
A primeira, importantíssima, é que a minha ausência desta página deveu-se à “síndrome de final de semestre” que todo professor enfrenta. O sufoco das provas e trabalhos, das correções e das reuniões, disso e daquilo. Soma-se a este fim de partida o trabalho – que não esperava em tão pouco tempo – que a Pasárgada Livraria Sebo me impôs. Sem reclamações – pelo contrário, é um prazer raro para quem ama os livros. E procurá-los, avaliá-los, vendê-los tem se revelado um pequeno oásis neste mundinho inviável.
Mais: acabo de inaugurar o site da Pasárgada. É só clicar aqui – e ficar à vontade. Há, no item “Obras Raras” algumas coisas especilíssimas para colecionadores. Dêem uma olhada que vale a pena.
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A segunda notícia é de pasmo e irritação. Sabe-se que muitos dos tais doutores que abundam pelas universidades servem para pouca coisa. Mas isto que li na Ciência Hoje me deixou pasmo. Como assim, as propagandas contra as drogas apresentam um discurso autoritário? Como assim a relação dependente-droga-morte é “alarmista e intimidador”? A senhora pesquisadora Arlene Lopes Sant'Anna tem algum problema muito sério – apesar de afirmar que pretende contribuir para uma nova política de prevenção, a matéria simplesmente ressalta uma postura pré-conceitual tola e vagamente estúpida. Isso que dá apoair-se na semiótica (uma espécie de miopia intelectual) e em Greimas.
Pode parecer desanimador este mundo, quando o olhamos atentamente e percebemos que os seus rumos cada vez mais adentram no desespero do puro utilitarismo. Pode parecer, também, que não há saída – que eles, os vilões da História, venceram, e que as vozes de resistência contra a estupidez intelectual foram definitivamente caladas. Pode, inclusive, parecer que qualquer tentativa lógica de argumentação contra a barbárie cairá, quando muito, no olvido das ideologias – e que ecoará, apenas, nas mentes doutrinadas. Mas tudo isto será mera aparência, pois as essências estão vigilantes e, aos poucos e com força, ganham terreno e nos trazem um pouco daquela luz que julgávamos já apagada. Não se trata de um grito que reverbera, sequer que um movimento de ira. Pelo contrário, trata-se do exemplo quase silencioso, doce e cândido, de que há, ainda, razão suficiente no homem para possibilitar a busca de uma formação integral e digna. Não, não estamos sós.
Trato apenas de um livro – do Livro – que deve ser lido paciente e intensamente; melhor: não deve ser apenas lido: deve ser estudado, refletido, anotado. Um livro que exige do seu leitor um comportamento ativo (como deveriam ser todos os livros, mas enfim) – e ativo numa dupla concepção: a de quem se debruça sobre o volume para aprender; e, depois, de quem se debruça sobre a vida para aplicar o que aprendeu. Este o movimento que propõe A Educação segundo a Filosofia Perene, orientação para pais e mestres segundo Tomás de Aquino e Hugo de S. Vítor, escrito, editado e publicado por um homem simples e íntegro que faz de sua própria vida um exemplo de sabedoria e humildade (tanto que não assina o volume, apenas identificando-o com o endereço eletrônico que igualmente coordena, o www.cristianismo.org).
A Educação segundo a Filosofia Perene não é um simples manual, mas é um guia para a formação da inteligência. Chocando-se frontalmente com as modas acadêmicas e sua educação meramente utilitarista, propõe um novo rumo para a formação do homem: a formação integral do ser humano, pautada nos valores éticos e morais mais simples e lógicos que existem e que já eram conhecidos desde, pelo menos, Aristóteles. Aliás, esse resgate aristotélico, via filosofia tomista, nos remete imediatamente a outro belo livro sobre o assunto: Rumos da Educação, de Jacques Maritain. Esta Educação e este Rumos são, ao meu ver, livros gêmeos, o primeiro desenvolvendo e aprofundando o segundo.
Parte-se de uma questão simples: qual o fim último do homem? Como ele pode, afinal, alcançar a felicidade? Descartadas a deleição corporal, a riqueza material, a mera operação artística, a simples operação das virtudes morais (necessárias, é certo, para a convivência humana em sociedade, mas insuficiente para a totalidade do ser), resta – o quê? Para a visão utilitarista pragmática, no pior sentido da expressão, excluir aquilo que poderia nos tornar mais felizes pelo exercício do prazer enquanto prazer, parece uma inversão completa de valores. Mas esta aparente inversão é causada pelo fato de o ser humano ter abandonado, há tempos, uma espécie de lógica que o tornava melhor em si, entregando-o a aparentes deleites que apenas o escravizam. O homem tornou-se fruto do hedonismo – e o hedonismo o domina; o homem viu-se envolto a milhões de possibilidades de dispersão de si mesmo, abandonando a sua própria condição e tentando tornar-se, por substituição da sua consciência, outra coisa qualquer – tornou-se apenas um ser fragmentado que muda dia-a-dia de conceitos, adotando apenas aqueles que se lhe justificam a vacuidade moral. Qual, então, a resposta?
A resposta é dada por Tomás de Aquino: o fim último do homem é a felicidade – e a felicidade é inerente à relação entre Criador e criatura na medida em que a busca constante de Deus faz com que nos utilizemos daquilo que nos foi dado como Dom: a inteligência. E este o fundamento de todo o livro: desvelar aquilo que foi velado por séculos de racionalismo cientificista – que há, além da realidade material que nos cerca e nos impulsiona em busca do prazer e do status, uma outra realidade, com a qual partilhamos a nossa própria essência – uma realidade divina e divinamente organizada que nos impulsiona, sem que o percebamos, para o caminho Justo, Bom, Belo e Verdadeiro. É o que afirmou Aristóteles, logo nas primeiras linhas de sua Metafísica: surgirão inúmeras ciências mais úteis do que esta, mas nenhuma lhe será superior.
A superioridade do Homem, afinal, dá-se por sua condição de ser inteligente. E sua ação só poderá ser útil para o mundo na medida em que esta inteligência seja exercitada no sentido correto. O livro como um todo, apesar da aridez dos temas tratados, é escrito com a pena de um mestre: as explicações dos conceitos tomistas mais complexos tornam-se claras e lógicas, causando a sensação de que nós, de alguma forma, já sabíamos daquilo tudo, mas que teimamos em esquecer o óbvio.
1) Não podendo sair do Fahrenheit 451 (onde os livros eram proibidos e um grupo de pessoas começou a decorá-los e quem decorava um livro passava a ter como codinome aquele livro), que livro quererias ser?
A Demanda do Santo Graal, por motivos óbvios.
2) Já alguma vez ficaste perturbado/apanhado por uma personagem de ficção?
Constantemente, desde a minha terna infância – ou um pouquinho depois. Na pré-adolescência, apanhavam-me Hercule Poirot, Gulliver (em adaptação publicada pela Abril, nos idos de setenta-e-tantos), os Irmãos Corsos, ambos. Depois, já na adolescência, que é uma doença que dura tempo demais e o pobre não se localiza de jeito nenhum no mundo e sofre com a profusão hormonal ora sentindo-se o mais rejeitado dos seres, ora o mais heróico e galante, sentia-me às vezes Quasímodo, noutras, Philip Marlowe. Hoje tenho ganas de Brás Cubas, de Ralskonikov, de Quixote. Mas depende muito do estado de espírito. Neste momento estou mais para Cliff Janeway, do Impressões e Provas, de John Dunning.
3) O último livro que compraste?
Ah! pergunta cruel! Ah! questão insidiosa que tende a abalar os meus nervos – e despertar os apetites mais luxuriosos e compulsivos! Os demoniozinhos que me acompanham andam sombrios e foribundos pela carência livresca! O que andei comprando foram uns tantos volumezinhos para alimentar o acervo da Pasárada Livraria (e-mail, aqui): um Thomas Merton, Sob o Signo de Jonas, diário do monge trapista em seus primeiros anos de formação no mosteiro de Getsêmani; dois Flaubert, em francês, Sallambô e Trois Contes (uma pequena pérola, este); um Júlio Cortazar, Prosa do Observatório. Sempre gostei do Cortazar. Para meu deleite pessoal, apenas dois Maritain, A Igreja de Cristo e Da Graça e da Humanidade de Jesus. Sim, e uma edição muito boa das Correspondências entre Abelardo e Heloísa, em edição bilíngüe, belo-belo.
4) Os últimos livros que leste?
Lidos ou relidos, já que dizem, ou diz Umberto Eco, salvo engano, que os livros apenas se relêem: S. Bernardo de Claraval, de Albe J. Luddy, razoável biografia do Santo, que vale mais pelas cartas e longos trechos dos sermões; Inteligência e Pecado em S. Tomás de Aquino, de Celestino Pires, edição velhiíssima que andava perdida aqui nas estantes há mais de ano; Auto de Fé, de Canetti, do qual apenas gostei; As Grandes Amizades, de Raissa Maritain, que dispensa comentários; Caminhos para Deus, de Jacques Maritain; de novo A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset, um dos livros de cabeceira; Doze Tipos, de Chesterton; Dom casmurro, do nosso Machado de Assis, sempre belo e sempre obrigatório; um livro sobre Maritain, organizado por Alceu Amoroso Lima; A Coleção Particular, de Perec, que a crítica incensou e apenas conseguiu me encher de tédio; Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, de Mário de Carvalho, ótimo autor português, e, na seqüência, também dele, A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho e Era Bom que Trocássemos umas Idéias sobre o Assunto; meti-me, na seqüência, com Antonio Tabucchi, italiano que escreve também nessa nossa língua portuguesa: Os Três Últimos Dias de Fernando Pessoa, Réquiem, Sonhos dos Sonhos; Hídrias, de Dora Ferreira da Silva, poeta admirável e pouquíssimo lida. Deve ter uma ou outra coisa mais por aí, perdida.
5) Que livros estás a ler?
As Confissões, de Santo Agostinho, nova releitura; A Educação segundo a Filosofia Perene, iniciado há semanas e vencido lentamente; Sob o Signo de Jonas, de Thomas Merton. E, soltos, contos de Borges e Machado de Assis, poemas de Gerardo Mello Mourão e Baudelaire.
6) Que livros que levarias para uma ilha deserta?
1001 Receitas de Coco, Conhecendo-se a Si mesmo (acompanha um espelhinho) e O Kama Sutra do Solitário. De verdade: nada de manuais de construção de jangadas, que muita gente já respondeu isso, numa ânsia de voltar à convivência humana. Levaria A Divina Comédia, de Dante; os três volumes da Obra Completa de Machado de Assis; os escritos de Teresa d’Ávila em um volume; Borges, a obra completa; os Sermões, do Pe. António Vieira.
7 ) Quatro pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?
Waaaaal, difícil escolha, já que todos os que conheço já receberam este questionário. Vejamos: Rodrigo Della Santina, que é um bom leitor e poeta; Jayro Luna, colega de profissão - e também poeta; Fabiana, artista plástica – e que tem poetado, bem. Se faltar uma quarta pessoa o que acontece? Uma horda de petistas ululantes invadirão minha casa?