
Andam soltas as feras no planalto
esbravejando a favor da inocência
do Lula – que já perdeu a decência
e se equilibra ébrio de salto alto...
Uma cachaça aqui, um assalto
de milhões que negam toda prudência
- em malas e cuecas (ah! a decadência...)
De bom juízo o Presidente é falto.
A corja de Brasília, a esperteza,
o povo ainda cego, a ética ria!
Dirceu e Delúbio saem à francesa
enquanto o mundo à sua volta ardia...
Não, leitor! não te cause tal estranheza:

A cada dia me deparo com um sentimento que, eu sei, não é dos mais positivos: o descrédito com a espécie humana. Não, não estou em uma fase schopenhauriana ou nietszchiana – à força de muita leitura de Platão, Aristóteles, Agostinho e Tomás de Aquino, consegui afastar-me de tolices do pensamento e firmar-me, ainda que pouco, com os pés numa sólida rocha filosófica.
O descrédito deve-se a um fato – direto, simples, duro, cruel: o comportamento de barbárie do ser humano. Explico, explico – e não precisarei explicar muito, já que o fato esteve, está, em todos os jornais de hoje, pela tv, com direitos a gritarias contra a violência e festejanças de campeonatos conquistados. As festejanças ficam de lado – não me interessam e nem gosto de futebol. A violência afetou-nos, a Ana e a mim, diretamente nesta madrugada.
Coisa de 2:00, estávamos acordados, frente ao computador, quando nosso apartamento, a uma quadra da Av. Paulista, foi atingido por projéteis em forma de pedras graúdas. Lá embaixo um grupo de torcedores do São Paulo, o tal campeão, atiravam pedras e quebravam nossas janelas. Gratuitamente, sem mais.
Não é a despesa que me preocupa. Preocupa-me mais a leitura pseudo-sociológica para uma tentativa de explicação de comportamentos animalizados. Juro, vi isso na tv: os rapazes apenas vingavam-se de sua condição social agredindo aqueles que moram num “bairro rico” – e por isso destruíram bancas de jornal (que é a garantia de sobrevivência de muitos), quebraram lojas (idem), agências bancárias (ibidem) e os vidros dos apartamentos de nós, “representantes da elite”. Que raio de elite, seu? Até onde sei ando male-male segurando as pontas econômicas – e elas quase sempre escapam. É uma inversão mórbida de valores uma explicação que se pauta na tal desgastada luta de classes. Não há “classes”, há humanidade. Agüentamos, isolados, temerosos, recolhidos, sem a chance mínima de erguer a voz contra uma agressão.
(sobre a poeta Dora Ferreira da Silva)
Há algumas considerações sobre a ars poetica que são necessárias: uma, que dizem as más línguas que a poesia está morta – e junto com ela toda a nossa literatura. Confesso que, por vezes, tenho esta mesma impressão – mas é uma impressão que se mostra falsa, depois de tomarmos contato com a obra de alguns escritores daquilo que chamarei “resistência” frente à tolice absurda (e obscura) que tem sido eleita como uma voz de alto calibre entre os nossos tais “entendidos nas belas letras”. Outra, que a poesia, por mais que os tais afirmem ter falecido antes tarde do que nunca, continua, para surpresa dos homens e das gentes, vivíssima e passa bem, obrigado.
Os entendidos, são, ou promovem, quando muito, malentenedidos que desprezam o prazer do texto e elegem aos píncaros da glória uns tantos autores sem-sabor e sem-gosto estético...
Pois que o gosto e o sabor estão preservados – mantêm-se e se sustentam, aos trancos e barrancos, com esforço e com persistência. Ao tratarmos da poesia, esta arte quase esquecida num mundo de visões rasas e pragmáticas, a impressão que se tem é de que o gosto duvidoso dos críticos representantes das altas esferas acadêmicas é a norma e o tom a ser seguido. Não por acaso que uma poeta como Dora Ferreira da Silva mantém-se, apesar de todos os seus anos de vida – e outros tantos de literatura de alta qualidade -, mantém-se, eu dizia, à margem da crítica e à margem dos estudos acadêmicos.
Dora Ferreira da Silva. Um nome que me remete a descobertas pessoais da tal poíseis, o fazer poético, o olhar sobre o mundo que nos cerca de modo não-ingênuo, não-centrado na repetição de uma série de dogmas que apenas facilitam o comportamento cotidiano. Uma palavra, um gesto, um murmúrio são suficientes para revelar (re/velar) todo um universo inédito, novo, inaudito, que nos cerca. E este universo é aquele, antigo, bebido das fontes gregas platônicas e aristotélicas, homéricas e da nossa bela Safo, aquele que rege nossa cultura e que teimamos, ainda, em obscurecer com o uso de uma lógica cruel de existência. Um universo que se expande do cotidiano para a antigüidade, ampliando as sensações e escapando da lógica que nos oprime. Dora, senhora Dora, amiga pessoal de Guimarães Rosa (“O velho Guima”, como o chama), amiga da palavra e do sentimento – esta Dora, esta Ferreira da Silva que tem em si mais do que os usos pós-qualquer-coisa da moda: A Dora Ferreira da Silva que resgata, breve e cândida, a palavra que envolve e enola o sentimento da verdadeira poesia. Da poesia que faz falta à nossa existência.
Curva-se a Cabeça...
Curva-se a cabeça anelada
e entra no coração da rosa.
Chama-a um destino de pétalas
nascidas da Noite para o Dia.
Parecia uma ilha largada
no mar de todas as coisas:
o profundo a unida.