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Urubus


Apesar do título, esta não é uma crônica política. Poderia ser, na medida em que encontramos, nestas semanas pré-primeiro-turno, aves de rapina carniceiras, famintas por nacos de pútrida carcaça, desejosas em refastelar-se nas sobras dos adversários ou – o pior – na mesa do banquete principal, estendida no Palácio do Planalto. Os urubus, estes seres perversos criados pela mãe-natureza com um fim cujo significado não alcanço, são, para mim, o símbolo perene dos últimos quatro anos.

 

Em sua companhia estão, o mais das vezes, outras espécies também indignas e feiosas: hienas de todos os formatos e tamanhos, digladiando-se na tentativa de, por sua vez, roubar um naco, roer um osso, lamber uma sobra; mordem-se, em muitas ocasiões, sem atentar se a vítima é ou não da própria família: ferem filhos, mães, netos, pais, rosnam uns para os outros, cegos pelo alimento indigno. Querem apenas o pedaço que lhes sustente até a próxima refeição – ou a próxima eleição, o que dá no mesmo.

 

Pois que assistimos, às vésperas do banquete, a disputa pelos melhores lugares, próximos à porta da cozinha de onde sairão os garçons com as bandejas de delícias estragadas: um Pernil à la Education, ou um Flambè à la Ferme, ou ainda um delicioso Corruption de l’Idéologie Officielle, todos preparados pela mão de mestre-cozinheiro dos urubus e seus convidados, as hienas (imaginemos que ele se chame... Lorenzetti, quiçá?). Consigo vê-los, sentados em ordem hierárquica, guardanapos amarrados ao pescoço, bicos e focinhos abertos, a saliva ácida escorrendo... Aguardando, aguardando, aguardando...

 

Aguardando Domingo, o dia da refeição, do refastelar-se, do chafurda-se em sangue e molhos condimentados ocres e fétidos como faziam os nossos antepassados na decadência romana. Posso ouvi-los daqui: suas gargalhadas ébrias, as vozes roucas, a dicção atrapalhada pelo volátil do álcool servido por anos; posso ouvir em alto e bom tom o seu chefe berrando palavrões e confortável em sua douta ignorantia... Ah! Estes urubus e estas hienas, estes seres aparentemente indignos da Criação! Mas sabeis, leitor, o quanto são úteis para a Democracia desta selva!

 

Pois, não fossem eles, não fosse a sua insídia, não fosse o seu espírito podre (diga-me o que comes e eu te direi quem és, parodiando o ditado), não fosse a sua essência mais vil que a da primeira víbora, de nada, nada saberíamos: continuaríamos acreditando que aquele urubu continuaria a ser um belo e límpido colibri de flor em flor; teimaríamos  em ver naquela hiena de longo rosto eqüino, capaz das maiores promessas, apenas um belo potro de raça, fogoso em desvendar as verdades. Sim, meus amados leitores destas crônicas – Sim! São úteis para a Democracia os seres mais baixos e abjetos; a maior das porcarias que cometem em nome da verdade apenas revelam que pretendem dominar o banquete que virá...

 

Mas, oh! Decepção deste escrevinhador! Acabei por fazer uma crônica política, quando queria, apenas, falar sobre os urubus que sobrevoam a Av. Paulista e que vejo de minha janela, todos os dias.

 

Também – malditos bichos! Quem manda serem tão parecidos com os políticos do PT e seus aliados?

Escrito por Fabio às 04h02 PM.

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Fígado


Sempre alimentei memórias. Não que me considere velho o suficiente, nem mesmo com pretensões de ditar esta ou aquela lição de moral. Ainda que esteja no auge dos meus trint’oito anos, produzindo parcamente e lendo feito desvairado (como amando os livros neurastenicamente e devendo aos tubos para o mundo inteiro mais Plutão, já-não-existente, pobrezinho), considero-me um adolescente, daquele de Dostoievski, um tanto ingênuo e alheio ao que lhe envolve. Melhor: não sou o adolescente, nem mesmo Míchkin. Não sou ora um existencialista tolo (doença que abandonei há tempos) nem um ser que pretende ver o só-bom dos outros e deste mesmo mundo. Estou mais para um belo parágrafo, do mesmo Fiódor: “Sou um homem doente... Um homem mau. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei, ao certo, do que estou sofrendo”.

 

Não, não sei do que sofro. Toda manhã (as minhas manhãs começam ao meio-dia), leio e releio os jornais. Visito os blogs. Passeio pelas páginas da net. Tento ler aqueles nos quais não acredito mais e – leio! os que ainda me dão, parcamente, uma razão para continuar a existir. Os primeiros servem para corroer meu fígado, o fígado doente que tenho, e alimentar a bile negra necessária à minha existência (gosto do gosto de fel que Betto, ex-frei, e Zé, ainda incomPTente, mais Fidéis e calhordas, LuLLas inclusos, oferecem –  o gosto de ser, finalmente contra e contrário a isso que está aí. Um alívio, orgástico, tremendo, que me faz pensar: ARRE! afinal não sou um imbecil!); os segundos...

 

Os segundos soam como a Cavalaria Vermelha de Babel. Sei que não são/estão assim tanto na oposição. Votam no Alckmin e em Serra apenas por falta de opção. Geraldo e José, este o dilema em que vivemos: à esquerda, mas menos do que gostaria (gostaríamos). São oposição apenas no limite do poder. Depois: é o que d’antes será. No antigo quartel d’Abrantes ou coisa que o valha. Eles, os segundos, distantes, nas pesquisas, dizem pouco, ou nada. E o fígado padece.

 

E nem me venham com opções, leitores: Heloísa é pior que LuLLa, ou uma Lulla antiquada e de saias, sofrendo de tê-pê-emes seculares e feministas (continuam imbecis, as feministas); Cristóvam Buarque apenas tem em comum o sobrenome de Chico – assim como o apoio à canalha arrogante que vê em pobre a salvação da pátria. Mas, sabemos: pobre que é pobre quer ficar é rico – e essa esquerda, tucana ou lullista, não tem como fazê-lo. Alimentam-se dos ditos. Pobre é a fornalha das eleições.

 

Sofro do fígado, já disse. E ele, meu fígado, não vê saída. A nós, que somos contrários à mazela espúria dessa semi-demência, chamada democracia, chamam-nos “lacerdiatas” e “golpistas”. Meia-oito, meus filhos, já passou (Graças dadas!)... Colhemos, apenas, os frutos da sua, de 68, barbárie. Não há um, sequer, que apresente soluções para o que vivemos: LuLLa é filho dessa mãe, gentilíssima; Alckmin, o deste solo; Heloísa, da pátria-amada; Cristóvam, o do Brasil entregue.

 

No auge da minha doença, depois de todos os exames de sanidade, dizem: não há o que fazer. Duas saídas: aeroporto ou alheamento. Ambos me apetecem.



Escrito por Fabio às 11h33 PM.

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Marcha à Ré - ou: Censura, zifio!


O Brasil é mesmo um paradoxo. Por um lado, há a festifidade dos tolos com o LuLLa pronto para levar a eleição no primeiro turno; por outro, o silêncio abissal dos outros – e exatamente daqueles que, por anos, levantaram a tal bandeira contra a dita-dura dos gorilas fardados. De um e outro lado, a basbaque, o deslumbramento com o poder. Aliás, a briga pelo poder se tornou tão esquizofrênica que – mas vale um parágrafo, o assunto.

 

A briga pelo poder é esquizofrênica. Sempre vi gerentes de banco se arrogando poderes sobre seus funcionários ou qualquer capiau com cargo de chefia pronto para humilhar. Isso até que engulo – são, no mais das vezes, uns tolos que se sentem superiores porque podem mandar em meia-dúzia de outros capiaus como eles. Enfim, surpresa nenhuma. Mas aqui no prédio onde moro, por exemplo, há uma turminha do Pê Tê que faz que faz para dar um golpe no síndico. Tratamento de choque e camisa-de-força me parece o mais adequado no caso. Sem contar que este prédio tem sido muito mal-freqüentado: os petralhas (como os chama Reinaldo Azevedo) recebem a ilustre visita de Zé Dirceu, aquele mesmo, stalinista... Preciso mudar. De país de preferência.

 

O pior é que esta disputa se revela em sua face mais cruel e terrificante. Não bastassem as ações de dominação – agora usam do recurso que combatiam, vinte-e-tantos anos passados: a Censura. Sentem-se no direito de reclamar de qualquer notícia, qualquer crítica feita. Aconteceu, acontece, com José Sarney, aquele que foi presidente da democratização, lembram?, que conseguiu tirar do ar o blog da jornalista amapaense Alcinéa Cavalcante por colocar uma foto de um protesto público em um muro. O tal “Xô Sarney” já conhecido dos meus sensíveis leitores.

 

Agora é a juíza Ana Paula Theodosio de Carvalho, de São José dos Campos, que resolve colocar a sua insigne posição – pública, notemos –, para tirar do ar o Blog Imprensa Marrom, acusado de, nos comentários de um leitor, ter sido ofensivo a um certo João Pedro Boria Caiado de Castro – que, confesso, não faço idéia de quem seja e nem faço questão. Parece-me que não precisaremos esperar muito tempo para o retorno à malfadada dita-dura, em versão duríssima.

 

Não, não precisaremos esperar nem um dia mais a lei sobre a imprensa que o Efelentíssimo Ignorácio LuLLa da Silva pretende emplacar para controlar as críticas sobre Sua Insolência e canalha que o acompanha. Não, não será necessário aguardar a tal “imprensa livre” que o PT pretende implantar no Brasil com financiamento público. Não será preciso aguardar um Comitê de Censura Prévia composto por ilustres representantes de nossa intelectualidade (Gilberto Gil, quem sabe; Chico Buarque poderá adentrar nesse rol; Marilena Chauí chefiará o Comitê, claro; mais alguns pobres imbecilizados do meio artístico e acadêmico farão as honras da defesa da democracia petista). Nada disso ocorrerá nos próximos anos: acontece agora, neste instante. Acontece graças ao uso canalha de poderes que, ao invés de serem utilizados para o bem público, o são para usofruto do próprio ego inflado. Acontece pelo simples fato de que o país, este mesmo Brasil sempre-do-futuro, não tem coragem de olhar para trás e ter um mínimo de consciência histórica.

 

Acontece não porque os políticos sejam calhordas, ou os juízes – mas porquê, nós, eleitores, o somos. Por que nós, cidadão brasileiros, agimos como mulher de malandro e, a cada atitude arbitrária, a cada ação autoritária, sorrimos e dizemos: bate, bem, bate mais forte!



Escrito por Fabio às 04h09 PM.

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