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De Volta às Letras


Deixemos um pouco as mazelas políticas de lado. De nada servem, ao fim e ao cabo, já que as pesquisas últimas apenas me atormentam (LuLLa ganha no primeiro turno, Serra o sumido idem, no Rio Crivella atolado em corrupção tem grandes chances, Garotinho vice no pê-eme-dê-bê e loisas afins) e de tal modo que a ira custa a passar. Tenho ganas de chamar os brasileiros de estúpidos, mas basta chamá-los brasileiros, assim mesmo, com minúscula. Voltemos às Letras, sempre mais belas e consoladoras.

 

Passei anos em busca da História de Amor de Fernado e Isauda, de Ariano Suassuna, que teve, até anteontem, uma única edição, de 1994 (o romance foi escrito em 1956!), no Recife, pequena-pequena e impossível de se encontrar. Mexo em casa de marimbondo. Há quem ame de paixão Suassuna, com sua simpatia e conversa mansa, sorriso aberto e tranqüilidade de uma serenidade semi-monástica, evitando ao máximo de sair de sua cidade para viagens aventurosas à barbárie do Sudeste; há quem o odeie, por outros motivos: pela sua intransigência ao tratar da cultura brasileira que deveria seguir uma coisa fascistóide chamada brasilidade, e sua defesa de uma certa língua brasileira que, confesso, não sei bem o que seja, já que falo Português; a paranóia chega a tanto que chamada o criador do Mangue Beat, Chico Science, de Chico Ciência, um brasileirismo de gosto duvidoso. Dizem, até, as más – e as muito boas, principalmente, línguas que ele, o Escritor, apelava para verdadeira censura quando secretário de cultura do Recife ao se deparar com alguma proposta que não seguia a sua Armorial ideologia. Enfim, não brigo. Aprecio pouco as idéias sobre cultura do velho Suassuna – mas não deixo me contaminar por isso. Gosto de suas obras – e basta.

 

E gosto das suas obras (eis uma confissão) por razões emotivas. Representei, nos tempos de garoto – 17, 18 anos, tanto passado meu Deus! –, o Auto da Compadecida, no papel injustamente excluído da minissérie e do cinema, do sacristão, e O Santo e a Porca, re-leitura, re-visão d’O Avarento, de Molière, onde fiz o papel do Euricão Árabe, Euricão Engole-Cobra, um pão-duro daqueles digno de análises freudianas baseadas no período anal. Fui bem (nova confissão), mas abandonei o teatro logo depois de um fracasso que nada teve a ver com o assunto desta semi-crônica. O fracasso deveu-se à incompetência e disputas de ego, sempre presentes em grupos de teatro, ainda que amadores (e chamar meu, nosso, grupo “amador” é, no mínimo um elogio exagerado).

 

No entanto, encontrei o livro por tanto tempo demandado. Não a primeira edição desejada, mas esta nova agora lançada pela José Olympio. E por acaso, mero acaso. Esteve em casa meu irmão Rodrigo, o Della Santina, com sua amada Fabiana. Determinado momento da noite, percebi que o vinho não seria suficiente (nunca é, vocês sabem bem disso) e fomos, os dois, ao mercado. O mercado fica logo depois de uma livraria que não digo o nome, já que não recebo um tostão pela propaganda; bom motivo para uma olhada na vitrine e essas coisas que nós, mortais, gostamos de fazer para torturar nosso desejo e sofrer de angústia ao ver lançamentos dos bons. Rodrigo me disse: li no jornal que será lançado hoje o Romance de Fernando e Isaura – e não terminou a frase, não deixei. Pela vitrine vi os parcos cabelos brancos e as sobrancelhas de Suassuna. Bastou. Suficiente. Horas (exagero dramático permissível numa crônica) na fila e o prêmio. Aqui ao lado, enquanto escrevo, está o livro, belo-belo, dedicado a minha doce Ana e a mim (Para Ana e Fabio, com o carinho e o afeto de Ariano Suassuna. São Paulo, 24.V.2006). Lido em quatro horas, ontem. Quatro horas de deleite.

 

Os livros causam isso em mim. Deleite, prazer, sensação metafísica de êxtase. Nada do que a política seja capaz. Os livros me elevam a esferas especiais – a política me arrasta pelo lodo insuportável da mediocridade. Os livros me desligam do mundo – a política me faz mergulhar nele, miseravelmente. O leitor escolha. Eu já fiz a minha.



Escrito por Fabio às 04h51 PM.

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Vidas Paralelas


Gostaria que este texto fosse realmente um parecer pessoal sobre o livro de Petrônio, que comparou a vida de César e Alexandre (aquele, o Grande). Mas, já disse um sábio há tempos: cada povo tem o governo que merece – e não sou ninguém para discordar disso, ainda mais que o nosso governo é legitimamente eleito pelo povo, a tal democracia que é tão defendida e está em todas as bocas, de modo suspeito. Para mim é claro: se há a necessidade de se repetir com insistência que o Brasil é um país democrático – e se esta frase tão simples sai das bocas dos asseclas do PT – é que alguma coisa de errada acontece. Assim, não me parece possível traçar de modo grandiloqüente vidas paralelas de nossos líderes, sempre tão mesquinhos, tão mínimos, tão ínfimos. Não tivemos ninguém que merecesse o título de Caesar ou de o Grande em nossa vida nacional. Quiçá D. Pedro II, mas ele está esquecido e apenas se tornou em nosso imaginário uma figura de longas barbas brancas paternalistas e olhar bondoso. De resto, ninguém sabe, ninguém se interessa. Resta-nos então – mas o assunto vale novo parágrafo.

 

Resta-nos então mergulhar na mesquinharia de nossos líderes, de nossos bravos líderes. E nesta última semana, ao que tudo indica, temos um que mal era conhecido pela população e que se encaixa perfeitamente no padrão para um comparativo de ações e de vidas. Saltam aos olhos as similaridades e as diferenças – pois que estes dois Grandes Líderes de que tratarei a partir de agora partilham a origem humilde, humilíssima poderia se dizer, de gente pobre e sem condições de sobrevivência. Ambos lutaram para chegar onde chegaram, ambos “cresceram na vida” (esse desejo tão pequeno-burguês); ambos, em sua terna juventude, lutaram contra a opressão do Estado, ambos foram processados e presos, ambos tiveram, em momentos diferentes, é verdade, seus problemas com a força policial. Ambos quiseram transformar o mundo pela violência.

 

Um, o mais recente deles, recém-conhecido, nos dominou e domina pelo terror. O Marcola dá inveja à Máfia e está muito bem instalado em seu QG, dando ordens via celular e advogados, pretendendo eleger deputados para representar o seu Partido, PCC. Nos anos de prisão, no entanto (e esta uma diferença com o outro Grande Líder do Povo, fundamental),  aprendeu e desenvolveu o gosto pela leitura: afirma, com toda a tranqüilidade do mundo, que tem em Dante Alighieri o seu escritor favorito – e se debruçou sobre a Divina Comédia, coisa que muitos estudantes de Letras sequer cogitam fazer; leu a Arte da Guerra, do Sun Tzu, que virou coisa de pseudo-empresário como leitura de auto-ajuda; e, mais importante, leu as obras políticas de Lênin (coisa que, creio, ninguém que esteja hoje no Governo Federal teve coragem de fazer a sério). Sim, Marcola é um leitor – e nem por isso deve ser louvado. Creio que conseguiu abstrair do Inferno as passagens mais cruéis para nos castigar, assumindo o papel do próprio demônio; e do Tzu e de Lênin, os métodos que, juntados àqueles aprendidos na cadeia, o levaram a perceber os movimentos estratégicos do terror. Enquanto o Outro Líder...

 

O Outro Líder, já conhecido há tempos, refastela-se no Palácio do Planalto, de forma não menos criminosa. Apóia eme-esse-tês da vida e considera os ruralistas os verdadeiros terroristas; suborna, financia, entra em conchavo com Chaves; lambe os ovos de Evo – e a Petrobrás que se exploda, literalmente, afinal o petróleo é, ainda, nosso. Este Outro Líder é brasileiro e não desiste nunca – e só não disse Brasil Ame-o ou Deixe-o por uma simples razão: não sobraria ninguém na terra brasilis. Se Marcola encarna o Terror, Lula encarna o Horror. Se o primeiro aproveitou seus dias de férias em nossas frágeis prisões para ler, o segundo orgulha-se, em plena abertura da Bienal Internacional do Livro, de que “ler é muito xato” (ele falou assim mesmo, com xis – eu ouvi); e, creiam, apesar do pasmo, sua, dele, mãe, nasceu analfabeta.

 

Estamos entre a Cruz e a Caldeirinha: entre a incompetência e o louvor à burrice e a inteligência voltada para o Mal.

 

Mas não desanimes: sou um pessimista crônico em se tratando de Brasil e da nossa capacidade política. Vai piorar. Crivella bate a 46% as intenções de voto no Rio; a Rosinha não é flor que se cheire, Alkmin ausente junto de Serra, o Lembo Lerdo é o limbo dos espúrios, nada há que nos tranqüilize. Nada há que nos reste.



Escrito por Fabio às 08h28 PM.

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Horrores


Sim, eu ia falar dos horrores de São Paulo, levantando a bandeira da incompetência dos políticos e coisa & tal – mas já li tanto sobre o assunto que me calo para não ser redundante. Apenas uma nota: viramos, somos, continuamos, vítimas não dos bandidos (destes, desde sempre etc.), mas da tal mesquinharia politiquesca da politicalha. Sem palavras de ordem, por favor.

 

Ia falar, mas não falo. Ia escrever sobre, mas abstenho-me para a minha saúde mental. Não consigo sequer, mais, assistir aos jornais. Nem ler blogs. Nem participar de grupos de discussão disso ou daquilo. Nem tentar defender grandes idéias. Não, não se trata de Vazio – mas de Fastio absoluto com este mundinho, agora sim, vazio. Prefiro os livros.

 

Mas minha ausência, sim, minha ausência. Os meus dois ou três leitores devem se perguntar por onde andei/ando. Waaaal, como dizia vocês-sabem-quem, andei por aqui mesmo, trabalhando como um camelo por três meses, ao mesmo tempo que convulsionava (literalmente), o que e fez parar de trabalhar depois destes três meses (por vontade alheia, diga-se). Agora, tento apenas ensaiar alguns rabiscos, umas frasezinhas soltas. Nada grandioso – sem novos poemas, sem novos contos. Mergulho na Ascensão e Queda do III Reich depois de três volumes de contos de Tchecov e folheio indolentemente a biografia de Stálin (A Corte do Czar Vermelho, que elogiaram muito, mas muito mesmo – e me parece apenas 850 páginas de fofocas bolcheviques, quem-comia-quem, aquela coisa). No mais: fechei a Pasárgada por não agüentar mais vender livros ao invés de lê-los. Um egoísta, eu sou.

 

Voltarei (?)



Escrito por Fabio às 04h33 PM.

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