
Aos meus leitores: a partir de hoje transcreverei aqui os poemas em prosa do livro Animaquia, publicado em 1997. Muita coisa, talvez, mudaria; mas a essência persiste – de uma época, de um período, de um momento. A Vida, enfim, é feita, passo a passo, dessas coisas. E quem serei eu para discordar de um passado que inda marca?
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A Ana, pelos sons e silêncios abissais do seu corpo, que se negam e revelam o íntimo mistério.
1.
Mas que de repente desfez-se a luz em Luz plena. Em explosões de fogos e sinto a grama úmida nas minhas costas — penetrando-me em poros, atingindo as veias. O salto se faz: folhas caem dos topos. Estremeço e enlouqueço escutando a Sinfonia Vermelha.
2.
Olhos e sombras; saídas e odores e velas. Do barro à palha pouco passa do metro. Não alto, apenas o sentir-se envolta pela penumbra e, próximo, teu corpo. Perfume: sombras e rosas, a grinalda preparada para mim; não olho, sei que estás acordada e mergulhada no horror da ternura encontrada em meus lábios.
3.
Durante, o suor e as bocas — são três as bocas. O jogo fundamental da Busca. Línguas: o mundo torna-se uma babel sensitiva e sereníssima: compreensão do mesmo sangue e paredes ásperas: odores fortes, insetos nas paredes. O musgo roça a nuca.
4.