carvão. Quero uns brinquedos que me dêem um tiquinho de prazer nesse ano de angústias e aflições: 

Meus amigos ao meu lado, sempre

Minha família feliz, sempre

Longas conversas regadas a Ulisse Etna, o vinho bebido no Olimpo pelos deuses

Uma bela caixa de Cohibas para que, junto ao vinho e aos amigos, possamos estender a alegria da amizade por horas a fio

A História da Beleza, do Umberto Eco, para ser languidamente folheado, lido e comentado. 

Nada mais eu preciso, no meu egoísmo: longas conversas com estes amigos verdadeiros que encontrei por estes anos – que podem estar fisicamente distantes, mas que estão constantemente presentes a cada mínimo momento.

Escrito por Fabio às 02h30 PM.

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Estes dias


São Paulo é assim: ou um calor abafado, infernal, que nos faz suar bicas e permanecer longe do transporte coletivo por motivos óbvios, já que a plebe rude e ignara não toma mesmo banho, ou um chuvaréu-surpresa, bem na hora em que se está na Paulista, sete quadras de casa, sem um lugarzinho para se proteger porque todas as marquises foram tomadas ou pelos mendigos ou pelos camelôs ou por hippies que chegaram com quarenta anos de atraso para a festa e são uma espécie de mendigos-camelôs.

 

Mas não era isso que eu ia dizer. Não, não. O que eu pretendo é um continho, ou uma crônica daquelas levezinhas e sorridentes, para trazer aos leitores a boa-nova, alimentando assim o espírito pré-natalino que deveria reinar por estas bandas. Mas não há nada que lembre nem de perto o Natal por aqui. Com exceção do banco Real, que fez lá a sua decoração, parecida com a dos anos anteriores, e do banco de Boston, igualzinha à dos outros anos, nada. Aliás, lá no banco Real colocaram, ao invés dos papais-noéis-músicos tocando de quando em vez um jazz, um pantagruélico velhinho subindo pelo prédio, que dá a impressão de que pode cair a qualquer momento – ou, se atentarmos bem, pelo jeito sorrateiro como ele desliza pela parede e se debruça para subir no telhado, segurando o saco (do Papai Noel, arre!), parece que a sua intenção é mais a de assaltar o banco. Fora isso, vejo o Natal apenas na tv, uma espécie de disputa de quem faz a árvore maior. Em São Paulo, nem isso, ou quase, já que nem a “festa tradicional da virada” (como todo mundo gosta de dizer, de modo um tanto misterioso, afinal que raio de “virada” é esta?) está planejada, nada pronto, nenhum convidado, nenhum palanque montado, nem sequer um cartazinho aumentando a nossa já tradicional poluição visual.

 

Também não era isso que eu ia dizer, mas vá lá, já comecei e, como escrevo como quem conversa, não quero interromper o papo. O estranho é que, a essa altura, começos de dezembro, nos outros anos a Paulista já estava completamente modificada: para lá um tanto do Conjunto Nacional colocavam um palanque enorme, os cartazes anunciando shows de gosto duvidoso espalhados, os molequinhos vermelhos de mãos dadas, símbolo da prefeitura, por todos os lados. Neste ano, de eleições derrotadas, nada. Como não pensar em vingança? “Ah! não votaram em mim, né? Não gostaram da minha belezura, né? Preferiram o outro, né? Agora não tem Natal pra vocês”. O espírito, pelo menos, é o do PT: se vocês não concordam comigo, eu pego a bola e vou para casa, acabou o jogo. E já que estamos em plena era de teorias da conspiração, aí vai mais uma: não foram as chuvas que abriram buracos na 9 de Julho, recém-botoxizada pela Dona Marta: foi a própria prefeita que, irritada pelo fato de não ter sido reeleita (obrigado, Senhor!), mandou, às escondidas, à noite, desfazer o que havia feito: abram buracos, muitos buracos – esse povo vai saber o que é a vingança de uma mulher frustrada.

 

Ainda não era isso, ainda não. Acontece que, com a chuva repentina, protegi-me num shopping e dei de cara com um batalhão de pessoas ansiosas, carregadas de sacolas enormes, e de bandos de crianças fora-de-si, descontroladas. Não gosto de shoppings: são todos iguais, iguais, iguais e, geralmente, as livrarias, paupérrimas. Em tempos natalinos, então, a impressão que tenho é que o povo é tomado por uma espécie de síndrome de consumo, de alegria forçada, de desespero. Alguém com mais capacidade do que eu pode fazer uma análise profunda da psique do consumidor natalino – eu não. Não quero, nem vou, cair na esparrela de falar em “consumismo”, em “capitalismo”, em “crescimento da economia”. A minha economia não cresce há tempos e o shopping foi o único lugar para me proteger da chuva, sem os camelôs e mendigos e hippies atrasados. Ou melhor: tem tudo isso, claro, mas são outros camelôs, outros hippies. E há, também, os mendigos, aqueles que são cruelmente excluídos da convivência humana, relegados a um canto (onde chovia torrencialmente), nos fundos, na área dos fumantes com seus dois cinzeiros abarrotados de bitucas (ninguém limpa!) e dois ou três banquinhos insuficientes para tanta gente que quer, apenas, curtir o seu doce viciozinho em paz. Não existe esse negócio de fumante passivo. Se não quer ser passivo, coisa sempre desagradável, comece a fumar – e resolve-se o problema.

 

Mas não era isso também que eu queria dizer. Eu ia falar sobre o Papai Noel, e escrever a tal croniquinha engraçadinha, e acalentar os corações dos meus amados leitores – mas o espaço acabou. Fiquem, pois, sem crônica, nem risos, sem acalanto. Eu, por mim, acendo um cigarro e volto aos intermináveis trabalhos.

Escrito por Fabio às 11h53 AM.

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