
A cortina se fecha. Espetáculo findo. As recentes pesquisas me abismam, deixam-me com um gosto ocre na boca, o cérebro perdido entre dados que nada me dizem ou dizem demais dessa espécie suburbana que se tornou o Brasil: uma tola comédia de costumes na qual o povo se espelha na corrupção dos parlamentares. Faço parte da comédia, infelizmente: tenho ganas de sucumbir ao discurso do Voto Nulo, como se resolvesse algo. Mas, consciente, sei que não resolve, apenas corrobora o desejo de Poder de LuLLa e asseclas, quando repetem, com insistência, que o Congresso está corrompido. Não votar para Deputados é assinar sob o Xis de LuLLa – e justificar o golpe vindouro.
Sim, estaremos sob uma nova cuba e, a considerar as dimensões brasileiras, um cubão. LuLLa, eleito, não nos deixará exercer o menor direito de opinião. Vide os seus aliados, Sarney principalmente, que, a golpes de punho, inibe e proíbe quaisquer manifestações contrárias à sua candidatura: jornais, reportagens, blogs (blogs, meu Deus!) censurados com total corroboração do TSE. Finda a época, tão curta, de democracia. Morremos.
Ou estamos mortos há tempos? Creio que nossa morte, para a qual colaborei ainda que timidamente, estava marcada desde a fundação do pê-tê-saudações e camarilha. Inda lembro quando, jovencito de tudo, acreditava no mito Guevara & Castro; e Mao parecia solução; e Lênin um líder do povo. Hoje não posso mais. Escrevi isso aqui, já: envelheci, e envelhecer é bom às vezes: tornamo-nos mais conscientes quando nos libertamos dos discursos trôpegos da esquerdalha, coisa de esquerda canalha. Fui, um dia, cria disso – já não sou, e tento, com custo, não cair na extrema oposta. Quase impossível. A Ira por vezes é saudável. Ser contra o LuLLa me deixa são e me torna íntimo da lógica que sempre procurei por uma vida, aos trancos e barrancos – e não cedo um milímetro sequer à sedução deste assistencialismo hipócrita e mambembe feito para idiotas. Ser contra é o elogio, hoje, da inteligência. Ser a favor do que aí está é reconhecer-se como idiota. O Brasil é feito por idiotas. Que tenhamos cotas para os tais, já que a minoria verdadeira, que pensa por si, não terá espaço algum.
Sim, para idiotas. Quem vota no LuLLa e nos Crivellas & Heolísas Helenas são os idiotas. Todos, sem exceção. Compactuam ora com a corrupção (logo são essencialmente corruptos), ora com o desejo de um povo eleito miseravelmente (e são, assim, fascistóides e egoístas), ora com o idílico sonho de uma igualdade irrealizável e dominadora (e são adeptos da pior espécie de ditadura). Qualquer hipótese é cruel. E o leitor não me venha com o tal “sonho democrático” como se defendesse a igualdade entre os homens – isso não existe. Somos, Graças a Deus, diferentes – mais uma vez: essencialmente. E quem provar o contrário ganha uma passagem para Cuba, com direito a viver como povo, cortando cana, sob o regime dos últimos dias (UFA!) de Fidel.
Gostaria de comparar Lulla, e seus eleitores, com Quixotes, mas é impossível. Quixote pelo menos lia, coisa que a esquerda não faz – apenas repete o “que ouviu dizer” e assina embaixo sem pensar. Nem sequer poderia comparar a Sancho Pança, um pobre idiotizado que busca a solução para si mesmo, sonhando em governar uma ilha qualquer e depois é expulso. Os tais estão mais para Pantagruéis, gulosos e beberrões, alheios do mundo a si subordinado, peidando e arrotando vantagens. Quem não leu Gargântua e Pantagruel, crítica feroz ao regime autoritário, supostamente “esclarecido”, da Renascença, não vai entender. Tudo bem: petista não entende nada mesmo – ainda mais quando a comparação é literária.
(A partir de Drummond & mais)
Assim: nada contra a lua. Ela, esfera intensa no céu sombrio de São Paulo (choverá hoje, quem sabe) nada tem a-ver com o intuito deste texto. Mantém-se. Apenas as órbitas e circunlóquios que se desprendem da memória. Agostinho, o Santo, diz-que: passado & futuro encontram-se, assim sem-mais, na revelação do hoje e o do-agora. Suspendo, íntimo. Quem sabe saberia dos mistérios mas não: tudo ou nada me arrebatam; então:
comovido não estou nunca nem sempre. Sou, nada, em lugar-nenhum. Abstenho-me, quem-sabe: as coisas mexem c’o íntegro e c’o q’em parece. Ele é rarefeito, assim-assim última chama de desejos incertos. O que resta o incenso da canalha. Ainda o véu cristalino das folhas e palavras que teimam.
Mas o diabo, o demo, o coxo, o Esquerdo – esse É o Que-Manda. Se faz-que-não-Faz e domina o istmo do nada. Quem faz que sabe, não-sabe e basta-se. Tolerância. Totem tolo, imago soturno. Foi, não-foi – É. Danamo-nos todos, tolos. Está à solta, o Dito. Somamos.
Mas somos tampoucos, ínfimos e semidéias. Somos o que nunca somamos – aoléu abandono, bonançosos. Neñu’a descoberta: apenas o vazio dos vasos e as coisas que deixam de ser o que são. O diabolo
, o coxo me diz (dix), que o que-fala é toleima e se faz como tudo-nada nunca foi. Queria ser-que, mas não – o desejo de libertas (sem quae-sera-tamem) resta-me sem tanto. Deixei-de: molúsculos e músculos e discursos. & promessas várias & temas & misérias. & terras, sem mares, navegados como prévias sonâmbulas. Deixei & deixo & me descaro & descarto.
Ele, o Coxo, aparece. Mente-mente-mentirin-mentirão. Tudo turvo, como gosta. E nós no sem-fazer há tempo e no quem-déra. Não dá, assim apenas, – foi-se. & fomos
— todos no horror do que não-há nem agora nem-nunca (sempre). Deixamos-de. Afinal.
Mas somam-se as vésperas dos que não-foram e não serão; seriam quem sabe nas últimas quimeras (essas panteras) do sonho inviolável. Aquele tal último-cigarro c’o escarro & tudo que há-de direito – noentanto não o há n&m será. Seremos a tal promessa & o tal canto d’esp’rança?
ou apenas un’inolvidável espanto d’espera? Atento. Soma-se o acalanto q não s’estende & aguarda n’entanto – que foi & és & serás: o-quanto?
O tanto que não foi, o aguardo. O desejo imerso de sonâmbulo. & o ritmo sem-fim que deixou-de: espanto. E a lembrança, o escarcéu, ainda a lua, tua-tua & nua que se levanta triste-triste sobre o céu soturno, invisibil’e’sonora – deixo-de: Ser & Estar o aqui-nem-nunca.
Dolce sapore d’abbagliamento.