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Mundo Escravocrata


Estas são as considerações que eu faço, e era bem que fizessem todos, sobre os juízos ocultos desta tão notável transmigração e seus efeitos. Não há escravo no Brasil - e mais quando vejo os mais miseráveis - que não seja matéria para mim de uma profunda meditação. Comparo o presente com o futuro, o tempo com a eternidade, o que vejo com o que Creio, e não posso entender que Deus que criou estes homens tanto à sua imagem e semelhança como os demais, os predestinasse para dois infernos, um nesta vida, outro na outra (Pe. António Vieira, Sermão XXVII da série "Maria, Rosa Mística")

Estamos em plena escravidão. O mais terrível, o mais absurdo, o mais absoluto terror escravocrata nos ronda e nos cerca, sussurrando palavras doces para fazer-nos dóceis. Somos Schiavos em potência, prontos para que se nos retirem os tubos de alimentação que nos mantém vivos. Somos dominados pelo mais terrível senhor de engenhos que já se teve notícia: a argumentação cientificista que se pretende detentora de um saber absoluto. O que, cá entre nós, é uma contradição: estes mesmos senhores afirmam com todas as letras a relatividade de todas as coisas, já que tudo, absolutamente tudo, depende apenas do meu, nosso, ponto de vista individual e intransferível. Somo Schiavos presos a camas, um tubo enfiado não em nossa barriga, mas em nossos cérebros – e um tubo não para nos alimentar, mas para extirpar aquela parcela que nos faz melhores que alfaces: a alma. Um Schiavo não é humano. Isso já era fato conhecido lá pelos idos do século XVI e arrastou-se até o século XIX, pelo menos, como verdade apoiada por todos os que se consideravam inteligentes e doutos.

Ser Schiavo é estar à margem, sem poder de argumentação. É não poder, não conseguir, por não lhes ser permitido, pensar livremente. É ter de obedecer às regras e às normas impostas pela simples vontade de outrem. Ser Schiavo é ter a vida dominada pela vontade alheia – e ser colocado num tronco erístico para apanhar com chicotes conceituais: e sangrar sangue verdadeiro sob os golpes de falsos argumentos. É banal: um Schiavo pode fugir de seu algoz, esconder-se embrenhando-se na mata, fundar uma comunidade de Schiavos seus irmãos – e ainda assim, será, sempre, um escravo. Será caçado, nunca banido; será preso, nunca liberto; será morto, nunca respeitado.

O Schiavo é o menor dos seres, por isso o maior dos entes. O Schiavo atravessa o deserto em busca de sua terra prometida – mas a promessa da vida, e da vida abundante, foi calada pela voz dos senhores, dos novos detentores do poder sobre a vida. Nietszche tinha razão: Deus morreu e fomos nós que o matamos – e quando matamos a Deus, temos a liberdade imoral de imolar nosso semelhante sem sentimento de culpa.

E lemos e ouvimos e pronunciamos todos os argumentos do mundo em favor da morte do nosso irmão. Um embrião não tem vida – logo, arranquemo-la com nossas mãos; uma mulher depende de aparelhos para se alimentar – logo decidimos que aquilo que ali vemos não é uma vida digna, e desligamos os aparelhos e deixamo-la morrer aos poucos, de fome, definhando. Quem argumenta dessa forma só pode ter uma atitude coerente: ser favorável aos horrores de Hitler, já que a vida de um judeu vale menos que a de um ariano. Quem defende o aborto e a eutanásia deve, por coerência moral, apoiar os campos de concentração e os fornos crematórios. Não há meio termo. Quem vê no ser um Schiavo não pode se chocar com o assassinato puro e simples sobre os quais temos notícias todos os dias na tv: matar é uma decisão válida, porque individual e relativa; não pode sequer criticar os donos das terras que matam líderes sindicais ou os membros do eme-esse-tê; não pode lamentar os famintos de África nem os fuzilados por Saddam; não tem o direito de erguer sua voz contra a guerra; não pode exigir justiça quando seu filho for assassinado.

Não percebem o mais óbvio, o mais simples, a mais reles das verdades – aliás a única Verdade: somos todos Schiavos à espera de que se nos retirem os tubos.

Mas o verdadeiro Schiavo é aquele que, mesmo sem dizer nada, apela, silencioso, pela Vida.

Escrito por Fabio às 01h29 PM.

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Enciclopédia Imaginária


COPERTINO, Ruperto («Mântua, 1647 – U Mântua, 1719)

 

Filho do tipógrafo Erguiberto Copertino, responsável pelas clássicas edições sobre anatomia humana do século XVII, e de Agripina Violetta Copertino, de quem pouco se sabe, afora a sua devoção por Santa Madalena de Fiore, Ruperto Copertino teve a formação tradicional de seu tempo: desde cedo foi educado pelo pai na profissão da família (há registro de três gerações de tipógrafos de seu nome, cf. ALTOBELO, G., Il nomine de la Lettera, 1898, p. 67), assim como recebeu uma educação humanista sob o tutor jesuíta Nicola Caggio, autor de uma Gramática Latina publicada por Erguiberto em 1652. Nenhuma informação mais detalhada é possível de se levantar na parca bibliografia especializada.

Sabe-se, no entanto, que em 1672 herda a pequena loja tipográfica de seu pai e inicia a publicação de diversas obras de cunho místico, além daquelas sobre medicina já tradicionais da sua casa. Foi um dos primeiros, se não o primeiro, a verter para a língua vulgar os tratados de pseudo-Dioniso Trimegisto, a quem são atribuídas diversas obras iniciáticas sobre a transmutação dos metais e sobre a sobrevivência da alma. A edição que maiores lucros gerou - e problemas com a Igreja - saída das oficinas de Ruperto Copertino foi um pequeno volume in-fólio, infelizmente perdido no incêndio que devastou Mântua em 1753, de título Ars Anímica.

Oito anos depois publica o volume de Descobertas Sublimes e Essências Veladas (213 p., 1680), de autoria de um certo Perpétuo Coruno, autor recoberto de mistérios e segredos. O volume fez grande sucesso entre a elite intelectual mantuana por cerca de vinte anos, até que caiu no esquecimento, sendo considerado, pelas palavras de Eugênio Tornatore (La maschera del sapore, ed. De Vittorino Lambrusco, Milano, 1823, p. 51) um “livro que nada mais oferecia a não ser bocejos fastidiosos e conversas entediantes após o jantar. Quando se tocava no nome de Coruno era sinal de que a festa estava encerrada”. De qualquer modo, o volume sobreviveu por estas duas décadas pelo breve tom místico que dela aflorava ao narrar a história de duas almas que percorrem planetas espirituais organizados segundo uma ordem ascendente e descendente simultaneamente, em uma forma esférica-ovalada, de modo que o sentido descendente torna-se, a partir do capítulo XXII, a exata mediação do volume, ascendente e este, por sua vez, torna-se descendente, encontrando-se ambos os trajetos na página 321, que inaugura o último capítulo. As duas almas, após uma breve introdução, partem em direções opostas e iniciam suas jornadas por quarenta esferas, cada uma representando um planeta diferente, em uma alegoria que, segundo Romeo de Las Casas (La Infinitud del Universo, Mancha, 1902, p. 77), é uma “alegoria dos encontros e desencontros, dos desejos e desistências, das alegrias e das tristezas que a humanidade enfrenta”. Cada círculo, ou planeta, representaria, assim, pelo tipo de habitante que as almas neles encontravam, um vício ou uma virtude, um desejo ou uma frustração, uma alegria ou uma tristeza, sempre segundo um caminho ambíguo, de modo que cada capítulo encontra sua antítese correspondente na jornada esférica percorrida.

Muito se discutiu sobre esta obra, da qual resta apenas um exemplar semi-destruído pelo fogo, assim como sobre a existência de seu autor, até que, em 1834, Sir Wilham Cummings, o alfarrabista de Sua Majestade, levantou a hipótese de que Perpétuo Coruno e Ruperto Copertino seriam a mesma pessoa (Books and Minds, London, 1834). A hipótese baseava-se na existência de um pequeno opúsculo, salvo da inundação ocorrida em 1827 em Veneza, cidade predileta do nobre alfarrabista. O opúsculo, um manuscrito quase ilegível, trazia a data 1678 e continha alguns rascunhos daquilo que se tornaria, ainda segundo Cummings, o Descobertas Sublimes. Mas nada, de fato, foi provado.

A discussão acadêmica tem perpassado o último século e meio na tentativa de se localizar a verdade sobre o livro de Perpétuo-Ruperto, mas todas as tentativas têm se revelado inúteis até o momento.

Referências bibliográficas: ALTOBELO, G., Il nomine de la Lettera, Pádua, 1898; CASAS, Romeo de Las, La Infinitud del Universo, Mancha, 1902; CORUNO, Perpétuo, Descobertas Sublimes e Essências Veladas, edição preparada em português pelo professor João Zorro, Lisboa, 1808; CUMMINGS, Wilham, Books and Minds, London, 1834; TORNATORE, Eugênio, La maschera dell sapore, ed. De Vittorino Lambrusco, Milano, 1823.

Escrito por Fabio às 03h04 PM.

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Idéias


têm vida própria, são intransigentes, não se mostram por completo, gostam dos cantos escuros do inconsciente, arredias por natureza. Não adianta tentar fixá-las na tela do computador, por melhor que seja a versão (aversão) do Word, se elas não estão dispostas, se elas não se consideram arrumadas para serem vistas pelo público. Quando se tenta forçar uma idéia a concretizar-se como palavra, o resultado é uma tolice sem fim, uma frase vazia de significado, um rabisco sobre a parece caiada. Escrever exige esforço, certo – mas se elas, as idéias, se recusam, o que fazer? Patientia, patientatis. O único segredo.

 

Tenho comigo, há semanas, meses já, duas ou três cenas que poderiam se revelar detentoras de uma beleza peculiar. Um porão de livraria antiga, forrado de livros (quinze, vinte mil?), lâmpadas nuas que se acendem puxando uma correntinha. O fio balança, projetando nas prateleiras sombras diversas, estranhas. Ali, naquele porão, habita um mistério; das páginas dos livros sairá a solução. Não sei qual o mistério – nem suspeito a solução – mas sei, pois vejo com detalhes a cena, que há mofo e uns dois ratos furtivos (ratos são sempre furtivos, retire-se o adjetivo) que me espiam de um canto, a mim, ao invasor do seu reino. Sei que no porão da livraria há tesouros sem valor: obras destruídas pelo tempo, pela umidade, pelos ratos e baratas. Chego a tocar em uma edição da Cinza das Horas, de 1917, autografada, mas sua última página horrivelmente fora arrancada; folheio com prazer as Chrysalidas, de 1864, desmantelada e rabiscada a lápis colorido, garatujas de um moleque qualquer que devia levar uma surra de vara ou arder no fogo infernal; um Cahetes, 1933, do qual só resta o primeiro caderno.

 

Há um nome, também. Era apenas uma rubrica, EV. Não sabia quem era o sujeito, não o conhecia. Apenas vi, numa edição da História dos Velhos Tempos Lusitanos, de um certo Frei Marcelino Gusmão de Moura, publicado em 1798, a marca a caneta, EV. Uma noite, insone, sussurrou-me: sou eu, Evaristo Veiga; tive uma grande biblioteca, uma série infinita de raridades, agora perdidas; conheci uns e outros, correspondi-me com escritores, ganhava livros, escrevia críticas para um jornal paulistano, A Hora, fui lido e comentado e, finalmente, como acontece com todos, fui esquecido. Não resta sequer uma linha biográfica nos livros a meus respeito. O resto, o que desejas saber de mim, é um mistério que cabe somente a ti desvendar. Evaristo Veiga. Conheço um, mas não pode ser o mesmo. Este meu EV tem livros do século XX; aquele outro foi jornalista, nascido em 1799 e falecido em 1837, lutou pela independência e deve ter feito umas outras coisas mais, pois que a vida não se resume em duas datas e em uma única luta. Um nome sem rosto – apenas com uma imagem, ainda rota, imperfeita, desfocada: o ex-libris, um desenho de um pássaro qualquer e uma frase em latim, ainda ilegível. EV.

 

E uma viagem que só pode ser a Lisboa. A avenida passeia ao lado de um rio (não o Tejo, o Tejo está em todos os lugares, em todos os livros. Que rio poderia ser?); sol terrífico; a cidade quase sem movimento. Há, claro, duas quadras depois do campus da Universidade, uma livraria, mas esta não tem porão nem ratos: limpa, arejada, organizada, um homem calvo metido em calças cinzas (não noto a camisa; usa gravata) e óculos de aros finos, dourados, caminha até onde estou e mostra livros, livros, livros. O objetivo da viagem – e desta nova livraria – não tem relação com o mistério. É um porto de passagem onde nada deverá acontecer de importante. Uma hora depois, mais três quadras, ou quatro, a Biblioteca Nacional – e ali, uma surpresa, relacionada com o mistério. Mas não sei, ainda, qual seja...

 

Três cenas, apenas, de momentos diferentes de alguma coisa que se recusa a emergir.

Escrito por Fabio às 04h15 PM.

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Nunca me recordo de uma melodia, por mais simples que seja; ou, acaso me recorde, consigo alterar completamente o ritmo, transformando a Pastoral de Beethoven em algo parecido com um mugido. Daí a incompetência para aprender a tocar qualquer instrumento.

 

Na verdade, apenas sei tocar, inteirinho, o Der Ring des Nibelungen, de Wagner, na campainha.

 

Mas alguém sempre abre a porta antes de terminar a abertura do Ouro do Reno e tenho de sair correndo.

Escrito por Fabio às 02h33 PM.

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Incongruências


As pessoas que defendem com unhas e dentes o direito ao aborto são, o mais das vezes, contrárias à pena de morte. Há uma lógica qualquer aí que me escapa. Dizem que matar um ser humano no útero é uma atitude que evita uma série de desgastes futuros, como a rejeição da criança pela mãe – mas que matar um serial killer qualquer é desumano.

 

Abomino um e outro. Abomino a atitude cruel do governo ao publicar uma norma segundo a qual não mais é necessária a apresentação de um Boletim de Ocorrência para que uma mulher cometa um crime num hospital público, assim como condeno a mademoiselle gillotine ou o fuzilamento. Abomino ainda mais a atitude deste governo ao exigir que instituições públicas devem ter profissional que não manifeste objeção de consciência em relação ao aborto. Isso, depois de o Conselho de Medicina afirmar que o médico pode se recusar a praticar o crime – o que não seria um desrerspeito à lei.

 

Mas o que quero mesmo é deixar transcrito um belo argumento de Gostavo Corção. Troca-se Suíça por Brasil e Pontiac pela marca de automóvel de sua preferência, amigo leitor, e veja como é clara e cristalina a aberração que vivemos:

 

“Por falar em aborto, ouvi dizer que na Suíça tornou-se legal. Não sei detalhes. Não sei em que circunstâncias, pelos quatro cantões da Suíça, tornou-se admissível matar a criança que teve a impertinência de britar num ventre de moça. Imagino que os suíços, que são reconhecidamente um povo ordeiro e asseado, e sobretudo muito deferentes com os turistas, tenham descoberto excelentes razões para assassinar pequeninos suíços. Uma das razões que imagino seria a seguinte: mata-se a criança excedente para o bem da pátria e da família. Um pouco como se queima o café, para valorizá-lo. De uma senhora, que tem um Pontiac verde-claro, já ouvi dizer que se justifica “não guardar” para manter o “padrão de vida”. Não se guarda a criança para guardar-se o Pontiac. Outra senhora, um pouco menos desvairada, alega que fuzila a criança não nascida em benefício das outras já nascidas.

 

Esses argumentos chegaram aos ouvidos de meu amigo Álvaro Tavares que sugere uma emenda para a teoria dessa senhora que mata um filho em benefício de outro: admitindo que se deva matar um para benefício da família e da sociedade, devemos deixar a criança nascer, e, mais tarde, num conselho de família, escolher a criança mais feia, ou a  mais bronca na tabuada, ou a mais birrenta na mesa, e então executá-la para o maior bem da família e da pátria.” (Dez Anos, Rio de Janeiro: Agir, 1957, p. 20)

 

E eu, que sou nada perto de Corção, arrisco outra emenda, somada a esta, brilhante para a saúde pública: além de executar a criança, a família, que deve passar por tantas grandes dificuldades de sobrevivência, inclusa a fome, pode também assá-la com batatas e servir num lauto jantar para a comunidade. Revelaria, assim, o seu caráter progressista: apoio incondicional aos delírios governistas e participação no Fome Zero...

Escrito por Fabio às 03h14 PM.

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Manual de Redação


A onda é antiga: todos os jornais têm o seu manual de empulhação, o que causou um terrível desajuste mental nos jornalistas. Verdade: existiu um tempo no qual os jornalistas falavam – e não só falavam, mas, impressionante!, pensavam. Já usavam gravatas feias, mas isso era perdoável, na medida em que conseguiam articular muito bem o seu texto. Acredito que esse horror – hoje é considerado um horror escrever bem nos jornais – acontecia porque eles liam. E quando uma pessoa lê, vocês sabem, torna-se, imediatamente, melhor. E quando a mesma pessoa abre a Folha, torna-se, fato comprovado cientificamente, algo parecido com uma drosófila.

 

***

Esta a razão, aliás, de vivermos num país tão chinfrim. Uma pesquisa recente (não vou procurar o linque nem a fonte certa – não é esse meu papel e o leitor pode muito bem procurar sozinho) revelou que a elite brasileira lê, em média, meio livro por ano. Meio livro! A outra metade deve ser arrancada da encadernação e arremessada pela janela ou servir de forro para a casinha do cachorro. A pesquisa não explicou o que esta tal elite faz com a outra metade, mas estou certo que boa coisa não deve ser. Claro, isso depende de quê significa, ao certo, o termo “elite”.  Cá para mim, a palavrinha representa aqueles que produzem qualquer matéria dita intelectual, jornalistas inclusos. Assim, a elite é formada por todos aqueles que saíram das universidades, que passaram quatro ou cinco anos nos seus bancos, que estudaram, supõe-se, o conteúdo necessário para que se tornassem o que são. O que é preocupante, muito preocupante, já que sabemos o que são. E, se a elite lê tudo isso, o que o Presidente lê?

 

***

Intolerável ler qualquer artiguinho da Folha de São Paulo, ou do Estado, ou do Globo, ou do Jota-Bê. Excluídos, em princípio, aqueles jornalecos Agora, Jota-Tê, e outros da espécie. Não digo emburrecedora – todos o são. São, pior, parciais no que publicam, e ainda não compreendo como as críticas políticas ao nosso (des)governo conseguem ser tão, mas tão, levezinhas, se comparadas às feitas a outro, que agora apóia o Lula, Collor de Melo. Lembro que a mídia toda simplesmente colocava Fernando Collor estampado nas primeiras páginas, faltando só os chifres, o rabo pontudo e o tridente. A única culpa do ex-presidente era a de ser brega e ter casado com uma mulher de mau-gosto. A culpa atual, além da breguiçe de Lula e do mau-gosto da primeira-dama, é muito pior, mais arraigada à natureza troglodita do ilustríssimo representante desta republiqueta de fim de mundo. A única vez que vi os jornalistas se levantarem (alguns) contra a política que nos rege, foi quando da proposta do Conselho Federal de Jornalismo. Não mexa conosco, diziam, e te deixaremos em paz. Deixaram.

 

***

Jornalismo é, aliás, uma profissão estranha. Melhor: exige uma formação estranha – os pobres passam quatro anos dentro de uma faculdade que não serve para nada. Sei de cátedra. Saí, mea culpa, de uma faculdade de comunicação social, anos passados. Inútil. Sim, é inútil aprender como escrever um roteiro para tê-vê, para a rádio, para o raio. Coisa de analfabeto funcional – que é aquela espécie que bate o ponto na escola analfabetista do mundo. Qualquer capiau com QI abaixo de 30 é capaz de escrever um roteiro. Qualquer um com o dito abaixo dos 40 escreve uma matéria para a Folha. Queria ver o Dimenstein escrever alguma coisa com a importância de, digamos, Grande Sertão: Veredas. Os Sertões não vale, foi escrito pelo Euclides, o da Cunha, um jornalista que sabia o que fazia. Mas isso faz muito, muito tempo. No tempo em que os jornalistas falavam. E pensavam. Ah, claro: e escreviam.

Escrito por Fabio às 01h41 PM.

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Sonetinho Universal do Reino da Grana


(ao modo do velho Gregório)

 

Faz da igreja um grande mercado.

E da fé do fiel? — Um pardieiro!

O que ele é? — Um imenso safado

Que só pensa em tirar o teu dinheiro!

 

O que merece? — Por grades cercado!

Engana a muitos? — Ao mundo inteiro!

Mas não tarda isso lhe será cobrado,

Por fazer do cristianismo um puteiro!

 

E a fé verdadeira? — Ela definha...

Trabalha muito? — Acorda bem cedo

Pensando na grana da sacolinha...

 

Esfrega as mãos, sorrindo mui ledo,

E fareja o lucro que se avizinha:

Assim é a igreja do Edir Macedo!

Escrito por Fabio às 09h45 PM.

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Resolvi


que serei politicamente correto daqui para a frente. O negócio é que andei observando as contratações nas diversas universidades país afora (e adentro, muito adentro) e percebi que, um: só contratam para aulas de literatura quem não sabe escrever ou, se o sabem, fazem-no de modo quase taquigráfico e sem estilo; dois: todos, todos apenas repetem aquela ladainha de sempre de todos os cursos de literatura de sempre, com os altos elogios aos de sempre, mário de andrade e seu oswald e, na poesia, cacaso e leminski, que é nome de ração para cachorro; três: apenas conseguem as vagas quem não lê, absolutamente não lê, Dr. Alceu e Corção e quem não tem conhecimento de filosofia – de filosofia de verdade, Platão, Aristóteles, Agostinho e Tomás de Aquino, podendo entrar Boaventura e pitadas de outros na receita –, já da pseudo-filosofia do velhinho maluco alemão, nietszche (saúde), de sartre e sua escrava sexual simone, os pós-isso e pós-aquilo, conhecem bem – o que é o mesmo de conhecer nada; quatro: todos defendem as minorias, elogiam o eme-esse-tê-salamê-mingüê, e acreditam que a universidade é para todos; cinco: todos repetem as mesmas bobagens que aprenderam na escola e continuam embutindo a mesma cantilena idiota sobre a direita na mente dos aluninhos desajustados, não por culpa deles, alunos, mas deles, professores; seis: sentem-se responsáveis pela ação comunitária, acreditando que irão desenvolver isso e aquilo se fizerem aquiloutro, jurando de pés juntos que ao professor cabe um papel transformador da sociedade.

 

Sim, serei politicamente correto. Porra.

Escrito por Fabio às 12h47 PM.

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O Gostoso é ser Reaça


Ou, pelo menos, é divertido. Nenhuma intenção ideológica – apenas aquela postura de sempre, de ser contra o que está aí, seja onde ficar esse . É bom criticar as supostas políticas sociais do pt saudações, inoculadas nas mentes dos meninos recém-saídos dos cueiros escolares e ingressantes nas universidades. Falar mal do eme-esse-tê, por exemplo: que é um grupo terrorista formado por bandidos que desrespeitam a constituição, o tal direito à propriedade, e ainda por cima é protegido pelo planalto, essas coisas; e terminar com um “fosse eu fazendeiro, teria uma guarda particular armada – e fogo no primeiro que pisasse na minha terra sem autorização”. Olhinhos arregalados, revirando nas órbitas. Alguns chegam a tremer. Um ou outro quer discutir.

 

Meter o pau no prounidunitê também traz felicidade, momentânea é certo, mas ah!... Se juntar à crítica uma outra, contra as tais cotas raciais, então, o tal tremor transforma-se em uma leve espuma saindo dos lábios. Mas e o direito dos pobres, dizem, e o direito de todos entrarem na universidade. E você, languidamente, breve sorriso: se têm competência, ótimo; caso contrário que vão encostar a barriga no balcão que é uma forma honesta de se ganhar a vida. Ajuda a citação de Paulo Francis, para aumentar o horror: universidade é para formar elites, não para dar diploma para pé rapado.

 

Elogiar os Estados Unidos e declarar apoio à guerra que derrubou saddam é ótima medida para chocar os tolos. Afirmar, com dados estatísticos, que o número de vítimas inocentes depois da invasão e conseqüente derrubada do tirano é ínfima perto da quantidade de ossadas, até de crianças, encontradas em cemitérios clandestinos, de pessoas assassinadas pelo regime, causa uma certa tempestade cerebral que torna os seus interlocutores algo menos que samambaias no que se refere ao quesito argumentação. A justificativa que tentarão sempre cai num “toda a guerra é injusta e absurda, nenhuma vale a pena, é sempre terrível a guerra, etc.”. Uma pergunta: a segunda guerra foi desnecessária? Duas: a coalizão ocidental para acabar com hitler foi injusta? A espuma nos lábios transforma-se em baba. Para o golpe final, resta apenas dizer que agora só falta derrubar o fidel e bombardear a coréia do norte. Utilizar o termo América e americanos no lugar de Estados Unidos e estadosunidense também vale.

 

Mas nada, nada choca mais do que condenar o aborto e o casamento gay. É algo como discriminar, algo como violentar os direitos individuais das pessoas. As fêmeas horrorizam-se, se forem daquelas frustradas (toda feminista é frustrada), alegando um tal direito de escolha. Os meio-machos desfalecem te chamando homofóbico. Aqui cabe mais um item interessante: ser contrário à discriminalização das drogas e dizer que o usuário, tudo bem, não precisa passar uns tantos anos na jaula – mas um sustozinho na delegacia não cai mal. (Não, não! Tem uma coisa que choca mais que isso: falar mal das o-ene-gês da vida. Qualquer o-ene-gê. Dessas da espécie viva rio, greenpeace, projeto de combate à fome, ambientalistas defensores da terra. Juntinho a isso, meter o pau no betinho, no guevarinha, no fidelinho, no boffinho).

 

E falar mal de índio. Uma das pequenas delícias da vida. Defender que as terras não deveriam ser demarcadas e, caso os ditos quisessem mesmo uma terrinha, que pagassem o devido imposto. E que tirassem o tal RG. E que fossem obrigados a votar. E a prestar serviço militar. E que plantassem direitinho ao invés de contrabandear madeira nobre para a Europa e aos Estados Unidos.

 

Assim, acaba-se por ganhar aquele rótulo tão bonito, um elogio quando parte do idiotismo da esquerda: o sujeito é um reaça. E você, só você sabe o quanto é bom ser reaça quando se está coberto de razão.

Escrito por Fabio às 01h27 AM.

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